Cultura

Exposição mostra que violação Também Acontece Aqui

Tiago Paiva

Centro Cultural Penedo da Saudade recebe exposição sobre tráfico de seres humanos. Hugo Pinheiro, autor das obras, destaca que “a ideia é criar proximidade cada vez mais a estes projetos, através das pessoas e das imagens certas”. Por Renato Duarte e Tiago Paiva

A exposição “Tráfico de Seres Humanos: Também Acontece Aqui”, da autoria do fotógrafo Hugo Pinheiro, foi inaugurada dia 29 de novembro e vai estar em exibição no Centro Cultural Penedo da Saudade até ao dia 17 de dezembro. Esta ação faz parte da quarta edição do projeto “Mercadoria Humana”, desenvolvido pela organização não-governamental Saúde em Português, que desde 2010 se debruça na sensibilização e prevenção na área do tráfico de seres humanos.

Na apresentação estiveram presentes, além de Hugo Pinheiro, o presidente do Instituto Politécnico de Coimbra, Jorge Conde, o relator nacional para o tráfico de seres humanos, Manuel Albano, o presidente da Direção da Saúde em Português, Henrique Correia, a coordenadora do Projeto Mercadoria 4, Ana Figueiredo e, ainda, Ana Cortez Vaz, vereadora da Câmara Municipal de Coimbra. Todos os representantes das entidades presentes destacaram a pertinência da exposição e do tema em destaque. Jorge Conde interpreta-a como “única para colocar, mais uma vez, os direitos humanos no centro da discussão”.

O projeto destaca-se pelo seu caráter pessoal graças à conjugação entre a vertente fotográfica e os depoimentos das vítimas de todo o tipo de violação presentes nas imagens. A relação entre os dois elementos da exposição promovem um “caráter dramático” na atmosfera da obra, que acaba por ser sentido e intelectualizado por quem a interpreta, na perspetiva de Hugo Pinheiro. O autor enaltece ainda que “a ideia é criar proximidade cada vez mais a estes projetos, através das pessoas e das imagens certas”.

A exposição constitui também um objeto alusivo a cada imagem que, segundo o artista, como o “elemento tridimensional é algo real, acaba por se tornar o mais próximo” de quem observa. A frontalidade e a entrega individual com que as personagens se apresentam causam ao espectador um certo “desconforto e estranheza”, acrescenta o fotógrafo. Neste âmbito, o artista remata que os indivíduos das telas confrontam e apresentam-se perante o público e é como se dissessem:  “estou aqui”.  

O recurso a fotografias tem sido uma das estratégias mais distintivas do projeto Mercadoria Humana, defendido por Ana Figueiredo como “uma das melhores formas para chegar a todas as pessoas com o poder da imagem como arte” ao que se alia a “rentabilização do projeto”. A coordenadora do Projeto Mercadoria 4 explica que a seleção do nome da exposição inclui duas interpretações. Por um lado, o facto “de acontecer em sítios que não são estranhos a nível geográfico e que podem estar perto” e, por outro, “o ser abrangente a várias áreas como o trabalho agrícola, o ensino ou a exploração doméstica”. Estes significados encontram-se espelhados em cada imagem da exposição que, para Ana Figueiredo, “é só uma parte do que foi experienciado por estas vítimas”.

Jorge Conde cruzou o tema com o ensino superior, ao destacar que quando se fala com estudantes deslocados, “comunica-se com redes que exploram pessoas, mesmo que não deem aso a tráfico humano”.  Acrescenta também que algumas destas pessoas “pagam para chegar à europa e ficam sem condições”. Em adição, Manuel Albano defende que os processos de sujeitos que “vêm ou vão em busca de um ensino melhor” devem ser acompanhados de perto. O relator nacional para o Tráfico de Seres Humanos sublinha que “enquanto a mobilidade não for elevada a direito fundamental, não se está num bom caminho para a solução desta problemática”. Ana Cortez Vaz adianta que, como vereadora e professora, já esteve perante situações que provam a necessidade de “detetar os aproveitadores de vulnerabilidades e combatê-los”.

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