Ensino Superior

Sala 17 de abril abre portas para conceder a palavra

Raquel Lucas

Espírito crítico visto como necessário em detrimento de uma hierarquia estipulada. Antagonia de posições menos acentuada que o esperado. Por Raquel Lucas

Esta segunda-feira, dia 26 de setembro, decorreu um debate sobre tradições académicas na sala 17 de abril, situada no Departamento de Matemática da Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade de Coimbra (UC). O evento teve início perto das 16h30 e foi criado no âmbito do Cria’ctividade, projeto alternativo de inclusão no espírito da academia. Debruçou, em especial, sobre os rituais praxísticos e os seus impactos no seio estudantil. Para tal, foram necessários quatro oradores e uma moderadora, Luísa Macedo Mendonça, estudante de Direito na UC.

Na vertente a favor estiveram presentes Emanuel Nogueira, antigo membro da comissão permanente do Magnum Consilium Veteranorum e André Galvão, antigo presidente do Núcleo de Estudantes de Engenharia Eletrotécnica e de Computadores da UC. Em contrapartida, fizeram-se ouvir Catarina Martins, professora na Faculdade de Letras da UC e Diogo Barbosa, coordenador de programação na Rádio Universitária de Coimbra.

O debate teve a duração de duas horas e meia e foram discutidos tópicos como consentimento e ética, questões de género, praxe versus gozo do caloiro e manutenção da tradição. Cada assunto foi discutido durante vinte minutos entre os oradores e, perto do fim, abriu-se espaço para questões e observações da audiência.

A troca de ideias

Emanuel Nogueira foi o primeiro a abrir a conversa, numa ótica de distinção entre tradição académica, da qual é a favor, e a dita “praxe de gozo ao caloiro”, que se tem tornado “algo formalizado e militarizado”, nas visão do próprio. Nesse aspeto, o jovem mantém a crença de que, para futuras discussões, é necessária a noção distinta de ambas as coisas.

Seguiu-se a intervenção de Diogo Barbosa, que considera o ritual praxístico uma “prática que envolve hierarquia e gozo de outras pessoas disfarçado de integração”. Assim, fez referência ao Cria’ctividade enquanto iniciativa alternativa à praxe, focalizada na integração.

Por sua vez, André Galvão contra-argumentou ao defender que “a praxe é uma prática do dia a dia” que acontece de forma natural e o seu objetivo é “rir com o caloiro e não do caloiro”. Com isto, o estudante afirmou não concordar com condutas adulteradas e de abuso, que fazem com que “se perca a tradição” inicial e, nesse sentido, fez referência à necessidade de “se aplicar o bom senso” para que estas não aconteçam.

Catarina Martins avançou no diálogo e discutiu a falta de audiência no debate sobre aquela que é, a seu ver, uma prática “enraizada na humilhação, ordem e tendências conservadoras”. Na ótica da docente, é “preciso dar mais valor às reivindicações e às memórias de resistência” dos estudantes, em detrimento da “ordem hierárquica atual” para que as práticas praxísticas possam, de alguma forma, dar a mão à tradição académica e progredir nos seus valores.

Ao longo da discussão foram trazidos à deriva outros aspetos, como a necessidade de referência à academia e ao seu valor no seio da praxe. A finalidade é, de acordo com Diogo Barbosa, que os estudantes possam conhecer a universidade e o que esta oferece, de uma forma democrática e envolvida no espírito crítico. O antigo repúblico salienta a importância enraizada na aprendizagem sobre a história da instituição e dos estudantes, assim como na “ocupação dos espaços” que, na sua ótica, não é fomentada pelo ritual praxístico. “Questões como o alojamento, o encerramento de repúblicas e o prato social deviam ser mencionadas aos alunos na praxe”, contou.

Desta forma, insistiu que “o processo de integração” devia incluir “rodas de conversa e informação” que fomentassem o pensamento crítico e a cultura democrática, em detrimento de uma hierarquia estipulada. Nesse aspeto, André Galvão salientou a divisão atual entre estudantes, que “não se focam em lutar todos pelas mesmas coisas”, o que cria uma evolução “mais agressiva” do ritual praxístico e falta de interesse em debater este tipo de temas.

“Queixem-se!” foi o pedido de Catarina Martins num encontro entre tópicos polémicos como o consentimento, direitos humanos, ética, sexualização, patriarcado e pressão social no seio de integração na academia. A docente insiste para que haja contestação e a reivindicação ganhe força entre os estudantes que sofrem de “microviolências” através de “cânticos brutalizadores e rituais do ato sexual” na praxe.

O desfecho

Perto do fim, pelas 18h30, alguns membros do público demostraram a sua posição e geraram um debate sobre as suas experiências, opiniões e soluções, em alternativa ao que se passa. Em entrevista ao Jornal A Cabra, Bruna Passas, estudante de Jornalismo e Comunicação na Faculdade de Letras da UC, fez um balanço positivo do diálogo e mencionou a “vontade de ouvir e a disposição para melhorar” da vertente a favor.

“Está-se a abrir toda uma consciência e não está a ser alimentado um espaço de reivindicação, importante para a responsabilidade dos estudantes em melhorar o meio académico”, comentou. Nesse sentido, a jovem salientou ainda que “há muito mais a fazer” e unir ambos os lados para “chegar a um consenso”.

De uma maneira geral, a antagonia de posições no debate não foi tão acentuada quanto era esperado, de acordo com alguns membros do público. “Apesar de termos opiniões diferentes, existe aqui um ponto de contacto: dar visibilidade à tradição académica”, referiu Emanuel Nogueira. Na mesma linha de ideias, Catarina Martins aproveitou para adicionar que, para se alterarem os padrões atuais da academia, “tem que haver união e estratégia”. “É uma luta difícil mas tem de ser feita”, concluiu.

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