Cultura

APURA PARTE 2 – a música deu espaço à palavra

Raquel Lucas

Noite assinalada pela poesia e declamação musicada. Diversidade de público e afluência em massa tornam segundo dia singular. “Coimbra, mais uma vez, demonstra que esta agregação de esforços é para continuar”, comenta uma das envolvidas no festival. Por Raquel Lucas e Ana Filipa Paz

Neste sábado, dia 24, o Festival Apura convidou todos os presentes a embarcar numa viagem pela música eletrónica, tradicional, pela instrumentalização analógica e pelo jazz espiritual. O improviso teve lugar em todas as atuações. Os artistas atraíram uma audiência maior, mais diversificada e interativa, pelo que a maioria era composta por pessoas mais velhas, em oposição ao dia anterior. Plantas, luzes e mobiliário antigo ornamentavam o palco, a par de uma atmosfera marcada pela serenidade e harmonia. A noite fez os mais jovens regressar, mas manteve a energia calma e existencialista. 

O segundo dia do APURA elevou a fasquia ao trazer a palco um artista local reconhecido a nível nacional e internacional. Pedro Chau é natural de Coimbra e integra a banda The Parkinsons, um grupo português sediado em Londres, conhecido pela sua extravagância e energia contagiante. Aqui, o artista deixou o rock e o punk para trás e apresentou-se no Palco Apura como DJ.

Ana Maria seguiu-se no programa acompanhada de João Bargão, que atuou no dia anterior a solo, e Ricardo Brito, membro do grupo Pešpakova. Ritmo, poesia e sentimento não faltaram na performance. A música tradicional “Senhora do Almortão”, poema de Lia Cachim, ganhou uma nova vida pela interpretação de Ana Maria. O grupo também musicou o poema “Cu de judas”, da mesma autora, composição que surge a partir de uma sinergia entre declamação e canto. 

A inovação prevaleceu no Palco Apura, que durante a tarde foi rodeado de pessoas a ler, dançar e a cantar. A atuação distinguiu-se pela repetição de sons expressivos e pela agitação da plateia. As pessoas conversaram, as crianças brincaram e os cães discutiram, som que os próprios artistas reproduziram de forma a tornar os latidos intrusivos num momento engraçado. O concerto terminou com uma música que não é estranha ao festival. “Tela sem tinta” volta a ser cantada pelo autor, João Bargão, em conjunto com Ana Maria e Ricardo Brito. 

A percussão e a ‘loop station’ foram os únicos instrumentos que acompanharam as vozes de Luísa Levi e Constança Ochoa. Os Peixinhos da Horta trouxeram para o Festival Apura originais em língua portuguesa, dos quais “Vento”, “Outono”, “Quarto das danças” e “Berço”. Ainda que com alguns problemas técnicos a interromper o espetáculo, as harmonias e melodias apresentadas não deixaram que o público se desprendesse da atuação. “Maresia” é o título do single do grupo com maior popularidade, que deixou a audiência hipnotizada pela comunhão elegante de tons e acordes. A dupla recorre a outros instrumentos como o pau de chuva e o afoxé para criar sons que lembram a natureza e criam um ambiente místico, coincidente com as temáticas sonho e utopia. 

O feedback de quem está do outro lado.

Quando questionada sobre o festival, Assunção Ataíde, presidente da Agência para a Promoção da Baixa de Coimbra, revela “ter acompanhado a evolução do Apura” a partir do momento em que “um dos membros da organização falou com a União de Freguesias” da qual faz parte. A entrevistada reconhece “uma grande qualidade” dos artistas, “alguns dos quais já conhecia” e considera “fantásticos, com boa formação e muita criatividade”. Para rematar a sua intervenção, reforça a ideia de que “Coimbra, mais uma vez, demonstra que esta agregação de esforços é para continuar”.

Entretanto, chegou a vez de Lavra, grupo musical composto por Carolina Drave, Johnny Gil e Gonçalo Parreirão, dar entrada no palco Salão Brazil. O trio iniciou a sua atuação por volta das 21 horas e fez questão de estar rodeado pelo vasto público, que formava um círculo sentado à sua volta. O ambiente misterioso com pouca luz, a par do uso da palavra e da instrumentação analógica tornou a performance do grupo um tanto “experimental e existencialista”, como descrito por Ana Rodrigues, membro da plateia. 

No fim do concerto foi possível averiguar as demais opiniões daqueles que compunham o público, diversificado de uma ponta à outra. Clara Cardoso, estudante de História da Arte em Coimbra, caracterizou o ambiente como “alternativo” e salientou a presença de “pessoal de todas as idades” com entusiasmo. Ao seu lado estava Joana Freitas, também estudante, que admitiu não estar familiarizada com este género de atuações. No entanto, não deixou de demonstrar o seu interesse pelos artistas e pelo ambiente. 

Com a chegada de Angus Fairbairn, de nome artístico Alabaster DePlume, às 22h30, o espaço, que já estava quase lotado, depressa se encheu. Acompanhado pela bateria e duas guitarras, o jovem saxofonista tomou conta do palco com o seu talento, intercalado com uma forte interação com o público. Gargalhadas, aplausos e comentários de apreço assinalaram a plateia do artista, que se demonstrou grato e estimado por todos. A performance foi marcada pelo improviso e pelo tom progressivo, que evoluía em simultâneo com a energia do público. 

À semelhança da noite anterior, as atuações continuaram a desenrolar-se no palco Lúcia-Lima, na República da Praça. Com início perto das 00 horas, Pêra Roxa deu início à sessão de concertos, seguidos de Inês Rodrigues e António Manuel.

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