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Ensino Superior

Desvalorização do diploma: AAC reivindica melhores salários para diplomados

Fotografia cedida por João Caseiro

Sátira reivindica melhores salários para trabalhadores com ensino superior. João Caseiro ressalta importância dos movimentos estudantis na luta pelos interesses dos estudantes. Por Luísa Macedo Mendonça e Simão Moura

No rescaldo dos resultados do estudo realizado pela Fundação José Neves (FJN): “Estado da Nação sobre Educação, Emprego e Competências em Portugal”, de 2022, a Direção-Geral da Associação Académica de Coimbra (DG/AAC) instalou, na passada quinta-feira, dia 7 de julho, uma peça satírica na porta do edifício da AAC. A reivindicação baseia-se no facto de os salários dos diplomados terem caído, entre 2011 e 2019, cerca de 11%. A instalação foi colocada no mesmo dia em que representantes da AAC foram ouvidos na Assembleia da República (AR) em reunião com os diversos partidos numa exposição e esclarecimento de ideias com vista a melhorar as condições dos estudantes do ensino superior em Portugal.

Ao lado das Associações Académicas das Universidades do Minho e de Aveiro, a AAC representou todo o movimento associativo nacional. O presidente da Direção-Geral da AAC (DG/AAC), João Caseiro faz um balanço positivo da reunião marcada pelo tom mais expositivo, e, apesar de notar a posição defensiva do partido no poder, em contraste à crítica da oposição, crê que as “intervenções tenham contribuído, ou venham a contribuir, para o desenvolvimento de políticas públicas em matéria de ensino superior no país”, declara. O dirigente ressalta ainda que tem havido uma “grande abertura” por parte da AR para ouvir as reivindicações estudantis, e relembra ainda a recente audição com a federação nacional de estudantes do ensino superior politécnico. João Caseiro avalia esta receção do movimento estudantil junto dos representantes dos partidos nacionais como “muito positiva” e considera que isto permite que “a ação das Associações Académicas/ Estudantes não seja tão localizada”.

O estudo da FJN

No que toca aos resultados do estudo da FJN, João Caseiro expõe que, à medida que o salário mínimo aumenta, “não há um acompanhamento a nível salarial” para os diplomados, uma vez que “há cada vez mais qualificados e cada vez há uma maior aproximação entre os salários médios e mínimos”. Tal como o estudo indica, os salários dos trabalhadores de baixas qualificações aumentou 5%, enquanto que o de trabalhadores de qualificações médias desceu 3% e o de trabalhadores de qualificações superiores desceu 11%.  “Uma pessoa, quando investe na sua formação para depois ir para o mercado de trabalho, tem que ter um salário justo para aquilo que foi esse investimento, assim como para os contributos que pode vir a dar à sociedade.”, justifica o presidente da DG/AAC. 

Ainda assim, o dirigente da DG/AAC comenta que “não basta falar de “desvalorização salarial”. João Caseiro nomeia os custos de vida como outro fator que leva à deterioração da situação laboral dos licenciados, e sugere incentivar os jovens a fixarem-se em zonas mais descentralizadas, onde este tipo de despesas são menores. Acrescenta ainda que as oportunidades “não acompanham a desvalorização social (do ensino superior)”, e que esta proposta consta do caderno reivindicativo que foi entregue ao Governo. “Temos o dever de procurar influenciar as políticas públicas para que a descentralização se torne efetiva (não apenas nos discursos), quer a nível de emprego, como de oferta”, conclui.

João Pedro Caseiro, acerca do tema, ressalta a relevância da existência de estudos que permitam sustentar as políticas públicas. Um dos temas que destaca neste âmbito é a do abandono escolar. Como o próprio destaca, é muito importante aferir “até que ponto é que a perspetiva que um estudante tem para o seu futuro não acaba por contribuir para o abandono escolar”, ao abordar o modo como a perspetiva salarial, as limitações da ação social (das bolsas de estudo, como indica por exemplo), o congelamento das propinas e o custo de vida afetam a tendência do abandono dos estudos.  “Acima de apostar em políticas públicas, temos que apostar em políticas públicas com fundamento”, declara.

No caso de estes esforços não terem o resultado esperado, o dirigente diz que a solução pode encontrar-se dentro da Cidade de Coimbra. O estudante exemplifica com uma possível parceria entre a Universidade de Coimbra, a AAC e a Câmara Municipal de Coimbra, no sentido de agilizar a procura e melhoria de condições de emprego.

A sátira

A peça satírica consiste numa representação de uma tenda de circo, dentro da qual se encontra a figura de António Costa, Primeiro-Ministro (PM) português, enquanto representação do Governo e AR como um todo, a “fazer malabarismo” com um diploma e notas, em representação do balanço “entre o que é o investimento pessoal, familiar, dos estudantes para estarem no ensino superior e depois a valorização, quer salarial, quer laboral, que é muito diminuta”, indica João Caseiro. Por trás desse, está afixada uma lona que explicita a base da reivindicação, com a “geração mais qualificada de sempre” (afirmação do PM) a rumar aos países da União Europeia, enquanto que a valorização forma uma tendência inversa. 

João Caseiro diz que a figura satírica do PM surgiu da vontade de marcar a posição de forma “palpável” e não apenas “teórica”. Explica que, deste modo, a intervenção “capta muito mais a atenção, as pessoas perguntam, estão atentas e pensam sobre o assunto”. Declara ainda que a DG/AAC vai continuar a “desenvolver documentação relativa a política educativa, sempre com base naquilo que já foi aprovado também pela Assembleia Magna, para continuar a apresentar ao Governo e aos partidos”. A peça vai ficar à porta da AAC durante as próximas duas semanas. Ao longo do mês de julho e do verão, a DG/AAC vai ter uma ação “documental”, mas João Caseiro sublinha que a sua direção “não se vai inibir de fazer outro tipo de ação mais física, como a manifestação nacional”.

Fotografia cedida por João Caseiro

Os estudantes

A fim de averiguar o ‘feedback’ dos estudantes face à reivindicação, o jornal A CABRA realizou um questionário anónimo na plataforma Google Forms. A opinião dos estudantes quanto à ação da AAC está dividida: embora reconheçam, de um modo geral, a importância do assunto, alguns dos discentes dizem que esta intervenção vem tarde, ou que gostavam de ter visto algo do género em outras situações, que surgiram ao longo do ano letivo, e não viram. Ainda assim, quando questionados sobre se se sentem representados pela Académica, a maioria respondeu de forma positiva. Mas foram ainda apontadas algumas críticas ao facto de, por exemplo, não haver mais discussão/ diálogo com os estudantes.

Face à peça satírica em si, as respostas, mais uma vez, variam, mas a receção é, de um modo geral, positiva quanto à intenção por detrás da sátira, uma vez que a questão dos salários decrescentes dos trabalhadores diplomados é algo que preocupa a comunidade estudantil. As opiniões dividem-se mais quanto ao aspeto da sátira, que é considerada “muito bem concebida”, mas também “contraproducente”, uma vez que a AAC não se pronunciou de forma tão “audaz” face a outras questões durante o ano letivo. Porém, ninguém desvaloriza a importância da reivindicação, que é considerada “de grande relevância”. 

Por fim, quando questionados acerca da possibilidade de emigração no futuro, a resposta foi também, de um modo geral, positiva. Na base disto encontram-se os baixos salários e as baixas perspetivas de evolução de carreira ao longo da vida, quando comparados com países estrangeiros. Ainda assim, há quem tenha esperança e adie a perspetiva de emigração para última opção, ainda que reconheçam que, se as condições e a valorização dos diplomados forem aquém do desejado, a solução será emigrar para um país em que o trabalho seja mais reconhecido.

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