Cultura

“Às vezes a canção durava três minutos e ele falava sete”

Luís Almeida

Zeca Afonso pelos amigos que podiam ser seus filhos, mas acabaram companheiros. Com ele “era sempre a mesma história”. Por Filipa Magalhães

O menino que nunca cresceu e que não tinha jeito para contar anedotas, nasceu em Aveiro, a 2 de Agosto de 1929. Filho do magistrado José Nepomuceno Afonso e da professora primária Maria das Dores Dantas Cerqueira. Educado ora pelos pais, ora pelas tias e tios, ora em Angola, ora em Belmonte e Moçambique. Em 1942, já a estudar em Coimbra, perde o contacto com os pais durante três anos, aquando da invasão de Timor pelos japoneses – Maria Cerqueira e José Afonso são expedidos para um campo de concentração.

Esse precoce deambular e a influência de uma panóplia de educações diferentes por partes dos tios (entre os quais a do tio salazarista, num ano que Zeca classifica como o mais miserável da sua vida) compuseram em Zeca Afonso uma série de “fantasmas pessoais”, como conta o seu amigo José Jorge Letria.

A amizade, que se originou num convívio académico em Lisboa, resistiu aos concertos clandestinos e ao vaivém recorrente para escapar às detenções policiais, quando na rua discretamente se alertava: “é melhor o Zeca não cantar porque se cantar vai dentro de certeza”.

O saltimbanco, homem libertário

Apesar de serem escassas as fotografias em que o cantor apresenta um sorriso, Jorge Letria garante que Zeca Afonso adorava rir e que lhe contassem anedotas, sendo certo que muitas vezes se dirigia ao amigo e pedia “conta aí umas”. Também Carlos Guerreiro fala do sobejante sentido de humor do poeta, “sobretudo muito cáustico” mas que muitas das vezes tinha como objecto o próprio: “tinha um grande sentido de auto-crítica”. “Divertíamo-nos muito, oh se divertíamos”, acrescenta com cumplicidade.

José Afonso não fumava, não bebia, não engordava. Fugiu a todos os vícios geracionais da sua altura mas há, no entanto, uma grande incorrecção do “andarilho” (como se nomeava) que enternecia todos os seus convivas e que era a sua vertiginosa distracção: “O Zeca parecia estar sempre noutra”, relembra Letria. O homem que com ímpeto escreve “Venham Mais Cinco”, com igual proeza se dirigia a algum lado com um sapato castanho e outro preto, além de, conta Guerreiro, “ser um despistado, era incapaz de vir de Setúbal a Lisboa sozinho, baralhava-se, não percebia nada de transportes.”

Depois de ser “bicho” em Coimbra, tornou-se também bicho de palco. Num concerto que era terminantemente diferente dos da actualidade, era mais um concerto-colóquio, Zeca (depois das breves inseguranças iniciais) falava para o público daquilo que toda a gente sabia, explicava as canções; era o seu febril respeito pelo público e pela mensagem que queria transmitir que logo alinhavam público e artista.

Apesar de durante toda a sua carreira em que fazia política cantando, cujos concertos e sessões de canto eram largas vezes organizadas e apoiadas pelo Partido Comunista Português, Zeca nunca chegou a ser militante do mesmo partido. Jorge Letria acredita que este isolamento ideológico, apesar de também defender uma organização popular de base, advém de um pendor anárquico, “quase soberano”, que caracterizava o poeta, incapaz de se enquadrar numa estrutura formada. Rui Pato, que compôs e tocou com Zeca Afonso conclui: “ele acaba por ser a voz da revolução. Acaba por ser um símbolo. Se as canções dele não eram suficientes para fazer uma revolução conseguiram, de facto, incomodar muita gente”.

Inquietação

Aquando da escolha da contra-senha, no dia 29 de Março de 73, que iria despoletar a Revolução de Abril, José Jorge Letria, Zeca Afonso e Adriano Correia de Oliveira, celebram um concerto no Coliseu de Lisboa. Não podendo definir a “Venham Mais Cinco” – pois havia sido censurada no próprio dia – escolheram antes “Grândola Vila Morena”, o que para Letria “foi espantoso, porque a canção não só escapou ao corte da censura como, ao ser cantada, milhares de pessoas, seis ou sete mil, levantaram-se abraçadas a cantar aquela canção”.

Ao que parece, José Afonso desconhecia a escolha da canção e, segundo José Jorge Letria, só teve conhecimento do facto no final da manhã do dia 25. Ele, que esteve com Zeca Afonso no dia da Revolução dos Cravos, recorda: “lembro-me perfeitamente de quando o encontrei, creio que às 3 ou 4 horas da tarde, abraçámo-nos e não conseguimos dizer nada um ao outro. A comoção era muito grande e realmente não havia nada para dizer”. José Letria afirma que em Zeca Afonso há também um homem profundamente angustiado, marcado pelo afastamento dos pais em pequeno e pelo tempo de prisão em Caxias. Essa mágoa vivida pelo cantor era, segundo o amigo, conservada por uma “cortina de silêncio”. Zeca não falava muito de família (até porque considerava, segundo Letria, que vulgarizar as relações familiares em conversa era uma atitude burguesa, o poeta preferia assuntos colectivos), nem do tempo da prisão, era “muito pudico”.

Carlos Guerreiro fala antes de uma inquietação interior muito grande, que era clara no poeta. “Às vezes fazíamos viagens muito longas e ao fim de algum período de silêncio ele dizia: ‘epá tenho que parar,

tenho que parar, esta cabeça não pára, estou sempre a analisar, a conjecturar, a relacionar – já estou cansado’. Portanto, ele cansava-se consigo mesmo”. Tempos depois de Zeca Afonso, a um passo do descanso – que a vida lhe não concedera -, insistentemente repetir “não posso parar, não posso parar”, José Mário Branco na ‘Carta ao Zeca’ orgulhoso e triste canta “Grandes janelas soubeste abrir / Para onde o ar correu sem te pedir”. E não parou.

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