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Desporto

Filipe Albuquerque: “Necessito de estar em Coimbra para encontrar o meu equilíbrio”

Diogo Machado

Num ano complicado para os atletas de alto nível, o português Filipe Albuquerque somou mais três troféus na sua carreira. O piloto conimbricense conquistou o lugar mais alto do pódio no Campeonato do Mundo de Resistência e destaca a importância da dedicação e do empenho por parte das futuras gerações. Por Julia Floriano

Como foi a sua infância em Coimbra e qual é a ligação que mantém com a cidade? 

Foi ótima. Pude crescer numa cidade calma, muito tranquila e segura. Tinha liberdade de andar já tão novo para todo lado, ir a pé para a escola, ia sozinho e isso era muito bom. Criei uma ligação muito grande e senti que necessitava de estar cá em Coimbra, mais numa fase inicial, para encontrar o meu equilíbrio. Gosto também desta calma da cidade, porque o meu dia-a-dia nas corridas é muito atarefado e muito stressante. Quando estou fora das corridas consigo ter essa calma que me equilibra face às corridas e o viver ao segundo.

De que forma teve de adaptar a sua rotina no contexto pandémico atual?

No contexto da pandemia pude estar com as pequenas em casa e com a família. Mas conseguia na mesma coordenar, ou seja, ia correr. Não consegui ir ao ginásio que sempre fui, improvisei, treinei em casa. Tinha um espaço pequeno mas conseguia, através de vídeos online e treinos que já conheço do passado e fui coordenando com essa parte. Já está muito enraizado em mim, já sei o que eu tenho que treinar, portanto dei-me bem com essa parte.

A preparação para as 24 Horas de Le Mans é diferente do habitual?

Não, não muda a rotina, apenas intensifico mais o meu treino. É como se fizesse quatro ou cinco corridas num só fim de semana. E é nessa fadiga muscular que eu tenho de estar mais apto. Costumo fazer treinos bidiários: correr de manhã e depois treinar físico à tarde e fazer isso durante três dias para dar esse cansaço muscular ao corpo e habituar. 

Quais são as expetativas para o campeonato de 2021 com a nova equipa Wayne Taylor Racing? 

É claramente para ganhar. Eu tive agora um fecho de ano muito bom, com muitas equipas interessadas em mim e pude escolher qual delas é que eu queria. 

É o primeiro português campeão do mundo de resistência, o que representam estas vitórias para as futuras gerações do automobilismo?

Acho que devem criar esperança e alimentar o sonho de que é possível lá chegar. Eu venho de uma cidade que não tem tradição no desporto automóvel, vivemos numa cidade com a tradição da faculdade, dos estudantes. Acho que a mensagem deve ser que não importa de onde é que nós vimos, o importante é dedicarmo-nos e estarmos concentrados no que queremos atingir. Acho que isso é o principal objetivo, seja no desporto automóvel, seja em qualquer outra atividade. Eu quero passar às pessoas que houve muito trabalho e dedicação, porque o percurso é longo e é fácil concentrarmos-nos só no sucesso das outras pessoas e esquecer os outros 98 por cento que estão por trás do trabalho. 

Visto que o desporto motorizado exige muito investimento, de que forma se pode promover maior inclusão?

O desporto motorizado depende não só da parte humana, mas também da parte mecânica que é o carro e isso tem custos. Acho que o Estado poderia estar envolvido, como por exemplo fazem os Estados Unidos para todos os desportos, que é dar incentivos fiscais a empresas que patrocinam e apoiam o desporto. Ou seja, não interessa se é no desporto automóvel, mas que apoiem, porque criam um mercado paralelo que também ajuda a economia. Acho que era uma maneira fácil de incentivar e criar heróis para o futuro.

Como podem as novas gerações iniciar no desporto motorizado?

Não se deve começar logo de cima. Deve-se começar sempre no sítio mais próximo de casa, ir aos kartódromos, começar por fazer algumas corridas, passar ao nacional, e experimentar para continuar a evoluir. Podes começar a experimentar outros campeonatos que existem e foi o que eu fiz, mas nunca deves saltar etapas. Nas redes sociais é fácil perceber qual o percurso de cada piloto, estão delineados na internet.

Sente que Portugal investe no desporto como outros países?

Eu acho que talento temos, principalmente per capita. Mas Portugal nunca foi um investidor no desporto. É diferente apoiar de investir. Nós somos poucos e não há grande investimento da parte do Estado para ter atletas ao mais alto nível. 

Tem algo a acrescentar?

Hoje em dia estamos a ver muito a falta de dedicação dos jovens. É fácil olhar para o telefone e ver o sucesso das pessoas. As redes sociais só contam o sucesso, não contam os problemas, as dificuldades e cada pessoa tem uma história por trás. Eu tenho uma história e falo dela, não todos os dias. Não é necessário relembrar às pessoas o quão difícil foi, mas o que fica é só o sucesso. E as pessoas querem ser aquilo e agir, mas depois os sonhos acabam, e desistem ao longo do caminho porque dá muito trabalho. É importante que, antes de se traçar o que se quer, se tenha afinco e brilho no que se faz e acho que isso é o principal para desenvolver o resto. 

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