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Cultura

Não há espadas sem dor: Os 35 anos da estudantina que cativou Portugal

Pedro Emauz Silva

Na semana do aniversário da EUC, o Jornal A Cabra reconta a história da tuna que representou Portugal na Expo’92. Tudo tem uma razão, até o “ai” do seu FRA. Por Gabriel Rezende

Numa fria noite, a 16 de março de 1985, um grupo de estudantes de capa e batina reunia-se com a proposta de trazer de volta a Coimbra a tradição das tunas. Foi assim que, na Póvoa de Lanhoso, veio à vida a Estudantina Universitária de Coimbra (EUC). Desde então, gerações têm-se unido por dois amores: Coimbra e a música.

Francisco Costa, João Cunha e Jorge Fernandes foram alguns dos que, naquela noite, subiram ao palco para fazer ecoar. Não são assim conhecidos pelos amigos tunos, mas sim pelas alcunhas “Chico Polícia”, “Cunha” e “Fusquetas”. Na altura, Francisco e João estudavam Direito. Facto é que Francisco se manteve matriculado por 17 anos, mas nunca conseguiu terminar o curso. Já Jorge esteve em Geologia.

No entanto, a história começa antes. A ideia de reavivar a antiga Estudantina Académica de Coimbra partiu de Joaquim Reis, membro da recém-criada Secção de Fado da Associação Académica de Coimbra (SF/AAC). Durante aquele período, era comum convidar-se tunas espanholas, de Santiago de Compostela e Salamanca, para animar a semana académica, já então conhecida como Queima das Fitas.

No início dos anos 1980, o Sarau da Queima das Fitas ajudou a estreitar o contacto entre a academia coimbrã e os homólogos espanhóis que Joaquim Reis já conhecia. Francisco conta que, naquele sarau, os espanhóis indagavam a razão de Coimbra não ter a sua própria tuna académica, apesar de ter bons músicos. O contacto entre ambas tradições ibéricas despertou no grupo de 15 estudantes o desejo de desenvolver um trabalho baseado na música popular portuguesa, como o Conjunto António Mafra.

Mais tarde, em 1984, Coimbra recebe o convite para se fazer representar num certame de tunas. No entanto, na falta de um grupo que pudesse representar a cidade dos estudantes, foi a Espanha um grupo de fados que, como conta Francisco, “estava desajustado ao clima festivaleiro do evento”.

Ambos os antigos estudantinos relembram que, desde a fundação da SF/AAC, entre o fim dos anos 1970 e começo da década seguinte, havia um debate sobre a possível retomada das atividades tradicionais, como a Tuna Académica. Com a retomada da praxe académica, na mesma época, o grupo, liderado por Joaquim Reis, passou a ter serões regulares, em casa de Paulo Saraiva, para escolha do repertório.

Até então, a EUC não possuía qualquer tema original, sendo os primeiros escritos apenas no ano letivo seguinte, 1986. Com apenas um ano de existência, são convidados a apresentar-se em Salamanca. Jorge acrescenta que, naquele momento, já tinham no repertório e apresentaram “Dedicação”, “Assim mesmo é que é (Rapariga)” e “Afonso”, temas que perduram até aos dias de hoje.

“O António Vicente começou por trazer um original seu, “Céu oh ai”, e, ele próprio, rapidamente iniciou uma viagem vertiginosa de criatividade e originalidade de matriz conimbricense e universitária, criando temas que hoje são “best-sellers” e que constituem a matriz do imaginário das gerações estudantis desde os anos 80 até hoje e imagem de marca histórica da EUC”, rememora João.

Segundo Jorge, o primeiro disco da EUC, “Estudantina passa”, exigiu “muita concentração e trabalho afincado”. Mas mesmo nesse momento o inesperado ocorreu. “Durante a gravação do FRA, no “Às espadas!”, houve um que mexeu no tripé do microfone, apanhou um choque e disse “ai!”. Ficou na gravação e passou a ser tradição, ainda hoje alguém diz “ai!” nessa parte e possivelmente nem sabe o porquê”.

No mesmo dia, o acaso trouxe-lhes uma oportunidade. Ao irem jantar à Trindade, acabaram por conhecer o atual Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. Na ocasião, foram “desafiados” a acompanhá-lo num grémio literário na sua residência, no fim do ano.

Em 1992, o mesmo ano do lançamento de “Canto da Noite”, segundo disco da EUC, foram os tunos, a convite do então Presidente da República, Mário Soares, representar o país na Exposição Universal de Sevilha de 1992 (Expo’92). “Enquanto estudante conheci o mundo inteiro e consegui tudo, menos tirar o curso”, brinca Francisco.

Ambos os estudantinos sublinham a “fantástica” relação com a comunidade académica. “A academia de repente descobriu que havia um grupo de estudantes que cantava e tocava músicas que versavam sobre as suas vidas, a sua identidade, os seus amores, os seus sonhos, as suas aventuras na Coimbra de então, e que representavam a sua universidade, a cidade e o seu país, com muita alegria e simplicidade”, reflete João.

Ao longo de 35 anos, Francisco e Jorge notam alguma mudança no que é a cultura académica de Coimbra. “Dantes, todos nos tentavam copiar. Durante 20 anos fomos modelos, éramos a referência. Agora somos mais uma tuna”, lamenta Francisco. Contudo, não houve apenas mudanças negativas. Apesar da distância física, o espírito fraterno manteve-se vivo, e os antigos membros ainda se reúnem com alguma periodicidade.

Também João notou alguma diferença na relação dos estudantinos com a EUC. “Em determinada altura, fiquei com a percepção que a Estudantina se fechou um bocado sobre si própria, mais preocupada com questões de apuro musical e menos com o companheirismo e academismo que a sua matriz gerou”, reflete. No entanto, sente que a geração mais nova da EUC tem “uma convicção de que não se pode andar a mandar setas ao caminho trilhado pelas diferentes gerações anteriores”.

Apesar da admiração de o grupo ainda existir, Francisco e Jorge sentem-se orgulhosos da evolução da EUC. “Espero que as tunas existam para se divertir e para levar a nossa cultura académica aos outros”, deseja Francisco. Já João considera que “a academia merece e a universidade precisa” destes espaços de partilha fraterna.

[Artigo atualizado às 15:21 de 20 de março]

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