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Cultura

Carolina Santos: “Tenho uma obsessão pelo tempo por ser mais forte que nós”

jade sanglard

Conimbricense que viveu em França regressa à cidade natal para apresentar espetáculo. Diretora e atriz do monólogo, incorpora personagem que põe em causa angustiadas questões metafísicas. Por Jade Sanglard

Inspirada no conto de Clarice Lispector, a peça vê-se à volta de Dona Madalena Prudência, que vive a angústia da inevitabilidade da passagem do tempo. A personagem tenta apresentar um relatório para o público das suas tentativas frustradas de perceber a essência humana. Horas antes da estreia de “O Relatório da Coisa” em Coimbra, Carolina Santos recebeu o Jornal A Cabra para entrevista no Teatro da Cerca de São Bernardo, que é palco do espetáculo apresentado às 21h30 de hoje e do sábado.

“O Relatório da Coisa” faz parte do projeto artístico Makina de Cena. Em que consiste este projeto?

O projeto é meu e do Marco Martins. Eu sou da área do teatro e ele é da área da música, com particular enfoque no ‘jazz’. Nós estivemos a viver em França durante cinco anos e meio, e quando voltamos, fomos para o Algarve. Quando nos instalamos no Algarve percebemos que tínhamos de arranjar uma maneira de conseguir criar e fazer projetos artísticos dentro das nossas áreas e que a única maneira de isso ser possível era através de uma entidade profissional, artística, que nos permitisse desenvolver estes projetos. Acabamos por criar, em março de 2018, o projeto Makina de Cena. 

De onde é que vieram? 

Eu sou de Coimbra. Nascida, criada e estudada. Comecei a fazer teatro no Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra (TEUC) em 2003. O Marco é de Loulé, no Algarve e estudou na Universidade de Évora, onde nos conhecemos. 

Quem idealizou a peça? 

Fomos eu, o Marco Martins e a Ana Karina Inês. É uma criação minha, mas que depois foi complementada por eles. Ou seja, eu encenei e criei o imaginário, mas o cenário foi uma espécie de criação conjunta, todos nós a misturar as nossas ideias. O Marco desenvolveu a sonoplastia, e o tema da peça é um excerto da música de José Salgueiro, que se repete muitas vezes, e que dá uma espécie de mote. Depois, nós desenvolvemos a estética da personagem. Embora nunca se diga o seu nome na peça,  demos-lhe um nome para torná-la real, Madalena Prudência. Desenvolvemos assim um imaginário dela. A Karina, por exemplo, desenhou os figurinos. Foi um trabalho de equipa. 

Por que é que decidiram trazer a peça a Coimbra? 

Este é o projeto que a nível de teatro realmente se assume como um projeto profissional da Makina de Cena e correu muito bem lá no Algarve. Eu já tinha feito espetáculos aqui em Coimbra, mas ainda não tinha apresentado nenhuma criação minha desde que regressei para Portugal. Então falei com o pessoal da Escola da Noite e surgiu esta oportunidade de trazer “O Relatório da Coisa”. Melhor casa eu não podia ter escolhido.

A peça foi inspirada no texto Clarice Lispector “O Relatório da Coisa”. Qual foi o motivo desta escolha?

Eu sou muito fã da Clarice Lispector. Estava a ler os contos completos, à procura de inspirações para outras coisas, e, de repente, calho no texto “O Relatório da Coisa”. Começo a ler e percebo que aquilo era muito absurdo, muito teatral. É bastante diferente daquilo que a Clarice costumava escrever. A minha mente começou a dizer: “Tenho de transformar isto num projeto de teatro”. Comecei logo a imaginar a personagem. Foi durante uma viagem de comboio, de Coimbra para o Algarve. Como o texto é tão metafísico, tão aberto e ao mesmo tempo tão surreal – porque ela diz coisas que cada um interpreta como quer -, nós conseguimos abrir muito o imaginário. 

Em qual ponto a tua peça se diferencia do texto clariciano?

Eu acho que a grande diferença foi a nível da localização geográfica. Ela fazia muitas referências a locais no Rio de Janeiro ou em São Paulo, falava muito de um grande jardim, fazia grandes referências às questões da natureza. Como estreamos isto no Algarve, substituí estas por referências algarvias. Pela Serra do Caldeirão, pela Ria Formosa… A nível do português, também adaptei para o português europeu. Para mim, o que foi interessante é que nós desenvolvemos três espaços. Neles, há uma espécie de “passar do tempo”. A personagem que dá vida a este conto e que relata o tempo traz o imaginário de uma mulher solitária que passa a vida presa num ‘loop’, sempre a tentar descodificar esta questão da passagem do tempo e nunca consegue. Ela enerva-se, excita-se e conta histórias e que até hoje são muito atuais e contemporâneas. Outra característica deste espetáculo é ser “Lo-Fi”. Tudo aquilo que nós apresentamos foi feito à mão, não há nada digital.

Por onde a peça já passou e quais serão os próximos destinos?

A peça fez uma temporada de cinco dias em Loulé, o que foi muito bom, pois lá não é comum haver tantos dias seguidos. Estivemos em Santo André, no Alentejo, onde apresentamos no Projeto em Cena. Está agora em Coimbra. Depois vamos a Sintra, ao Festival Periferias. Vamos estar também no Festival Internacional de Teatro do Alentejo, no Festival Internacional de Marionetas em Montemor-o-Novo e em Faro. Já temos datas confirmadas até julho. O que eu gostava muito era conseguir levar a peça ao Brasil, porque faz cem anos que a Clarice Lispector nasceu. É difícil, mas vamos tentar. 

Quanto tempo demorou para a peça ser feita? 

Mais ou menos um mês e meio. 

A questão do tempo, trazida por Clarice Lispector, toca-te pessoalmente?

Sim. Nos dois últimos espetáculos que eu encenei em 2019, o tempo foi o grande tema. Eu acho que tenho uma obsessão pelo tempo, por não conseguirmos controlar a passagem dele, por ele ser mais forte que nós. Pela falsa sensação de que estamos em controle da nossa vida, quando na verdade não estamos. Tentamos viver em função de quantificações e adaptamos nosso ritmo em função disto. O tempo é sempre igual. A medição dos segundos não muda, um segundo é sempre um segundo. E nós vamos envelhecendo, decaindo, apodrecendo, como a Clarice diz muitas vezes no texto. Isso é muito duro, e é angustiante quando uma pessoa começa a tentar racionalizar e compreender algo que é do foro do incompreensível, esta pequenez que nós somos em relação a tantas outras coisas. 

O que esperas da passagem da peça por Coimbra?

O que eu quero é que todos os meus amigos e a minha família possam vir ver a peça. É um projeto de pequena dimensão, o cartão de visita da Makina de Cena. Marca mesmo o início de uma etapa da minha vida de regresso a Portugal. Por isso eu queria que todas essas pessoas, de quem eu tanto gosto, pudessem fazer parte dela. 

Foi trabalhoso exercer o papel de criadora, diretora e atriz? 

Não foi muito difícil porque a equipa funcionou muito bem e nós conseguimos dividir o trabalho entre nós sem problema. Foi difícil dirigir a mim mesma. É muito mais fácil ser só a pessoa que está do lado de fora e dá as indicações do que que estar de fora e de dentro ao mesmo tempo. 

Estás envolvida em mais algum projeto atualmente?

Nós lançamos uma peça em novembro de 2019 e neste ano vamos estrear mais duas, para além d’”O Relatório da Coisa”, que está a decorrer desde setembro do ano passado.  Em Loulé, nós temos um espaço chamado A Casa da Makina, que é a sede das nossas atividades. Lá nós fazemos concertos de jazz, formações de teatro, clube de cinema e clube de leitura teatral. São muitos projetos ao mesmo tempo.

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