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Cultura

David Bruno: “o meu negócio é a ficção”

renato cruz santos

Para apresentar novo álbum, David Bruno atuou, esta quinta-feira, em Coimbra. Numa parceria com o Salão Brazil, a Rádio Universidade Coimbra trouxe o músico gaiense para concerto intimista. “Miramar Confidencial” conta a história fictícia de Adriano, personagem criada a partir de palavras escritas nas paredes da sua zona. O Jornal A Cabra esteve à conversa com o artista para conhecer a origem deste trabalho. Por Cátia Beato

Como é que nasceu a paixão pela música?

Talvez por causa do meu pai. Passava muita música em casa, era colecionador e desde pequenino que me punha a ouvir. Como com toda a gente, a resposta a todos os nossos problemas está nos nossos pais. A minha também.

Quais são as tuas inspirações?

As minhas inspirações são a minha cidade, Vila Nova de Gaia, e as pessoas que lá moram.

Como é que surgiu a ideia para o novo álbum “Miramar Confidencial”?

Há sempre qualquer coisa que me espoleta uma ideia, um universo. Neste caso, foi ver uma série de morais que nasceram na zona onde eu trabalhava com as inscrições de “Adriano-Malheiro-Caloteiro”, que depois descobri que era um empreiteiro da zona. Percebi que era um fenómeno do que se diz ser ‘slut-shaming’, que é quando as pessoas escrevem na parede e em muitos lados coisas para tentar envergonhar alguém. A zona onde acontecia era Miramar, uma espécie de Miami chunga ali do Porto, uma zona assim muito tropical. Tropical não porque é no Porto, mas é balnear, com umas casas que parecem uma desgarrada de empreiteiros a tentar fazer cada um uma casa mais espetacular que o outro.

Qual foi o processo criativo por detrás deste álbum?

Esse universo de Miramar fez-me lembrar os filmes de ação dos anos 1990, daí o formato físico ter sido o DVD, a capa foi copiada completamente do primeiro filme de sucesso do Steven Seagal. Portanto, surgiu-me ali todo um universo que conheço bem. Tenho 34 anos, nasci nos anos 1980, na minha infância andei muitas vezes naquela zona e daí nascem as letras. Como eu não toco propriamente, faço ‘sampling’. Pensei “Que tipo de música é que posso produzir que seja coerente com este espírito?”. Claro que me surgiu logo a ideia de música dos anos 1980, assim ‘pop’, portanto essa música vai mesmo ao encontro dos filmes. Fiz os instrumentais, fiz as letras, gravo tudo e depois convido o “Marquito” e ele faz os arranjos de guitarra por cima. É esse o processo.

Do instrumental à letra, quem compõe?

O instrumental e a letra são feitos por mim. A guitarra é do Marco Duarte.

No álbum existem algumas colaborações como a de Mike El Nite. Como foi trabalhar com outros artistas?

Foi muito bom e nenhum deles foi um convite formal. Participaram em músicas o Mike El Nite ou o Bruno de Seda. O caso dos telefonemas das pausas onde aparecem pessoas mais ou menos conhecidas a ligarem ao Adriano e a pedirem o dinheiro de volta, é tudo ficção. Já tinha tido esta ideia e foi feita pelas pessoas mais improváveis com quem me cruzei e que conhecia. Chegava ao pé delas e dizia “Olha, tenho um convite para ti. Queres fazer um telefonema a um empreiteiro a fazer de conta que ele te está a dever dinheiro?”. Toda a gente disse que sim à primeira, talvez por ser muito absurdo e ridículo. Foram assim as participações.

Quanto tempo demorou a criação do álbum?

Andei uma série de tempo a juntar músicas, mas vamos considerar que isso não faz parte do álbum porque ando sempre a fazer isso. Oiço música e coleciono sons que possa “samplar”. Quando tive a ideia, fui à minha biblioteca de música dos anos 1980. Um, dois meses a fazer o disco, depois dois, três meses para gravar as vozes que vêm a seguir à guitarra. Lembro-me agora que já tinha feito este exercício com o “Marquito” e que o tempo de criar um álbum meu são nove meses. É como fazer um bebé [risos]. 

Neste álbum tens uma música preferida? 

São todas, cada uma fala de histórias que me são muito pessoais. Mas eu diria que a música pela qual tenho mais carinho será a “Com Contribuinte” porque é o contribuinte da empresa em que comecei a trabalhar. Relembra-me de quando me mudei e fui trabalhar para perto de Miramar. Se eu não tivesse ido para ali, se calhar não tinha visto estas paredes com “Adriano-Malheiro-Caloteiro” escrito e o álbum não existiria. Portanto, acho que essa música é o que representa o nascimento desta macacada toda. E gosto muito dessa música.

Tens algum projeto em mente para o futuro?

Claro. No dia em que não tiver projetos, não ando aqui a fazer nada. Ou é porque estou morto ou porque fui pai, que é o que acontece muitas vezes. A paternidade às vezes afeta muito isto, mas não é o caso. Sim, claro que tenho vários projetos.

Afinal, conseguiste descobrir o que significa a inscrição “Adriano-Malheiro-Caloteiro”?

Claro que consegui. Descobri-o, falei com ele na ‘internet’, ele disse que o assunto estava entregue às autoridades e que não queria falar comigo. Este álbum não é sobre o Adriano. A pessoa que existe está lá, mas é sobre uma história que inventei na minha cabeça. Portanto, de maneira alguma isto é um ataque pessoal. Nem sei se ele é caloteiro, se não é. Depois disto, algumas pessoas que tentaram fazer chantagem comigo, mandaram-me ‘e-mails’ a pedir informações sobre o Adriano a troco de ‘bitcoins’. Até me chegaram a mandar fotografias dele. Não tenho interesse nenhum em saber quem ele é, em atacá-lo ou defendê-lo. O meu negócio não é a realidade, é a ficção.

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