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Cultura

“Sou hoje mais radical, porque com a idade as convicções assentaram alicerces”

D.R.

Aqueles que a 1 de março de 2003 marcaram presença no TAGV viram que bastava a guitarra e a voz de um homem para declarar a sua grandeza. No âmbito das comemorações do 17º aniversário da Rádio Universidade de Coimbra, foi lançado o convite a José Mário Branco para atuar na cidade que também já foi sua. As marcas que ficam são aquelas que nos permanecem na memória. Dias após a sua morte, é recordada a entrevista feita ao músico português no dia deste célebre concerto.

Inquieto, irreverente, radical, “solidário”, José Mário Branco continua a ser um homem de convicções fortes. Depois de um concerto extenuante, o cantor conversou com A CABRA, durante mais de uma hora. Falou-se de quase tudo. Da sua fugaz passagem por Coimbra, ao seu exílio em França durante 11 anos, passando pelo inevitável Maio de 68 e pelo mundo da política. Por João Vasco

Nascido no Porto há pouco mais de 60 anos, José Mário Branco continua a encher salas de espectáculos. Num Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV) lotado, voltaram a ouvir-se temas como “As canseiras desta vida”, “Inquietação” e alguns inéditos. Com a sua usual postura em palco, o cantor lembrou o “estado incrível do país”, satirizou a atual governação e apelou para a necessidade de mudança. Porque “A cantiga é uma arma”.

Porquê vir tocar a Coimbra por ocasião do aniversário da RUC? Já tinha saudades da Lusa-Atenas?
Há uns meses atrás, fui convidado para fazer este recital e disse que sim. Eu estive aqui muito pouco tempo. Julgo que em 1961/62, já lá vai um tempinho (risos)… estava inscrito, nesse ano lectivo, no curso de Histórico-Filosóficas da Faculdade de Letras. Mas só vim viver para Coimbra em Janeiro de 62. Em Abril, fui preso! Na realidade, estive aqui apenas quatro meses.

“FUI PRESO NA QUALIDADE DE ESTUDANTE DE COIMBRA”

Foi preso por terem descoberto que era membro do PCP?
Sim, por estar ligado ao surgimento das associações de estudantes de liceus [movimento clandestino dos então jovens comunistas portugueses]

Foram denunciados?
Toda a gente que era da Universidade de Coimbra e participou desse movimento foi dentro.

Contudo, Coimbra marca ou não o seu trajeto de vida? Foi a cidade em que foi preso...
O curioso é que eu não fui preso aqui. Fui preso na qualidade de estudante de Coimbra, mas durante as férias da Páscoa, em casa da minha mãe no Porto (risos). Passei aqui uma noite na PIDE de Coimbra, a caminho de Lisboa. Fomos todos recambiados para Lisboa, porque o processo era muito grande e éramos muitos.

Um ano depois, ruma a França e ao exílio, por não concordar em participar na guerra colonial. É em França que começa toda a sua carreira?
Tive actividade musical amadora e estudei numa escola de música no Porto, mas nunca fui assim muito bom nos estudos (risos). Tinha muito gosto pela música desde pequenino, devido à influência dos meus pais e dos meus irmãos. Mas, na altura que fugi para França, nem sequer sabia tocar viola. Tocava piano, percussões (essas coisas que tinha estudado na escola musical Parnaso), mas mais nada. E, um dia, em Paris, já casado, houve um primo da minha ex-mulher [Isabel Alves Costa] que fez o favor de deixar a viola lá em casa. E foi com essa viola que eu comecei a aprender e a ter vontade de fazer canções.

Mais tarde conhece o Zeca Afonso, o Sérgio Godinho…
Conheci primeiro o Sérgio. A namorada do Sérgio era irmã de um dos meus grandes amigos do Porto. Aliás, fez-lhe uma canção no primeiro álbum. A música chamava-se “Paula”. E, portanto, o Sérgio aterrou em minha casa em Paris antes de eu conhecer o Zeca Afonso. Naturalmente, que já conhecia a obra, os discos dele… Tanto eu como o Sérgio estávamos já muito influenciados, no bom sentido, pelo Zeca.

Os primeiros álbuns

Os seus dois discos iniciais têm um trajecto conturbado. Como surgem o EP “Seis cantigas de amigo” e o single “Ronda do soldadinho/Mãos ao ar”, e como é que se tornam conhecidos em Portugal?
São casos diferentes. As primeiras produções da minha autoria foram essas cantigas inspiradas na poesia medieval, das quais seis estão no disco (eram cerca de doze). Alguém, através de conhecimentos comuns, o fez chegar ao Michel Giacometti, e ele, juntamente com o Lopes-Graça, contra todas as regras dos Arquivos Sonoros Portugueses (editora das antologias da altura), mostrou vontade de abrir uma excepção para publicar esse disco (na editora que era dos dois). Portanto, foi produzido com pouquíssimos meios e foram editados muito poucos números.

A seguir veio o single da “Ronda do soldadinho”…
Teve um processo completamente diferente, porque eu comecei a produzir uma série de canções contra a guerra e canções em francês. Aliás, o Sérgio também… E a “Ronda do soldadinho” foi um tipo de cantiga que pegou imenso. Pelo simbólico e porque era fácil de fixar. Nasceu, então, a ideia de fazer o disco fora dos circuitos. Mas eu não tinha dinheiro e vão ser as associações de emigrantes que me vão pré-comprar exemplares, juntamente com a Frente Patriótica de Libertação Nacional que existia em Argel (do Piteira Santos e do Manuel Alegre, entre outros). Foi com esse dinheiro que eu produzi o disco. Na altura, consegui meter em Portugal dois a três mil exemplares, clandestinamente e sem capa. Depois, o meu pai lá conseguiu que se imprimisse uma capa portuguesa. O disco era vendido à socapa a 20 escudos.

Anos de mudança

O mesmo já não se passa com o disco seguinte – “Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades”, em 1971. Nesta fase as coisas mudam…
Mudam, mudam. No primeiro mês o álbum vende 5000 exemplares. O culpado aí é já o Zeca. Ele traz para Portugal maquetas de canções e mostra às editoras Sassetti e Arnaldo Trindade. Na mesma altura está também a tentar gravar-se o “Cantigas do Maio” do Zeca [álbum cujos arranjos e edição são de José Mário Branco]. Entretanto, recebo um telefonema da Sassetti, de Marques de Almeida, que estava a relançar a editora. Propuseram que o meu disco fosse a abertura de uma nova fase de edição, que se chamava “Miúda da Música”. Havia um capitalista progressista qualquer que tinha metido muito dinheiro na sociedade e deu-me carta branca para tudo. Era um contrato que valia dinheiro e eu decidi fazer o acordo. Os dois álbuns foram editados pela Sassetti, mas com uma condição imposta por mim: “editamos os discos se vocês editarem aquele rapaz que está connosco, que se chama Sérgio Godinho”.

Depois  vem “Margem de Certa Maneira”. Estes dois álbuns marcam os seus grandes anos? São os seus melhores discos?
Não. Nada disso. Havia uma carga histórica importante. É muito esquisito um tipo estar a viver a dois mil quilómetros de Lisboa e, de repente, saber que existe um acontecimento com uma coisa que eu fiz. A partir de 1971 surgem, de facto, o “Cantigas de Maio”, o “Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades”, o primeiro EP do Sérgio, um disco do Adriano Correia de Oliveira. Algo mexia em Portugal… Era a primavera marcelista… Havia esperanças de abertura!

“OS ANOS OITENTA FORAM MUITO DUROS. FUI COMPLETAMENTE OSTRACIZADO”

Nessa altura sentiu que podia ser um músico de sucesso?
Não, não. Estava muito apaixonado. A partir do Maio de 68 deu-se um fenómeno muito interessante. Antes, nós, os portugueses, éramos uma gente muito fechada. Depois, criámos amizades, relações de trabalho e projetos comuns com gente francesa e de outros países. Abriram-se imensas portas. A minha passagem de empregado amador de música para o profissionalismo musical a cem por cento durou três, quatro anos. Foi um tempo em que o Maio de 68 foi decisivo.

Quais as maiores recordações da Paris desses anos? Existem grandes diferenças para a atual capital francesa?
A primeira é a pavimentação das ruas (risos). Deixou de ser o célebre ‘pavê’ para passar a ser tudo alcatroado. Passado uns meses de Maio de 68 já não havia ‘pavê’ para ninguém, porque aquilo foi uma arma importantíssima para a auto-defesa dos estudantes, para as barricadas… Valia tudo, valia mesmo tudo! Foi um mês de loucura total! A minha mulher estava grávida de oito meses e eu vivia aterrorizado que lhe pudesse acontecer alguma coisa, por causa dos gases lacrimogéneos e das cargas policiais. Houve um dia em que foi mesmo espancada. O meu filho mais novo nasceu com as barricadas (risos).

O pós-25 de abril

No regresso a Portugal, depois do 25 de abril, funda um grupo denominado “Grupo de Ação Cultural (GAC) Vozes na Luta”…
No dia 30 de abril de 1974 cheguei a Portugal. Nessa noite foi fundado o GAC. Fomos para casa de um amigo e formámos o grupo, que ao mesmo tempo era um movimento social e uma experiência. O grupo foi fundado com o intuito de ajudar as pessoas a perceber os problemas da época. Houve muita gente que fez isso durante esse período, mesmo gente ligada ao PSP. Só que, desde o princípio, as divisões políticas que existiam na sociedade começam a ser trazidas e o GAC estourou em pouco tempo.

“Tenho esperanças limitadas”

Depois do PREC, compõe uma música sua que é o reflexo dessa fase – “F.M.I.”. Ainda canta o “F.M.I.”?
Não. Há muito tempo. Não consigo. Nem que quisesse. Aquilo é muito violento. Era mesmo fruto daquela época. Há malta nova hoje que se revê naquilo e continua a sentir-se muito impressionada. Não sei os motivos. Foi uma música que só senti durante dois anos e meio.

O álbum dos anos 80 “Ser Solidário” teve muitas dificuldades a ser editado. Correto?
Foi feito por subscrição pública.

Acha que foi a consequência das suas posições políticas mais radicais?
O “Ser Solidário”, com aquelas canções que estão no disco, foi recusado pelas oito maiores editoras portuguesas da época. Todas recusaram. Então, decidi fazer um espetáculo ao vivo e pedir aos espectadores que financiassem o disco.

Nessa altura era, de facto, um “desalinhado”?
Os anos 80 foram duros, muito duros. Fui completamente ostracizado. Paguem a fatura de muitas opiniões. Mas eu assumo. Guerra é guerra!

Acha que o público das gerações mais novas está sensibilizado para a música como forma de intervenção?
Acho que está outra vez. E vem de há uns dez anos para cá. Eu tive essa noção no início dos anos 90 quanto vi a Tracy Chapman encher um estádio na Califórnia só com a sua viola acústica. Pensei: há aqui qualquer coisa de novo a acontecer. Passou a haver um movimento ‘unplugged’. Vêm os primeiros discos do Sting a solo; o Peter Gabriel funda a World Music; o Paul Simon começa a fazer coisas com os africanos… Aqui há uns anos, num concerto de solidariedade, vi o Coliseu dos Recreios em Lisboa completamente cheio de pessoas para ouvir o Sérgio Godinho, o José Mário Branco, o Júlio Pereira. E cantavam as nossas canções.

Um político inquieto

Novo é também o seu Bloco de Esquerda. Que balanço faz destes quatro anos de um partido do qual foi membro fundador?
Tenho esperanças limitadas. Ainda sou hoje mais radical, porque com a idade as convicções assentaram alicerces. Aquilo que eram convenções ideológicas da minha juventude acabaram em parte por apodrecer. Houve os F.M.I.’s todos da vida… reconstruí por dentro as minhas ideias. O Bloco surgiu assim: primeiro, saí da UDP. Chateei-me com aquela gente – burocratas da política. Mas sempre foi, apesar de tudo, um partido com uma base popular interessante. Depois, simpatizava com o PSR: uma malta gira, que fazia um jornal giro; lutavam pelos direitos das mulheres, dos homossexuais. Trotskistas! Gosto muito do Francisco Louçã e comecei a olhar para aquilo e disse: “O que é que vocês andam a fazer aí todos separados? Isto está tão mau, e vocês andam aí em discussões. Façam qualquer coisa de novo. Deixem lá o Estaline e o Trotsky, o que interessa é a juventude!”. A minha posição era essa.

“Se todo o mundo é composto de mudança”, é possível inverter a ordem mundial atual?
Não acho que é possível. Acho que é inevitável! As recentes manifestações contra a guerra são elucidativas. As pessoas estão a parar para pensar. Alguma vez se pensou numa manifestação como a de Londres, que juntou um milhão de pessoas, contra a guerra no Iraque? As coisas estão a andar. Devagarinho, mas estão a andar.

O que são para si “As canseiras desta vida”?
Aquilo que disse há bocado no palco. Este país está num estado incrível. Fábricas a fechar, despedimentos atrás de despedimentos. É tão simples como isto: debaixo de que tecto é que eu vou dormir logo à noite? Temos que mudar isto. Fazer o que o Lula prometeu: três refeições por dia para as crianças brasileiras e já!

Entrevista publicada na edição nº92 de 11 de março de 2003

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