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Cultura

Exibição não deixa esquecer “O diálogo do silêncio” de ‘69

carolina prodan

Biblioteca Geral da UC encontra cartazes escondidos da PIDE em 1969. Exposição recupera, além da Crise de 1969 em Portugal, outras contemporâneas e de natureza idêntica. Por Carolina Prodan

Ao subir à sala São Pedro da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (BGUC), é-se desafiado por um “shiu” em repetição, uma obra sonora com a voz de Luisa Cunha. É este o primeiro contacto que se tem quando se visita a exposição “SHIU! O diálogo do silêncio”. Disponível até dia 10 de janeiro de 2020, é organizada pelo Círculo de Artes Plásticas de Coimbra e está integrada na programação convergente da Bienal de Arte Contemporânea – Anozero ’19.

“É um “shiu” que não se mostra agressivo, apenas constante e intensificado pelo espaço onde se encontra, com destaque nas ideias de autoridade e de relação de poder”, assim descreve Miguel Mesquita, curador da exposição. Com o intuito de potenciar o entendimento das obras, a apresentação parte de memórias da Crise Académica de 1969. O objetivo é “revisitar momentos de tensão e manifestação contra o Regime do Estado Novo, através de uma relação com os arquivos e com o momento que representam, procurando também explorar questões da atualidade”.

Focada no binómio repressão-resistência, aborda questões relacionadas com a manipulação de informação e a emergência de sentimentos nacionalistas, denota o curador. “Foi a situação atual que despertou a vontade de fazer este projeto, com atenção à situação sociopolítica internacional”, revela Miguel Mesquita. Sublinha ainda que “o maio de 1969 traz questões urgentes e é importante perceber que o que acontece hoje são imposições de regimes e de novos sentimentos nacionalistas”.

O que deu nome à apresentação foi uma fotografia de um cartaz preso em grades, onde se lê “Continua o diálogo do Silêncio”, explicou o curador. Assim, “pretende-se passar a ideia de um diálogo que não é audível, que não existe. É a supressão da voz que conota resistência porque mesmo não o querendo ouvir, continua a haver mensagem e vontade de contestar”, comenta Miguel Mesquita.

Os cartazes que podem ser observados na imagem são cartazes originais da Crise Académica. São arquivos encontrados agora pela BGUC que fizeram parte de uma exibição no Porto, em 1969. Os documentos em questão estão sob a tutela da BGUC porque, quando regressaram a Coimbra, este era o único local cujos arquivos não podiam ser confiscados. A princípio, estes pertenciam à Associação Académica de Coimbra, contudo, quando os estudantes da Invicta chegaram o edifício estava invadido pela PIDE. Miguel Mesquita diz “foi a comunicação entre as duas universidades que permitiu apresentar estes cartazes, que não eram vistos há 50 anos”.

Nas palavras do curador, os cartazes expostos são uma pequena fração do material encontrado. Na exibição podem também ser vistos outros movimentos estudantis marcantes, como as manifestações académicas em Washington e Nova Iorque contra a guerra do Vietnam, durante a década de 1960. O “maio de 1968” em França, pela libertação intelectual e corporal, também esteve presente.

Ao entrar na sala, veem-se cubos de mármore espalhados no chão. A obra é de Fernanda Fragateiro, que recupera “o momento mais marcante” da manifestação francesa, descreve Miguel Mesquita. Para fazer oposição à polícia, os estudantes arrancavam paralelos do chão e atiravam-nos à autoridades. Assim surge o mote “Debaixo das pedras da calçada, a praia”.

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