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Cultura

Criar sem imaginação: uma forma de realizar filmes

Maria Monteiro

Em ambiente descontraído, o cineasta Tiago Afonso explora a sua obra. Excesso de estetização e composição no cinema português apontado como crítica. Por Beatriz Monteiro Mota

A Casa das Caldeiras recebeu esta tarde a primeira MasterSession desta edição do Festival Caminhos do Cinema Português, palestrada pelo realizador Tiago Afonso. A palestra, mediada por Sérgio Dias Branco, professor de Estudos Cinematográficos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, teve como tema “O Meu Cinema”. Com mais de 30 obras, desde documentários a filmes de intervenção, salienta o facto de os seus trabalhos não terem uma programação prévia.

Com uma apresentação relaxada, Tiago Afonso conta que o seu interesse pelo cinema começou quando descobriu que era incapaz de criar representações mentais. “As pessoas criam imagens na sua cabeça, eu não consigo fazer isso e durante muitos anos achei que tinha uma deficiência”, confessa. Esta restrição permite-lhe afirmar que “as imagens não passam pela imaginação, mas sim pela criação”. Explica que as imagens mentais colocam as pessoas em “estado de arte”, o que lhes provoca uma reação.

A abrangência de temas dos seus projetos oferece-lhe uma grande liberdade de execução. Neste sentido, nenhum dos seus trabalhos possui uma programação inicial, o que lhe confere a possibilidade de decisão momentânea. “O processo é sempre de descoberta e de gerar condições para a criação”, esclarece o realizador.

A sessão contou com a apresentação de alguns dos seus filmes, tais como “Triptic”, “Música de câmara” e “Lefteria = liberdade”. O cineasta revela que as suas obras têm um caráter político, militante e experimental. O público e o palestrante entraram em sintonia quando concordaram que a abordagem militante no cinema português é muito reduzida. Para o autor, “os cineastas devem fazer filmes que refletem a sua posição”, mesmo que a audiência discorde.

“Até que ponto é que as imagens tomam conta das pessoas?”, questiona Tiago Afonso ao criticar a sobre estetização presente no cinema. “As imagens são esmagadoras em termos de beleza e espanto e criam marcas no nosso subconsciente demasiado fortes”, elucida o realizador. Segundo o mesmo, este choque acaba por distorcer a verdadeira mensagem dos filmes.

Na visão do palestrante existe uma grande dificuldade em discutir o cinema: “Quem faz cinema não quer ouvir críticas e os espectadores têm medo de falar”, esclarece. Acrescenta que todas as situações que criem este diálogo são positivas e que “o cinema cresce quando se fala sobre ele”. Critica ainda o cinema português pelo facto da promoção de debates sobre os filmes ser rara.

Para a sua composição fílmica procura inspiração em desejos, paixões e vontades subjetivas. “A necessidade de fazer filmes sempre foi tanta que depois não os planeava nem os mandava para festivais”, confessa o cineasta com arrependimento.   

No final da sessão expressa o seu agrado perante a reação do público e deixa o convite para o visionamento de uma curta-metragem da sua autoria no dia 29 de novembro no Festival Caminhos do Cinema Português. “O balanço das pessoas foi construtivo e parece-me que consegui chegar até elas”, afirma Tiago Afonso.

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