Ensino Superior

SOS Estudante: “Não é só ouvir e deixar estar”

Luís Almeida

Solidão, relacionamentos e carência afetiva são os assuntos que mais preocupam os estudantes, segundo a presidente da SOS Estudante, Diana Callebaut. A linha de apoio tem como ferramenta a escuta ativa, na missão de apoiar quem precisa. Um dia antes do seminário sobre saúde mental, a dirigente associativa falou sobre a sua secção e o trabalho da mesma. Por Francisco Barata e Filipe Silva

Qual é a atividade da secção no contexto académico?

A SOS Estudante é uma secção cultural da Associação Académica de Coimbra (AAC) e a nossa prioridade é garantir apoio emocional e de prevenção ao suicídio, através de uma linha telefónica. Esta funciona todos os dias entre as 20 horas e a uma da manhã, à exceção das férias escolares. Apesar de, no início, a linha ter sido só para estudantes, atualmente atendemos a chamada a qualquer pessoa que nos ligue.

O que é que espoletou a criação da SOS Estudante?

A SOS Estudante surgiu em 1997. Foi criada por um grupo de discentes que notou uma falta de apoio emocional à comunidade universitária, em relação a temas como a solidão, o suicídio e o mau-estar emocional.

Toda a vossa atividade é feita por voluntariado?

Sim, nós somos todos estudantes do Ensino Superior de Coimbra. Ninguém recebe ordenado por estar na secção. Na atualidade, somos sete membros na Direção e 15 voluntários, sendo que os membros da Direção não fazem atendimento, pois perderiam o seu anonimato que é um dos aspetos mais importantes do SOS Estudante. Quem faz atendimento está totalmente protegido pelo anonimato.

O número de voluntários tem vindo a aumentar ou a diminuir ao longo dos últimos anos?

Varia tanto pela quantidade de pessoas interessadas neste tipo de projetos, como pela nossa capacidade de divulgação . Já tivemos anos com 30 e 40 voluntários, como tivemos com dez voluntários. Temos andado a investir mais nas redes sociais. O número varia consoante a disponibilidade e grau de compromisso das pessoas.

Qual é a taxa de sucesso da secção?

O termo é muito subjetivo porque saber a taxa de sucesso implica um acompanhamento, algo que nós não fazemos. Para além disso, o entendimento de como a chamada correu pode variar entre a opinião do voluntário e de quem a efetuou, portanto não falamos em taxa de sucesso. Tratamos temas variados, não só o suicídio. Dar uma resposta objetiva a essa pergunta é impossível.

Promovem outras atividades para além da linha de apoio?

Para além da linha, participamos nas festas académicas, porque para todos os efeitos somos um grupo universitário. Fazemo-lo de modo a sensibilizar em relação à linha em si, que é um recurso que pode ser utilizado, como também ao voluntariado. Para além disso, participamos em feiras de voluntariado, em eventos dos núcleos de estudantes e em simpósios, como por exemplo o de saúde mental no qual vamos participar amanhã. Temos também atividades internas, que consistem em sessões de cinema, debates e, desde o ano passado, ‘workshops’, que correram bem e estamos a repetir. Com estes eventos, trazemos os temas abordados nas chamadas para a comunidade geral, estudantes ou não. Qualquer pessoa pode aparecer, os eventos são grátis.

No site do SOS Estudante, as estatísticas que mostram os temas mais abordados nas chamadas, são de 2014/2015. Esses dados mantêm-se ou há alguma diferenciação?

Em comparação com esse ano, a evolução das chamadas tem sido enorme. Por exemplo, em 2014 tivemos cerca de 600 chamadas, enquanto no ano passado tivemos 1100. Os temas mais comuns são a solidão, relacionamentos (tanto amorosos como familiares), carência afetiva (como falta de apoio emocional), suicídio e família. Mas a solidão é o tema mais abordado.

Quando os estudantes ligam, como é feito o apoio?

No que toca a pormenores mais específicos sobre o nosso modo de atendimento, não posso entrar numa discussão muito prolongada. No entanto, os nossos princípios baseiam-se todos na escuta ativa e noutros pilares como o não-julgamento e o não dar conselhos. Para nós é uma coisa muito óbvia apesar de ser difícil de compreender, principalmente quando uma pessoa está em situação de desespero. O que querem é alguém que lhe indique um caminho, mas quem somos nós para indicar o caminho a essa pessoa? Por exemplo, algo pode fazer sentido a um voluntário, e a outro não. Nós não damos conselhos, juízos de valor ou opiniões. O princípio da escuta ativa é recolher toda a informação que nos é dada, organizá-la da melhor forma possível e depois devolvê-la à pessoa de uma forma mais coesa e organizada. Fazer alguma intervenção muito à base de perguntas para a pessoa pensar em quais são os caminhos. Os voluntários não os vão dar. A pessoa tem de perceber os caminhos e depois escolher, ou não. Muitas vezes as chamadas podem terminar sem haver uma decisão tomada. Isso depende da pessoa que está do outro lado.

Fazem o papel de ouvinte, basicamente?

Exato. É um ouvinte ativo, não é só ouvir e deixar estar. Isto é um diálogo, não se pode tornar um monólogo. Estamos a ouvir de forma ativa e participamos na conversa. Só que não conhecemos a história toda, não percebemos o seu contexto. Só sabemos aquele momento da chamada que é um momento pontual.

Então nunca vai para além da chamada, certo?

Não. Por exemplo, há uma linha em Aveiro, que é a Linha da Universidade de Aveiro (LUA), e eles são um serviço de apoio psicológico. Os voluntários que atendem são também estudantes, mas a nossa é formada só por universitários e a deles é também composta por psicólogos, de modo a fazer uma triagem para perceber se essa pessoa precisa de apoio psicológico e se os podem encaminhar de alguma forma. Nós não. De preferência, a outra pessoa desliga e o contacto ficou terminado por aí. Não vamos à procura de perceber como é que a pessoa ficou. Se a pessoa quiser volta a ligar, mas não damos continuidade. Às vezes ligam-nos por motivos errados e percebemos que a intenção da chamada não foi aquela, então tentamos reencaminhar para o sítio certo, mas isso é quando percebemos que não podemos fazer o que pretendem de nós.

Que apoios financeiros é que têm ?

Recebemos uma verba ordinária que vem da Queima das Fitas que vai para a Direção-Geral, para a AAC, que depois divide pelas secções. Podemos candidatar-nos a projetos com verba extraordinária e também à Semana cultural da UC. Em geral, costumam financiar os nossos projetos. Fora isso não recebemos qualquer financiamento, é à base do voluntariado e por consequência acaba por ser difícil gerir isto tudo. O nosso dinheiro vai para os telefones e para a gestão dos recursos humanos. Também existem os projetos culturais da câmara, mas nesse caso a AAC candidata-se como um todo. Não nos candidatamos individualmente a esse tipo de coisas porque fazemos parte de uma organização maior.

Achas que esta direção atual de 19/20 tem cumprido com os objetivos de ajudar quem vos liga?

Eu já estou na direção há alguns anos e consigo dizer que há uma evolução muito grande dentro do nosso funcionamento. O facto de termos cada vez mais chamadas é extremamente relevante, e a quantidade de jovens é significativa. Temos recebido cada vez mais dos estudantes em fases mais específicas, como épocas de exames. Estamos a fazer o melhor possível dentro das nossas capacidades, porque também temos as nossas vidas tanto pessoais como académicas. Para melhorar tanto o nosso atendimento, como o bem-estar da própria equipa, porque isto também requer trabalho e força emocional, a gestão da equipa e do ‘team building’ é essencial. Trata-se de um grupo de anonimato então não há um convívio público. Vamo-nos adaptando. Estamos sempre a evoluir com base na população que nos liga, em opiniões dos nossos voluntários e em algum ‘feedback’ que recebemos. Eu não consigo pedir às pessoas para preencher um inquérito de satisfação, por isso acaba por ser subjetivo o que nós achamos que podemos ou não fazer.

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