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Ensino Superior

De mãos dadas pela inclusividade

Beatriz Furtado

“Antes de ser mulher, fui negra”. Acessibilidade do ativismo LGBT e interseccionalidade esteve em discussão no Teatro da Cerca de São Bernardo. Por Beatriz Furtado

“De mãos dadas com a/s diferença/s: Conversas Interseccionais” promoveu discussão entre as três convidadas e o público numa roda de conversa sobre a interseccionalidade nas lutas ‘queer’ e visibilidade no Teatro da Cerca de São Bernardo. O primeiro de uma série de eventos da Plataforma Anti-Transfobia e Homofobia (PATH), organizado também pela Não te prives, decorreu no final da tarde desta quinta feira, dia 16 de maio.

“É uma abordagem feminista que pensa nas intersecções para além do género”, é assim que Alesa Herero, membro fundador do Instituto da Mulher Negra em Portugal, define interseccionismo. Explica que o conceito surgiu dentro do feminismo negro e são, portanto, indissociáveis. A ativista aponta-o como fundamental porque “dá voz e visibilidade a todas as realidades que os próprios movimentos brancos ocidentais não contemplam”. Como mulher negra confessa reconhecer os limites de se identificar com o feminismo branco, que não a representa.

“Antes de ser mulher, fui negra. Nunca o pude esconder, só depois fui mulher e a seguir ‘queer’ ”. Alesa Herero considera que dentro do conceito de diversidade há vários níveis, “cada vez falamos mais de interseccionalidade sem falar de pessoas negras, a branquitude mantém-se a norma”. A ativista reitera que o conceito está em risco de ser esvaziado do seu significado original.

Alesa Herero revela ainda que esta temática não é familiar a quem está de fora do contexto académico ou feminista. “ Não chega conhecer, é importante entender”, sublinha. “O que é que ser negro, branco, homem, mulher, transsexual representa dentro da sociedade?”. É este o processo de reflexão e de autoconhecimento, a nível individual e coletivo, sobre qual é o lugar político a partir do qual cada um fala, que a ativista atenta como essencial para respeitar o outro. “Temos de ter noção da nossa identidade”, refere.

Dentro desta temática a conversa virou-se para o ativismo LGBT e a acessibilidade. “Quando falamos de deficiência as pessoas pensam logo na cadeira de rodas”, realça Mara Pieri, doutoranda em Direitos Humanos. Procede e esclarece que nem todas as deficiências são visíveis como é o caso das doenças crónicas: reumáticas, respiratórias e mentais. A doutoranda defende que “o problema é achar que alguns corpos são mais normais que outros, que uns merecem mais visibilidade”.

Mara Pieri partilha que uma questão que surge sempre é a de que o ativismo LGBT não é acessível, e que o exemplo perfeito disso são as marchas. “Estas não têm em conta quem tem mobilidade reduzida, não há indicação de casas de banho ou locais para descansar”, afirma. A doutoranda relembra que atos como o de fumar em certos espaços os torna inacessíveis a pessoas com doenças respiratórias. “Acho que já é tarde começar a falar disto, mas é bom estarmos a fazê-lo”, termina.

As conversas contaram ainda com a participação de Júlia Mendes Pereira, mulher transsexual e cofundadora da Ação pela Identidade. A décima marcha LGBT dá-se amanhã dia 17 de maio, com organização da PATH. Alesa Herero menciona que sem entendimento não há práticas de empatia. “Dentro da opressão existe uma hierarquia de opressão”, relembra.

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