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Cultura

Samuel Úria de “Marcha Atroz” a caminho de Coimbra

Rita Carmo

Músico apresenta-se hoje no Salão Brazil. Concerto promove uma introspeção com um olhar para o futuro. Por Vasco Borges 

Ainda a celebrar 15 anos do lançamento do seu primeiro álbum “O Caminho Ferroviário Estreito” (2003), Samuel Úria passa esta noite pela Baixa de Coimbra. Um concerto “com a marcha atrás engrenada de olhos no futuro”. Ao jornal A Cabra, o músico de Tondela falou sobre o novo EP – “Marcha Atroz” – e de tudo aquilo que o construiu.

O teu 1º álbum fez 15 anos em 2018. Chegar a este tipo de número redondo é uma coisa que te assusta?

Não me assusta. A longevidade até é uma coisa que me agrada bastante, porque há mais histórias para contar. Por outro lado, também é preciso perceber que se passou muito tempo. Há coisas que têm de evoluir, há coisas que têm de acontecer e que têm de ser acrescentadas. Isto obriga-me a estar mais em sobressalto do que acomodado e perceber a passagem do tempo.

No “Marcha Atroz”, começas a dizer que “o que eu tenho vai ganhar ferrugem”. Podemos considerar isso uma espécie de reflexão em relação ao que fizeste até agora e um pretexto para lançar coisas novas?

Também é. “Ferrugem” é uma canção sobre o património que acumulamos e que muitas vezes são coisas que têm uma sobrevivência que não é propriamente benéfica para ninguém. Ficam só a acumular ferrugem ou a ser comidos pelas traças.

E a noção que eu tenho da canção é que é um património que, tendo muitas vezes um formato físico, acaba por ser imaterial. Então, mais do que a marca das minhas posses, é uma canção que me faz refletir que a minha marca também tem de passar por essas coisas, que não vão sobreviver de uma forma danosa para o que está à volta.

Em 2016, disseste ao Observador que o que acumulas na vida acaba por ter de sair nas canções que escreves. É o caso deste EP ou procuraste fazer outro tipo de viagem?

Acaba sempre por ser. Não sou de andar a bater com a cabeça na parede à procura de inspiração porque as coisas estão cá a precisar de sair, mais do que tenho necessidade de procurá-las. E desta vez, o EP tem quatro canções que acabam por estar concentradas numa maior reflexão e até retrospetiva, porque são canções que falam do tempo. Mas essa visão que tenho do que fiz nestes 15 anos tem muito a ver com as coisas que fui acumulando e com os próprios crivos que o tempo me deu para refletir o meu passado. Portanto este EP resulta muito disso.

E daí teres também relançado os teus três últimos álbuns, quando editaste o EP?

Sim. Era uma vontade já antiga de ter esses LPs reproduzidos em vinil, porque sou um consumidor de discos à moda antiga. Apesar de ter lançado agora um EP, ainda sou essa pessoa conservadora que gosta de fazer álbuns. Esse conservadorismo tem muito a ver com a maneira que tenho de experimentar a música. Gosto da ouvir álbuns de uma ponta à outra, de conhecer as histórias. E este formato em vinil privilegia esse lado cerimonioso, de uma pessoa ter de estar atenta à aparelhagem, ter de mudar o disco na altura certa, ter uma capa maior com letras maiores. No fundo, é uma oportunidade de ter os meus discos a corresponder à minha prática de ouvinte.

Falando na capa do “Marcha Atroz”, aquele robot é o Samuel Úria?

Tenho feito sempre autorretratos para as capas dos discos, sempre com estilos diferentes. E embora esteja menos reconhecível, os moldes da cabeça do robot foram feitas a partir da minha própria cabeça, embora depois apresentada de uma forma desproporcional por ser uma coisa maquinal e agigantada.

As quatro músicas do EP são acompanhadas por um videoclipe. Que significado é que isso tem?

Para já, existe um significado primordial e muito prático que é o de celebrar a minha vontade de trabalhar com a Joana Linda. Ela é uma artista plástica, realizadora e fotógrafa que eu aprecio há muito tempo e, entretanto, criamos laços de amizade. Já estava há algum tempo com “bichos carpinteiros” para fazer alguma coisa com ela. O que aconteceu foi que fizemos vídeos muito rápidos, e quando falo em rapidez não é a menosprezar a execução, mas sim da identidade dos vídeos. Existe uma concentração num personagem, que sou eu, mas que tem nuances ligeiras na maneira como me apresento, me visto e me penteio que acaba por personificar um bocado os períodos diferentes que o disco está a celebrar. Os vídeos vivem de uma forma independente. Mas por outro lado, sendo sempre a mesma personagem, sempre a mesma ausência propositada de recursos e havendo só frações ligeiras que os distam, acabam por existir um enredo conjunto entre os quatro vídeos.

Neste EP colaboras com o Miguel Ferreira. Ele vem dos Clã, uma banda que tem um registo mais ‘pop-rock’ do que aquele que estamos habituados a ver com o Samuel Úria. De onde surgiu essa colaboração?

Já conhecia o Miguel por ter colaborado com a escrita de letras para os Clã e ter feito algumas coisas com eles em palco. E quando estávamos a pensar em nomes para produzir o “Carga de Ombro” (2016), o meu último LP, surgiu o nome dele. Fui investigar aquilo que ele fez como produtor e o que me cativou foi um disco, que também tem muito pouco a ver com o meu registo, que ele fez com a Mafalda Veiga. Percebi que o Miguel como produtor dava espaço às características naturais dos autores. Dá espaço às nossas falhas e não tenta limar aquilo que não é tão fulgurante na interpretação de um artista.

Então pareceu-me alguém com quem seria muito interessante trabalhar. Pensei que ele poderia trazer para o meu universo uma espécie de conflito, por esse facto de os Clã terem um som mais afastado da minha essência. Pensei que, desse confronto entre duas naturezas diferentes, poderia surgir uma coisa com alguma piada.

O que acontece tanto no “Carga de Ombro” como no “Marcha Atroz” foi que encontrei muitos pontos comuns na maneira de pensar a música com o Miguel e está-me a dar muito gozo essa comunhão. É uma parceria que está longe de estar esgotada.

Na altura em que editaste o “Carga de Ombro”, disseste que te vês mais como um escritor de canções do que como um intérprete. Sentes-te mais confortável a escrever? Como é que encontras esse equilíbrio entre escrever e interpretar?

Nem é uma questão de conforto, até porque para mim existem poucas coisas mais confortáveis do que estar em palco. Às vezes quase tenho de conter o excesso de à vontade que tenho. Gosto muito de escrever e estar em estúdio, mas nada me dá mais prazer do que estar em palco.

Ainda assim, acho que a parte da escrita, de traduzir sentimentos para canções, por se ter tornado uma necessidade, acabou por se tornar também a minha valência mais direta. Acho que a escrita acaba por ser uma coisa inata, não é algo que eu andei à procura. Aconteceu porque teve de acontecer. E não sendo uma pessoa dotada de características vocais extraordinárias, acho que sirvo as minhas canções porque estão dentro da minha esfera. Muitas vezes canto e escrevo sobre os meus próprios defeitos e acabo por pôr os meus defeitos vocais nas canções.

A coluna que escreves para o Sapo desde 2016 influencia a forma como escreves canções?

É possível que sim, embora não seja de uma forma intencional. Mas o facto de estar a escrever esses artigos de opinião obriga-me a ter uma disciplina de escrita e de pensar o que me rodeia. Isso faz-me exercitar alguns músculos mentais, que acabam por estar mais aquecidos quando chega a altura de escrever canções.

Embora, de forma muito honesta, desde 2016 para cá, deve ser o período nos últimos 15 ou 20 anos em que tenho escrito menos canções. Mas não tem a ver com falta de inspiração ou falta de vontade, mas com timings e outras coisas.

Vens de Tondela, de um meio pequeno, e agora estás em Lisboa. Mas pareces fugir um bocado àquela tendência, que muitos artistas têm de fugir da cidade na altura de escrever as canções e trabalhar nos álbuns.

Infelizmente, nem sempre tenho tempo de fazer essas escapadelas quando há períodos de necessidade criativa. Mas acabo por levar a cabo uma experiência de exterioridade sensorial. Quase que simulo que estou fora de Lisboa na altura de escrever canções para fugir à azáfama, ao ritmo sufocante da cidade. E também porque as primeiras canções que escrevi foram nesses sítios mais pacatos e nunca me consegui desapegar desse método.

Como aprendi a fazer canções sem recorrer a qualquer estrutura ou rigor metódico, acabo por perpetuar esse lado de achar que as coisas têm de surgir quando têm de surgir e porque há espaço para que elas surjam. E elas surgem com mais facilidade em Tondela. Lisboa, sendo maior, é mais atafulhada e não gosto de estar atafulhado quando estou a escrever canções.

Fazendo agora uma introspeção em relação à música portuguesa, hoje em dia há muito o debate sobre o que é ‘rock’, uma tendência para dizer que o ‘rock’ está a morrer. Que diferenças vês entre 2003 e 2019?

A visão que eu tenho do panorama musical muda, até porque a minha posição também mudou. Se calhar em 2003 estava muito mais atento a coisas emergentes, porque eu também fazia coisas emergentes. Hoje em dia, estou recetivo a que elas me cheguem aos ouvidos, mas nem sempre posso estar atento, porque já não é tanto o meu meio. Nesse sentido, a minha visão pode estar tombada pela maneira em que os meus movimentos podem estar associados à minha profissão.

Em relação ao ‘rock and roll’, os seus vaticínios são muito antigos e nunca se cumprem. Essa tendência entre haver coisas com mais guitarras ou menos guitarras é cíclica. E mesmo quando não é o género mais ouvido na rádio, ou o que vende mais, existe sempre em culturas mais subterrâneas, que acabam sempre por aparecer à tona. Dominam durante um tempo, depois acabam por ser subjugadas, mas acredito que é um estilo que foi inventado com selo de eternidade. O ‘rock and roll’ só vai acabar quando acabar a humanidade.

Em relação ao concerto de logo, podes nos dar alguma pista sobre ao que vai acontecer? Confesso que também gostava de saber o que vai acontecer. A base do alinhamento tem sido muito experimentada nas últimas semanas. Temos dado concertos semelhantes, mas a diferença reflete-se nos diversos públicos. E desta vez, vou estar numa sala onde nunca toquei, mas numa cidade onde já vivi. E esse conjunto de cenários e experiências diferentes vão tornar o concerto diferente e inesperado, não só para o público, mas também para mim.

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