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Cultura

Qual é a tua cena, Janeiro?

Nino Cirenza

“Acho que uma pessoa pode ser tudo… Podia estar a conduzir barcos no Zimbabué”. Irreverente, original e descontraído, Henrique Janeiro passou por Coimbra para “mandar o teto abaixo”. Por Leonor Garrido e Inês Casal Ribeiro

Entre várias explosões de ‘confettis’, o lançamento de uma casca de banana para a plateia e sopros de bolhas de sabão, o Salão Brazil encheu-se de boas energias ao som de Janeiro. O concerto foi marcado pela irreverência e descontração dos músicos, com uma entrada em pés descalços e de fatos de treino vermelhos.

A tranquilidade transmitida resultou em danças, não só entre os membros da banda, mas também com o público. “Os meus concertos são para aproveitar, para pensar e para estar bem. Quero passar-vos este sentimento porque eu estou bem”. A construção do palco, preenchido com várias plantas, acompanhou a originalidade do cantor e do resto da banda.

O músico e compositor, natural de Coimbra, levantou os ânimos da casa na noite de 7 de março. A duas horas do concerto, aventurámo-nos numa conversa com Henrique Janeiro.

Como te sentes ao atuar na cidade onde nasceste?

É incrível, especialmente porque acho que isto já esgotou ‘online’. Não sei se está esgotado fisicamente, mas espero que esgote. Então, temos de mandar o teto abaixo.

Tens algum ritual antes do concerto?

Tenho. Todos nós bebemos um ‘shot’ de whisky e mandamos o grito: “toma coisas para viver”.

Porquê “Frag.men.tos” para o nome do teu primeiro e único álbum até agora?

Em primeiro lugar, por causa do género. Aquilo está tudo fragmentado em género. Primeiro ouves um ‘beat’, depois ouves um ‘R&B’ eletrónico e depois qualquer coisa acústica (como um som sozinho com a guitarra). E o título também é inspirado pelos meus amigos e pela minha família, como se fosse um fragmento de cada um deles. A malta que está na minha vida… É como se fosse um fragmento de cada um e me deixasse inspirar por cada um.

Como é que a tua música se relaciona com a tua personalidade?

Eu falo, canto e toco sobre o que sinto e o que vou vivendo… E vou-me transformando e desenvolvendo com aquilo que faço. Isso é lindo. É a minha personalidade a influenciar a minha arte. Se estou mais triste, vou falar de uma cena mais triste, vou falar sobre solidão.

És tu que compões a tua música, então?

Ya, ya. Pensavam que era mais malta?! Sim, sou eu que escrevo tudo e componho.

A música sempre fez parte da tua vida?

Sim. É uma cena que está sempre presente. Sai-se à rua e é uma coisa a que não dá para escapar (e a que também não se quer escapar). Mas é meio antidemocrático entrar-se numa loja e ter de se levar com uma espécie de música… Às vezes estou na boa, outras vezes apetece-me estar a ouvir outra coisa. E é curioso como as pessoas não se apercebem de que a música tem uma influência nelas a nível emocional. E depois não conseguem, com a razão, tomar consciência de que é a música que lhes está a transformar a emoção. A música tem esse papel funcional de nos transformar. Mas sim, surgiu desde sempre. Lembro-me de estar ao colo do meu pai numa sala a ouvirmos música e discos…

Quais são as tuas referências?

No cinema, o Kubrick, o Jodorowsky… Estou sempre a ouvir o Frank Ocean, Anderson .Paak, Mac Miller, John Mayer… Assim essa malta.

Se não tivesses seguido o curso de Musicologia na Universidade Nova de Lisboa, o que é que tinhas escolhido?

Não sei. Se calhar era pescador ou caçador na Antártida. Uma pessoa pode ser tudo… Eu podia estar a conduzir barcos no Zimbabué. Já viram que tem sempre a ver com a água?

E quais são os teus próximos objetivos no mundo da música?

Não sei. Estava a apetecer-me começar a fazer filmes. Por isso, não sei o que vai acontecer com a música… Mas eu vou continuar a fazê-la.

Mas a participar ou realizar?

Realizar! Participar não sei. Mais realizar, dirigir…

Participaste no Festival da Canção no ano passado, ficando em segundo lugar. O que sentiste? Como foi cantar no festival?

Foi tranquilo. Aquilo é um ‘spot’ um bocado estranho porque tem muitas luzes e câmaras. Não é muito a minha cena…

Sentes que há uma nova visão da música em Portugal, após o Salvador Sobral ter vencido a Eurovisão?

Não sei se foi depois de ele ter ganho. Acho que já estava a surgir [uma nova visão] há alguns anos… Acho que a malta se está a aperceber agora de que isso está a acontecer, porque há uma data de novos músicos incríveis a surgir.

O Salvador Sobral, para além de teu amigo, é também uma inspiração para ti?

Claro. E espero que eu seja para ele também.

Como é que começou essa relação?

O Fred, que é um amigo em comum, apresentou-nos e começámos a conversar. A cena é que os artistas conhecem-se todos. Acontece que depois acabamos por encontrar uma conexão… De repente, estava sempre com ele. Mas pronto, espero que ele tenha sentido isso comigo também. Acho que nos transformámos em grandes amigos. Um transforma o outro. Cada um inspira cada qual.

Se tivesses de escolher, tocavas em concertos só teus ou só em festivais?

Epá, depende. Por exemplo, agora vou lançar um ‘single’ com a Carolina Deslandes; entretanto quero lançar um tema também com alguém do Brasil; depois quero lançar outra coisa, mais à frente, com mais malta. Ou seja, eu quero estar em parcerias com as pessoas que estão à minha volta, a fazer música, e fazer cenas no sentido da arte, a escrever e a compor. Então, o que eu quero mesmo é fazer a minha cena sempre, independentemente de onde for. Se o festival me der a logística, a permissão de eu “tripar” com o que eu quiser… Tipo eu chegar lá e dizer “agora quero um cão”, isso é que é a minha cena…

Tens em mente um novo álbum para breve?

Vou lançar 15 álbuns em 2020. Não, estou a gozar. Não sei, não sei. Epá, eu curto de continuar a fazer cenas e… Não sei, eu estou sempre com bué ideias. Posso-me fritar e ser caçador na Antártida, nunca se sabe.

Fotografias: Nino Cirenza

[Artigo publicado na edição 294 do Jornal Universitário de Coimbra – A Cabra]

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