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Ensino Superior

João Gabriel Silva: “Coimbra é uma cidade universitária plena”

Jéssica Gonçalves

Sentado de forma descontraída num dos gabinetes da reitoria, casa que o acolheu nos últimos oito anos, só a profissional rigidez da gravata contrasta com o sorriso com que recorda os dois mandatos enquanto reitor da Universidade de Coimbra (UC). No dia em que passa a pasta a uma nova reitoria, o antigo reitor da UC, João Gabriel Silva, deixa uma mensagem à academia: aceitar o desafio do mundo. Por Margarida Maneta e Maria Francisca Romão

Qual foi o pensamento que teve quanto entrou no seu gabinete pela primeira vez?

Já não me recordo, mas sei que houve uma dúvida que me acompanhou: “serei capaz de fazer um bom trabalho?”. Sempre pensei que, se não conseguisse, não valeria a pena. Agora que a UC é a instituição de Ensino Superior (ES) mais internacional no país, está financeiramente mais equilibrada e tem um aumento da atividade desportiva e cultural, saio satisfeito. Não foram anos fáceis e ainda há muito para fazer, mas a universidade funciona melhor do que quando entrei.

Que balanço faz do seu mandato?

Refletir sobre estes quase oito anos implica recordar a baixa natalidade com reflexos no menor número de candidatos ao ES. A UC não foi exceção e o contingente de estudantes a entrar nas nossas faculdades tem diminuído. Poucos meses depois de assumir o cargo de reitor, o memorando com a troika foi assinado. A diminuição do orçamento foi muito violenta e fomos obrigados a cortar salários. Hoje, a situação inverteu-se. O governo diz-nos para pagar mais aos funcionários, mas sem nos dar todo o dinheiro necessário para cobrir estas despesas. Não houve um ano em que o financiamento não tivesse descido.

Ironicamente, ter estado à frente da UC num período tão desfavorável foi um privilégio. Implicou que repensássemos a atratividade da universidade e chamássemos mais estudantes internacionais. Atingimos o marco histórico de 20 por cento de estudantes não-portugueses. Do ponto de vista financeiro, tivemos que ir à luta. Conseguimos aumentar as receitas anuais da UC em cerca de mais 12 milhões de euros do que em 2011. É este crescimento que garante o bom funcionamento da casa. Num contexto de profunda retração orçamental, fizemos um grande trabalho. Recuperámos algumas residências que não tinham água quente ou internet e abrimos mais concursos para contratar professores do que em qualquer outro período da história. É certo que algumas contratações foram, na verdade, substituições, porque há muitos docentes a atingir a idade de aposentação, mas, sem dinheiro, nem substituir os professores conseguiríamos. O facto de termos mantido e até aumentado o número de docentes é uma vitória. Também a produção científica das faculdades cresceu. Para um período tão desfavorável, estou satisfeito.

Foi um desafio reconfigurar a equipa depois da saída da agora ex-vice-reitora Clara Almeida Santos?

É sempre. Como faltavam poucos meses para o término do mandato, não senti que era razoável pedir a alguém que largasse tudo por causa de alguns meses. Apesar de isso ter resultado numa sobrecarga, não justificava entregar a pasta a outra pessoa.

Pode desenhar uma cronologia dos momentos mais marcantes destes anos?

Descobrir que tinha a troika pela frente foi sem dúvida um momento marcante. Só entre 2010 e 2011, a UC perdeu dez milhões de euros das suas poupanças. Quando me tornei reitor, encontrei uma situação desequilibrada agravada pela ação da troika. Por isso é que, quando aqui entrei, tinha cabelos escuros e, agora, tenho cabelos brancos (risos). Também me vem à memória o empenho que tivemos na recuperação do Teatro Académico de Gil Vicente, que estava quase a deixar de funcionar. Ainda no plano cultural, destaco o reforço orçamental que injetámos na Semana Cultural da UC, mesmo sem receber um cêntimo do Estado para suportar iniciativas culturais. Encontrámos energias para responder às contrariedades do exterior, sem comprometer a academia. Mesmo com cortes orçamentais, o dinheiro que a UC dá à Associação Académica de Coimbra (AAC) nunca diminuiu e, em certas alturas, foi reforçado. Os Jogos Europeus Universitários 2018 (JEU2018) são também um episódio incontornável desta cronologia que me faz acreditar que a UC tem futuro, porque foi toda a comunidade que o construiu. Foi um exemplo fantástico da relação entre universidade e estudantes. É um evento irrepetível, pois vai ser difícil recriar a dimensão, envolvimento e entusiasmo registados.

Na cerimónia de abertura dos JEU2018, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, expressou o seu desejo de que os jogos fossem “um exemplo da cultura universitária e dos valores olímpicos”. Considera que tal aconteceu?

Sem dúvida. Prova disso é o facto de o reitor da UC representar toda a Europa no Conselho Consultivo Académico da Federação Internacional do Desporto Universitário. Os jogos foram um sucesso tão grande que todos os países ficaram interessados em saber qual era o nosso segredo. Juntámos 4 000 atletas e quase 400 universidades sem gastar centenas de milhões de euros. Promovemos uma ligação profunda entre a UC e os estudantes e, como tal, vivemos um espírito olímpico puro. Os JEU2018 deixaram uma importante lição: quando se fala de desporto universitário, os interlocutores devem ser as universidades e não os países. Os estudantes-atletas têm que conciliar a vida académica e a vida desportiva e, como tal, não podem ser afastados das faculdades.

“Não podemos viver apenas para a cidade. Devemos olhar mais longe, quer em termos de atratividade internacional, quer quanto ao conhecimento produzido”

A UC é vista como o principal motor de turismo em Coimbra. Também dinamiza outros setores da cidade, como a economia e a cultura?

Se retirássemos as atividades económica e cultural associadas à UC, sobravam poucas iniciativas em Coimbra. Ao pensar nas empresas da cidade vocacionadas para o futuro e para a exportação, parece-me que todas saíram das nossas faculdades. Assim como o conhecimento avançado e investigação que sustentam o próprio Centro Hospital e Universitário de Coimbra (CHUC). Sem ele, o CHUC seria apenas um hospital distrital como qualquer outro. Coimbra é, por isso, uma cidade universitária plena.

Que caminhos é que considera que uma das universidades mais antigas do mundo tem que percorrer para se adaptar aos desafios do presente?

O caminho que a leve a mergulhar no desafio de ser uma universidade global. Não podemos viver apenas para a cidade. Devemos olhar mais longe, quer em termos de atratividade internacional, quer quanto ao conhecimento produzido. Se uma universidade não primar pela qualidade, os estudantes encontram outras alternativas. Assim, precisamos de grandes professores. Tenho aumentado a exigência dos critérios de seleção dos docentes. Não se pode contratar aquele que é próximo. Tem de se contratar quem tem mérito. A universidade deve representar uma meritocracia muito mais exigente e avançada do que foi no passado.

João Gabriel Silva e Amílcar Falcão na cerimónia de investidura deste último como novo reitor da UC. Fotografia por: Isabel Simões

Como é que encarou a descida da UC no Ranking de Xangai?       

Como um acontecimento que foi ampliado pelos meios de comunicação nacional de forma pouco justa. Todas as instituições têm oscilações nestas listas. Quando a UC entrou no Ranking de Xangai, não houve notícias. Acredito que seja porque a nossa universidade faz sombra a outras pela idade, história e relevância que tem. A UC é a mais internacional das universidades portuguesas, a que consegue atrair mais gente. Para além disto, o ranking de Xangai funciona de forma paradoxal. Ao mesmo tempo que baixámos umas posições, subimos imenso nos rankings setoriais. Só um item, a publicação em duas revistas, é que nos correu menos bem.

Este ano letivo foi o que registou o maior número de entrada de estudantes na UC. Que desafios é que este registo traz para a instituição?

Quando as variáveis demográficas são tão desfavoráveis e conseguimos, mesmo assim, aumentar o número de estudantes, estamos perante uma vitória dupla. Se estivéssemos num ambiente de expansão demográfica, era normal. Não estando, dá-nos ânimo. Estamos aqui para que a UC seja cada vez melhor, que todos se sintam bem aqui, que aprendam e se desenvolvam. Este indicador prova isso mesmo, é um momento de satisfação.

2018 foi também o ano em que noticiaram a descida da propina máxima dos estudantes nacionais. Como é que encarou esta proposta do Orçamento de Estado (OE) 2019?

Acho que é demagogia. Para permitir que as pessoas sem condições financeiras cheguem ao ES, temos de concentrar nelas os recursos limitados que existem. Aplicar as mesmas medidas a quem precisa e a quem não precisa é o mesmo que não fazer nada. Quase ninguém passa a poder ingressar numa universidade por 200 euros de diferença. Pela proposta do OE de 2019, as instituições de ES devem ser compensadas pela perda de receitas correspondente. Acredito que isso aconteça, mas não de forma total. Uma alternativa seria injetar os 50 milhões de euros disponíveis no alargamento das bolsas, porque o seu valor e os patamares de atribuição são baixos.

“Uma instituição que mostra ser capaz de lutar contra a fraude, valoriza os diplomas emitidos e reforça a sua seriedade e prestígio”

Qual a sua posição relativa ao movimento Propina Zero?

Sou a favor de que toda a gente chegue ao ES independentemente das suas condições económicas. Se a propina zero estiver neste sentido, tem o meu apoio. Os moldes em que a propina está agora a ser pensada não conduz a este objetivo e, por isso, não tem o meu apoio.

Concorda com os moldes em que a atual propina dos estudantes internacionais existe?

Sim, fui eu que a propus. O Estado português não dá nenhum financiamento aos estudantes internacionais. Por isso, estamos a cobrar-lhes o que custa estudar na UC.

Que balanço faz da luta contra a fraude e plágio que distinguiu como uma das suas bandeiras neste segundo mandato?

Faço um balanço positivo. Embora continue a existir muita gente a copiar e a apresentar como seu o que é roubado, a sensação de impunidade total que existia atenuou-se. A percentagem de casos que conseguimos apanhar é baixa, mas o facto de estarmos atentos e de os sancionarmos com medidas que não são leves é um dissuasor importante. Fizemos grandes progressos nessa matéria. Uma instituição que mostra ser capaz de lutar contra a fraude, valoriza os diplomas emitidos e reforça a sua seriedade e prestígio. Uma universidade que pactue com vigarices, está a prestar um péssimo serviço ao país.

O que o espera quando sair daqui?

Vou dormir durante dois meses (risos). Depois desse tempo, volto a ser professor. Gosto da interação com os alunos, mas já não dou aulas há dez anos. Também quero retomar a área da investigação.

Portanto, “o bom filho a casa retorna”?

Sim, volto para Engenharia Informática sem qualquer hesitação.

Tem alguma mensagem que gostaria de deixar ao novo reitor da UC, Amílcar Falcão?

Se a UC quiser ter um futuro à altura do seu passado, um futuro que nos orgulhe, tem de aceitar o desafio do mundo, não se pode fechar. Tem de ser uma universidade internacional.

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