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Cultura

Conversas sobre feminismo confirmam importância do debate informado

André Crujo

Conferência feminista revela discurso controverso de docente da FLUC. Confronto de opiniões relativas a mutilação genital feminina desencadeou discussões na plateia. Por André Crujo e Isabel Pinto

Evódia Graça, ativista, fala na necessidade de chamar os homens para as lutas feministas. Por oposição, Catarina Martins, professora da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC), defende que o feminismo ocidental é apenas válido para mulheres brancas, de classe média e instruídas. Acrescenta que a consequência é a estereotipação das restantes como consolidação dos direitos das mulheres brancas. A conferência teve lugar no Aqui Base Tango pelas 18 horas da passada sexta feira.

“Não é que a mutilação genital feminina não seja um problema, mas em alguns casos não é”, defende a professora da FLUC. Na sua opinião, o consentimento da mulher define a gravidade da situação. Estas declarações provocaram o descontentamento da plateia e das restantes oradoras. Segundo Catarina Martins, a questão surge por fazer parte da agenda ocidental, não por ser uma violação dos direitos humanos: “o ocidente colou essa etiqueta nas testas das mulheres do terceiro mundo”. Por considerar os restantes povos “bárbaros incivilizados”, o ocidente une-se na sua “branquitude” através do medo e do ódio.

“O feminismo está na moda, não por estar a avançar, mas por estar a retroceder”

Este discurso valeu-lhe a acusação de racismo por parte da coordenadora do Grupo da China da Amnistia Internacional, Maria Teresa Nogueira. “Pôs o feminismo branco como querendo ser superior ao feminismo negro”, sustenta. Esta critica Catarina Martins também pelo facto de “defender a mutilação genital feminina como sendo uma questão cultural” e acrescenta que “estas mutilações não respeitam a dignidade das pessoas”. Maria Teresa Nogueira explica que também a China, país que hoje mantém um governo autoritário, começou por dizer que os direitos humanos são um conceito ocidental. No entanto, expressou a sua apreciação pelos restantes discursos e destacou Evódia Graça pela mensagem inclusiva que “mostrou uma tolerância enorme”.

Evódia Graça, empreendedora social e ativista, apontou a importância de não assumir um discurso radical e agressivo perante atitudes machistas. Contou que teve de “abordar o feminismo de forma a ter os homens do seu lado” e criticou a sobrevalorização da beleza física e habilidades domésticas da mulher em detrimento da sua inteligência. “O feminismo está na moda, não por estar a avançar, mas por estar a retroceder”, admite. A oradora aponta o extremismo e o histerismo como causadores deste fenómeno.

Maria do Céu Pires, colaboradora do Centro de Filosofia, Política e Cultura da Universidade da Beira Interior, salienta a relevância da história para se falar nos direitos das mulheres. Destacou personalidades femininas de “grande importância que foram esquecidas”, uma vez que “o que é ensinado nas escolas ignora metade da população”. A oradora sublinha ainda que “contar apenas parte da história é injusto, não só para as mulheres, mas para a humanidade”.

Como resposta à intervenção de Catarina Martins, professora responsável pelo doutoramento em Estudos Feministas na FLUC, Maria do Céu Pires diz que “não se pode ter uma visão substancialista da cultura”. Acrescenta que quem se insere em determinada cultura encara as suas práticas como naturais, contudo, “estas transformam-se pelo contacto com outras”.

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