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Ensino Superior

Pedro Pires: “Acredito que a nova geração poderá dar continuidade ao projeto de uma “África Nova””

Isabel Simões

O colóquio “Figurações de Amílcar Cabral – memória, política e cultura” trouxe ao Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra investigadores portugueses, guineenses, cabo-verdianos e italianos que deram uma perspetiva do pensamento político do líder do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) que conduziu a luta de libertação daqueles dois países africanos. Amílcar Cabral foi assassinado no dia 20 de janeiro de 1973 na Guiné-Conacri. Pedro Pires a quem todos chamam com carinho de “comandante” foi um dos companheiros de luta de Amílcar Cabral. Hoje foi o último orador de um dia cheio, que acompanhou de forma paciente nos seus quase 85 anos. Por Isabel Simões

Após a independência de Cabo Verde em 5 de julho de 1975, Pedro Pires foi designado primeiro-ministro. Liderou o país africano até 1991 ano em que o Movimento pela Democracia, de Carlos Veiga ganhou as eleições. Em 2001 concorreu a Presidente da República de Cabo Verde, cargo que ocupou até setembro de 2011.

Hoje, ouviu críticas à herança de Amílcar Cabral mas também investigações que mostram que não foi fácil criar dois países numa África num contexto de Guerra Fria em que os diversos interesses eram profundos.

Antes de tudo queria dizer que escuto com muita atenção o que dizem os outros. Mesmo que sejam críticos não me afligem porque entendo que errare humanum est. O erro não é um crime nem um pecado. O erro é uma insuficiência. É normal que se critique uma decisão ou uma opção de Amílcar Cabral. Todos têm direito a opinião. Encaro isso com normalidade. O que tento transmitir às pessoas é que antes de julgarmos e condenarmos devemos tentar compreender. Acho que na política deve ser assim, mas também nas relações humanas. Não devemos condenar antes de procurar compreender. Na conversa de hoje tentei explicar que na vida nada é fácil. Mais do que isso procurei introduzir a ideia da complexidade. Os factos são todos complexos, não há nenhum que possa considerar-se como qualquer coisa evidente.

Gostava que nos desse o lado humano de Amílcar Cabral porque ele morreu cedo, foi assassinado. Como era o homem por detrás do guerrilheiro, do filósofo, do pensador?

Amílcar Cabral tratava todos os seus companheiros pelo nome. Ele nunca tratou os outros por um número ou por um chamamento qualquer. Esse é um dos aspectos importantes da sua forma de estar enquanto líder. Tinha muitas vezes uma atitude bastante pedagógica. Era ao mesmo tempo uma pessoa extremamente alegre e tinha um grande amor à vida. Gostava muito de crianças e acho que pensava muito no futuro delas para o qual estaria a trabalhar. Essa era a pessoa Amílcar Cabral que não pode ser resumida em poucas palavras como estou a fazer. Alguém que tinha uma excelente cultura. Como é que conseguiu adquirir essa cultura? Pela ação, pela reflexão mas também pelos estudos. Tinha essa preocupação de compreender para poder decidir.

“Era um país empobrecido, sem recursos financeiros e uma população numa situação de pobreza enorme”

A Guiné no início da descolonização em 1974 era em grande parte já um país livre. [A Declaração Unilateral da Independência pelo PAIGC tinha ocorrido em 24 de setembro de 1973]. Como estratega, Amílcar Cabral pensou sempre que o exército português podia ser derrotado?

Estávamos a fazer uma guerra de usura e de longa duração. A luta armada começou em 1963 e terminou em 1974, foram onze anos! Não tínhamos a ideia completa da aflição em que viviam os militares portugueses. A ideia de vitória de Amílcar Cabral não era travar a batalha final, como aconteceu com os franceses em Diên Biêm Phu (no Vietname), era criar uma situação em que a tropa portuguesa já não podia continuar, para que não se sentisse bem em nenhum sítio. Era uma situação tal em que chegaria à conclusão: “bom não vale a pena continuar, vamos negociar com essa gente”. A ideia na conceção militar de Amílcar Cabral está num dos escritos dele, não era a batalha final mas sim criar uma situação de insustentabilidade e nessa situação haveria certamente de se chegar a um entendimento.

Fotografia por Isabel Simões

Quando toma as rédeas do seu país, de Cabo Verde, e começa a fazer a transição para o regime que sonhou quais foram as maiores dificuldades encontradas?

(risos) Havia só dificuldades… não havia facilidades. Era um país empobrecido, sem recursos financeiros e uma população numa situação de pobreza enorme. Em primeiro lugar era preciso garantir aquilo a que podemos chamar a segurança humana, a segurança alimentar, isso era fundamental, depois viria o resto. Mas um outro aspecto importante era convencer as pessoas de que podíamos ganhar e vencer aquela dificuldade, levá-las a acreditar no futuro. Tudo era muito complicado porque o país é um país pequeno, pobre e insular. Toda a política que se fizesse ia na direção de reverter tudo isso, melhorar as condições materiais das pessoas e levá-las a acreditar num futuro melhor.

Como é que se sentiu quando deixou o poder por força das eleições. Sentiu-se injustiçado, amargurado, ou reconheceu que a democracia é isso mesmo?

Deixei o poder por duas vezes: uma quando perdi as eleições, outra quando terminei o mandato de Presidente da República – situações que são completamente diferentes. Na primeira situação, o pensamento de que melhor me recordo foi o de não saber porque é que estávamos a ser tão penalizados. Por isso, tentava ser humilde e compreender. Foi uma luta, pois muitos pareciam não estar contentes com a independência e, por isso, estar contra o Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV).

“Estamos a falar de uma autêntica metamorfose de um guerrilheiro num homem de Estado”

Quando retoma o poder, já na Presidência da República, vai de alma lavada?

Já tinha tido uma grande experiência de vida que me fazia encarar tudo com paz de espírito e humildade. O maior defeito da pessoa humana é a arrogância. Encarar o que acontece com normalidade e respeito pelos outros é um enorme trunfo.

Sentiu que os seus compatriotas lhe estavam a dever alguma coisa, uma vez que era um jovem que tinha sacrificado os seus anos de mais tenra idade?

Não lhes cheguei a tirar a conta (risos), vamos ver se eles ainda pagam. Mas nunca lhes dei qualquer fatura e não tenho intenção de dar.

Tem ideia de quando decidiu “Basta! Vou ter que lutar pela independência do meu país juntamente com os meus colegas africanos”? Foi um momento específico, foi uma época…

Foi uma evolução mental e, depois, uma decisão pessoal. Cheguei à conclusão de que era esse o meu caminho e, como tal, foi essa a rota que segui. Sobrevivi a várias dificuldades e, no fim, chego a chefe de Governo do meu país, depois a Presidente da minha nação, por isso entendo que foi uma boa decisão.

Como é que se preparou para deixar de ser o guerrilheiro Pedro Pires e passar a ser o negociador da independência?

Estamos a falar de uma autêntica metamorfose de um guerrilheiro num homem de Estado (risos). Aprendi muito durante este tempo de transição. Ser um homem de Estado é ter responsabilidade e consciência, pois o interesse da nação está acima dos nossos interesses pessoais. Não posso dizer que tenha sido uma rutura, fui evoluindo até chegar lá.

“As informações que chegam dos países africanos não salientam os pontos positivos”

Houve muitos guerrilheiros que se distinguiram durante a guerra, mas que não foram capazes de se adaptar aos novos tempos. Não foi o seu caso. Há algum líder africano para além de Amílcar Cabral e Eduardo Mondlane que tenha admirado e que lhe tenha servido de inspiração nessa transição?

A aprendizagem faz-se durante o percurso, vamos observando, porque não somos indiferentes ao que nos rodeia e ao que nos envolve. Estamos sempre implicados. Quando observamos tomamos consciência dos erros dos outros – o que é um grande ensinamento. Se usarmos a experiência dos outros para refletir sobre a nossa própria experiência, conseguiremos chegar à pessoa que somos hoje.

E qual é a pessoa que é hoje o comandante Pedro Pires, depois da experiência como Presidente da República?

É um velho sábio (risos), uma pessoa que aprendeu com a idade, com o tempo, com os outros.

Como gostaria de ser lembrado?

Essa foi uma pergunta que já me colocaram, mas já na altura não consegui responder. Acho que gostaria que me recordassem como sou, como uma pessoa sensata, alguém que gosta dos outros, do seu país.

Explicou que as transições entre períodos distintos da história de um país se devem fazer ao ritmo ditado pelo seu povo. No seu ponto de vista, qual o futuro para o continente africano?

Não tenho muita pressa e, como tal, penso que também os países e líderes africanos não devem ter a pressa de querer resolver tudo de uma só vez. Devem ter uma agenda com as prioridades e, à medida que conquistarem um objetivo, vão criando condições para que novas metas sejam cumpridas. As informações que chegam dos países africanos não salientam os pontos positivos. Mas acredito que a nova geração poderá dar continuidade a este projeto de uma “África Nova”.

Com Maria Francisca Romão

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