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Cultura

Moscovo: uma cidade “artística e global” apresenta-se em Coimbra

Fotografia gentilmente cedida por André Kuzer

Mosteiro de Santa Clara-a-Velha acolhe até dia 24 de fevereiro a exposição fotográfica MOSCOW XXI, do arquiteto André Kuzer. Inaugurada a 25 de janeiro a mostra segue depois para Lisboa. Pela segunda vez, a sala de exposições temporárias do mosteiro recebe fotografias do artista, natural de Coimbra. A entrada é livre. Por Paula Martins e Isabel Simões

Quais as razões que o levaram a escolher Moscovo para ser fotografada?

Comecei a ter aulas de russo há dois anos no Centro de Estudos Russos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC). A meio de 2018 descobri que existiam bolsas para estudar em Moscovo durante o verão. Concorri e ganhei. Para além disso, sou uma pessoa que funciona a nível gráfico e gosto de colecionar imagens. O cirílico, alfabeto russo, fez-me querer descodificar essa simbologia.

Entretanto, quando cheguei à cidade entendi que a minha visão de Moscovo era totalmente condicionada pelo que nos chegava. Visto que já fotografava e que já tinha feito outras exposições, achei boa ideia apresentar a cidade da forma como eu a conheci, que não corresponde à imagem que a Europa Ocidental tem de Moscovo. Por isso resolvi fotografá-la e trazê-la como exposição para Portugal.

Como tive a oportunidade de estar bastante tempo em Moscovo, acabei por trazer as imagens reais da capital, que é uma cidade muito mais contemporânea e global do que o retrato militar que temos, relacionado com o mundo soviético.

Que cidade é esta que diz ser contemporânea?

Moscovo para já é uma cidade surpreendente! Não nos passa pela cabeça que esta cidade possa ser extremamente artística. Ao chegar a Moscovo conheci alguns cidadãos russos que acabaram por me mostrar uma cidade muito contemporânea que luta para conseguir equiparar-se a cidades globais como Nova Iorque e Tóquio.

O movimento artístico da cidade não chega da mesma forma a Portugal porque não temos uma relação tão direta com Moscovo. Portanto, encontrei uma cidade que tinha essa componente artística muito evidente, com vários centros artísticos, muitos museus, não só de arte russa, mas também de arte contemporânea, com obras de arquitetos nomeados internacionalmente.

Algum artista que o tenha impressionado?

Vários. Claro, os quadros do Kandinsky, mas isso já é muito século XX. Do século XXI, diria que, de forma geral, todos me impressionaram. Não retive um artista em especial, mas gostei dos movimentos culturais que existem em Moscovo.

Foi a primeira vez que esteve na cidade?

Sim. Os turistas portugueses em Moscovo vão, de forma geral, organizados em excursões. E foi por eu não ter muito interesse nesse tipo de viagens – que limitam os passos dos excursionistas – e por já falar um pouco de russo que aproveitei a bolsa. A língua é sempre a maior barreira na Rússia, o que se deve ao cirílico que não entendemos. Eu queria conhecer o país, mas queria conhecê-lo nas condições que me agradavam. Por isso, apesar de ter sido a primeira vez, preparei-me ao aprender o idioma.

Para além de aprender a língua quais foram as preocupações que teve nesta viagem, em termos de alojamento ou de pessoas a contactar?

Fui estudar no Instituto Pushkin e a Rússia ofereceu-me a bolsa, na qual estava incluído um quarto numa residência de estudantes. Claro que já não sou nenhum jovem e de alguma forma sentia que talvez não fosse socializar tanto quanto alguém que tivesse 18 anos. Isso acabou por não ser verdade, porque encontrei pessoas de todas as idades. Ao princípio a maior preocupação pode ser a segurança, mas isso não passa de um estereótipo. Agora, sei que esse desconforto vem da barreira linguística e que existem muitas histórias que me pareceram boatos.

E em relação a esta exposição, é a segunda vez que expõe em Coimbra, e no mesmo local, o Mosteiro de Santa Clara-a-Velha. Por algum motivo em especial?

É quase como uma superstição…

O local quase que faz uma conjugação entre o passado e o presente. Porquê Moscovo exposta num espaço quase religioso?

Eu gosto do local por questões de iluminação e pelo facto de ser bastante frequentado. E as exposições que costuma receber são muito diversas. A primeira que expus foi sobre arquitetura e a segunda também. Não sei dizer porque é que inseri Moscovo naquele espaço, foi simplesmente por ser um sítio que me agrada.

“Moscovo tentou fazer de si a melhor cidade do mundo.”

Em relação à sua fotografia, na primeira exposição que realizou, as imagens refletiam traços de arquiteto como se procurasse o desenho original naquilo que hoje é o edifício. Isso acontece também nesta exposição?

Acontece menos porque a primeira exposição era mais gráfica e artística. Esta última acaba por ser mais descritiva. Embora a minha forma de fotografar não se limite à descrição dos locais e dos edifícios, faço enquadramentos de acordo com o meu olhar sobre o que me rodeia. É diferente da primeira exposição porque desta vez quis mostrar um local, por isso tentei encontrar características mais evidentes do que eu via e me agradava em Moscovo. Existe sempre algo da minha personalidade nas fotografias.

Como foi o seu percurso pessoal até chegar à fotografia?

Na época de liceu gostava muito de História de Arte e de viajar. A fotografia foi uma forma que arranjei de catalogar os monumentos enquanto estudava. Comecei a fazê-lo em Coimbra para depois agrupar as correntes artísticas. Ao começar a fotografar percebi que era algo que gostava mesmo muito de fazer. E como viajei muito desde criança fotografava as novidades que ia encontrando nos locais que passava. Fotografo desde 1994 e só fiz a primeira exposição em 2017. Foram mais de 20 anos de milhares de fotografias guardadas.

Apercebe-se no seu modo de fotografar que não é um turista habitual que fotografa tudo o que mexe. O seu olhar escolhe com rigor aquilo que fotografa?

Tenho uma característica, talvez pelo facto de fotografar há muito. Procuro fazer enquadramentos mentais e, se não tiver câmara no momento, regresso ao local. Nesta exposição de Moscovo também uso a abstração. Retiro os elementos do seu cenário e aproximo-os. Contudo, por querer mostrar a cidade e o que é Moscovo, não podia exagerar na abstração dos locais. Utilizei, portanto, um meio termo. Mas não fotografo tudo, faço escolhas. Para além disso, gosto de fotografar sozinho porque demoro muito tempo a selecionar os enquadramentos. Alguém que esteja comigo pode ficar 15 minutos à espera para que tire uma fotografia. Às vezes mudo de passeio, espero que os carros passem, espero que as pessoas se afastem. Em geral, uso a figura humana apenas como escala do que está a ser fotografado.

Em relação aos fotógrafos de que gosta, tem algum ídolo em especial?

Existem vários. Quando era mais novo gostava muito de um fotógrafo italiano chamado Gabriele Basilico que, de certa forma, me inspirou. Também Henri Cartier-Bresson foi outro fotógrafo que admiro muito e considero-o guru da fotografia. A meu ver, esse é o fotografo que melhor é capaz de transmitir os sentimentos. Por fim, Elliott Erwitt é um artista que tem muitas imagens de Nova Iorque de que gosto. Quase todos eles fotografaram muito o espaço arquitetónico e urbano.

Nesta exposição tem alguma fotografia ou fotografias que tenha tido um especial prazer em mostrar?

Sim, tenho uma ou duas fotografias que me deram especial prazer. Talvez por achar que não seriam esperadas pelo público. Tive o cuidado de colocar pontos fundamentais do nosso imaginário, embora com enquadramento diferente. Por exemplo, a Catedral de São Basílio, um dos símbolos de Moscovo. No entanto, a maioria das fotografias não é de ícones da cidade, é de locais menos turísticos.

Esta exposição depois vai passar para Lisboa. Qual é o local específico?

Ainda está a ser decidido pela Embaixada da Federação Russa. Para já ainda não tenho essa informação.

Então, a embaixada da Rússia está a dar apoio a esta exposição?

Está. Tenho o apoio da embaixada da Federação Russa, do Centro de Línguas e Cultura Russa da FLUC e da Fundação Russky Mir (Mundo Russo) que patrocina o Centro de Línguas.

“Não sou fotógrafo, enveredei por outra carreira, e faço-o apenas pelo prazer que me dá.”

Tem formação em mais algum país sem ser em Portugal?

Formei-me em Lisboa no Instituto Superior Técnico, estudei em Madrid também no âmbito da arquitetura. E tenho a revalidação de curso na Universidade de São Paulo. Em fotografia fiz um curso na Escola de Artes Visuais em Lisboa em 1995.

São Paulo é uma cidade muito diferente de Moscovo?

Sim, é muito diferente. São Paulo é uma cidade que não tem o planeamento que Moscovo procura ter. Moscovo tentou fazer de si a melhor cidade do mundo. Tendo conseguido ou não, nota-se que existe essa preocupação. É uma cidade europeia que não deixa de ter as preocupações que na Europa nós temos. São Paulo foi desbravada. Começou por ser um centro pequeno, depois enriqueceu com o café. A cidade foi crescendo bloqueando as diversas quintas e as relações entre os bairros acabaram por ficar comprometidas. Apesar de ser uma cidade agradável para o tamanho que tem, é uma metrópole altamente densa em comparação com Moscovo. Na capital da Federação Russa, os edifícios, mesmo no centro, têm entre dois a três pisos. Moscovo é uma cidade calma, São Paulo não o é.

Quanto a projetos futuros, tem algum em mente no campo da fotografia?

Tenho. Estou a participar num projeto em São Paulo chamado “Nossa São Paulo”, que consistiu num concurso de fotografias para realizar uma edição de um livro sobre a cidade. De bastantes imagens a concorrer, duas das minhas fotografias foram escolhidas para fazer parte desse livro.

O que é que fotografou em São Paulo?

As duas imagens selecionadas que vão integrar este livro, a ser editado no verão, são: a imagem do ‘lobby’ de entrada do Auditório Ibirapuera e a fachada do Edifício Lyra, situada no centro de São Paulo.

Com vários fotógrafos e de várias nacionalidades?

Não, são pessoas que têm uma grande proximidade com a cidade, que moram, ou já moraram em São Paulo.

A fotografia é um ‘hobby’?

Sim, eu vivo da arquitetura. Embora trabalhe também com a fotografia uma vez que leciono no campo da imagem no Instituto Miguel Torga em Coimbra. Não sou fotógrafo, enveredei por outra carreira, e faço-o apenas pelo prazer que me dá. Conhecer um sítio novo, descobrir novos pontos e fotografá-los para mostrar ao público. Não tenho intenção nenhuma de chegar muito além disto com as fotografias, porque a minha profissão realmente é outra, sou arquiteto.

Fotografias gentilmente cedidas por André Kuzer

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