All for Joomla All for Webmasters
Desporto

Ginástica: “Não devemos ambicionar o nível de outros países, devemos ambicionar o nosso melhor nível”

Imagem gentilmente cedida por Mariana Pombo

Mariana Pombo é treinadora há 10 anos naquela que considera ser uma das “melhores secções desportivas de ginástica do país” – a Secção de Ginástica da Associação Académica de Coimbra (SG/AAC). Com participações nacionais e internacionais, o clube foi recentemente distinguido com cinco pódios na competição Bourne Open 2019, em Inglaterra. A secção da AAC abre portas aos mais novos e treina crianças a partir dos três anos que se especializam aos dez anos em acrobática, trampolim ou ‘tumbling’. Em conversa com a treinadora, Mariana Pombo explica como atingiu o sucesso nesta última área. Por Sofia Santos e Mónica Rego

Como é que tem sido a experiência em competições internacionais?

Temos obtido bons resultados. Todos os anos, tentamos dar uma experiência internacional aos nossos ginastas. Tanto no ‘tumbling’ – prova recente em Inglaterra – como nas outras áreas competitivas, temos conseguido sempre pódios e medalhas.

Como descreve a prova e os momentos vividos em Inglaterra?

Esta prova ocorreu a seguir ao campeonato territorial, o que é bom, porque podemos testar algumas séries que, posteriormente, vão ser utilizadas no campeonato nacional, em abril. No geral, a prova correu bem. O nível era muito forte, uma vez que os ingleses têm uma escola muito boa de ginástica. Eles apostam muito na formação dos escalões mais jovens. E foi, precisamente por isto, que decidimos ir a esta prova. Foi a nossa primeira vez em Inglaterra. Normalmente, vamos a Espanha.

A prova teve um ambiente descontraído. O ginásio era relativamente pequeno, o que ajudou a que os nervos fossem reduzindo ao longo da prova.

Participámos na prova cumprindo as regras da Federação Internacional de Ginástica, que divide os escalões por faixas etárias. No escalão 13-14 feminino, a Matilde Oliveira ficou em 2º lugar.  No escalão 15-16 feminino, a Francisca Pinto conseguiu o 3º lugar. No 17-21 feminino, a Daniela Gomes arrecadou o 2º lugar e a Carolina Lucas o 1º lugar. Por fim,  no escalão sénior masculino, o João Saraiva ganhou o 1º lugar.

Fotografia gentilmente cedida por Mariana Pombo

Que importância tiveram estes prémios para a AAC e para as/os ginastas?

Estes prémios têm sempre muita importância, principalmente no panorama que vivemos atualmente, onde a ginástica é pouco valorizada e a cidade não percebe o nível que temos.Portanto, torna-se essencial conseguirmos estes títulos internacionais para mostrar, tanto a nós próprios como à cidade, que merecemos visibilidade, apoio e melhores condições.

“Todas as competições são financiadas pelos nossos ginastas. Aliás, eu própria pago as minhas deslocações”

Que tipo de apoio financeiro é que a SG/AAC tem para cobrir este tipo de competições?

Todas as competições são financiadas pelos nossos ginastas. Aliás, eu própria pago as minhas deslocações.Os únicos apoios e donativos que temos são de algumas empresas que têm a capacidade de nos ajudar, dando pequenos montantes que abatem estes valores, porque ir a uma prova fora de Portugal é dispendioso. Além disso, a própria direção da SG/AAC, com o dinheiro que sobra, ajuda as classes de competição. Acho muito mau não haver apoio para as provas internacionais. A partir do momento em que os ginastas estão fora do país a representar-nos, devia existir responsabilidade nacional.  

Porque é que acha que existe pouca valorização em relação à ginástica?

Porque a ginástica não é o futebol. Porque não é um desporto nacional com visibilidade. Estamos ao lado de colegas que praticam modalidades olímpicas que também não são apoiadas, o que revela falta de interesse. A valorização da ginástica passa por identificar os clubes com melhores resultados e dar-lhes melhores condições, para que os resultados continuem a ser positivos.

“Globalmente, a ginástica é vista como um desporto para meninas”

Existe preconceito quanto ao género que frequenta esta modalidade?

Globalmente, a ginástica é vista como um desporto para meninas. Mas, na área dos trampolins e do ‘tumbling’ já começa a existir prática masculina. Portanto, os rapazes começam a entrar mais neste mundo.

Como são os treinos de preparação para as competições?

Todo o caminho é feito para os ginastas estarem no pico de forma. Neste momento, como já ultrapassámos o panorama nacional, temos ido a todas as provas de apuramento e, felizmente, temos conseguido apurar muitos ginastas. Portanto, é para estas provas que trabalhamos. Neste sentido, quanto mais longe da competição estamos mais preparação física fazemos e, quanto mais perto da competição, mais técnica o ginasta adquire.

Qual é a diferença entre as atletas portuguesas e as internacionais?

Comparando as ginastas mais avanças de Portugal às internacionais, estamos ao nível das atletas médias. Portanto, estamos a anos de luz dos países de topo.

Por exemplo, a Inglaterra aposta fortemente no desporto e na ginástica. Desde os nove anos que se preocupam em formar crianças para a Federação Nacional de Ginástica. É muito complicado comparar a nossa realidade à de um país evoluído… Não devemos ambicionar chegar ao nível deles, mas devemos ambicionar chegar ao nosso melhor nível. Não temos condições físicas, infraestruturas, tempo, nem capital humano para conseguir chegar ao nível de outros países.

Quais são as características essenciais de um atleta?

Além da capacidade técnica, a ginástica é um desporto onde é necessário muito foco e disciplina. É um desporto que tem muitos riscos e perigos – há muitas lesões. É preciso um grande sacrifício. É essencial uma boa capacidade e preparação física para se chegar longe.  É cansativo e, às vezes, desmotivante – é necessário trabalhar muito e os objetivos podem não ser imediatos. É preciso que as crianças sejam muito determinadas e nós, felizmente, temos tido essa capacidade. Aliás, por vezes, torna-se necessário faltar aos encontros com os amigos.

Neste sentido, qual é que é o seu papel enquanto treinadora?

O meu papel é organizar os treinos e planear a época desportiva. É definir objetivos, juntamente com eles. Passa também por ter um papel de psicóloga. É muito importante conhecê-los, percebê-los e ajudá-los da melhor forma a lidar com os sucessos, fracassos e frustrações – tudo para que o treino corra pelo melhor e para que consigamos alcançar os objetivos que estabelecemos.

“Nem todos os ginastas aprendem a fazer o mesmo movimento da mesma forma e com a mesma facilidade”

Mas, por vezes, há a necessidade de os repreender…

Sim, óbvio. Não deixam de ser crianças e adolescentes. Por vezes, não lidam bem com o fracasso. Não percebem o porquê de demorar tanto tempo a atingir um objetivo. Nem todos os ginastas aprendem a fazer o mesmo movimento da mesma forma e com a mesma facilidade. Tenho que perceber qual é a melhor estratégia para cada ginasta.

É difícil, para os atletas, conciliar a vida desportiva e a vida académica?

Não. Tenho ginastas de elite que são excelentes alunos. Aliás, o segundo melhor, João Saraiva, com 21 anos, já participou em competições mundiais e está a tirar mestrado em Desporto juntamente com uma licenciatura em Fisioterapia.

Qual é a sua melhor memória enquanto treinadora?

É complicado responder, confesso… Mas acho que o melhor momento foi o primeiro campeonato do mundo em que estive presente. É inesquecível. Foi uma sensação mágica.

Secção de Jornalismo da Associação Académica de Coimbra

Rua Padre António Vieira, Nº1 - 2ºPiso 3000 Coimbra

239 851 062

Seg a Sex: 14h00 - 18h00

© 2018 Jornal Universitário de Coimbra - A Cabra

To Top