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Ensino Superior

Marcela Uchoa: “Defendemos a ideia de uma UC pública, inclusiva e democrática”

Ana Rita Teles

Ex-vice-presidente da APEB/Coimbra e doutoranda em Filosofia Política apresenta a sua candidatura pela lista M – “Mudar a Universidade de Coimbra” – ao cargo de representante dos estudantes de 3º ciclo no Conselho Geral da UC. Por Bárbara Costa e Rita Fernandes

Qual o motivo da tua candidatura?

A primeira posição em relação à candidatura é a questão da mudança. A equipa que nós formamos, que não é representada só por mim, não concorda com a linha de representação que a Universidade de Coimbra (UC) tem seguido. Tanto em relação às propinas, como em relação à participação daquilo que é a UC e à sua pluridiversidade. Consideramos que essa pluridiversidade deve estar presente, não apenas na universidade, mas também na sua representação. Acredito ainda que a atual representação não ajudou muito neste sentido. Dentro do nosso programa, consideramos algumas linhas principais que explicitam dizem o porquê desta candidatura. Defendemos a ideia de uma universidade pública, inclusiva e democrática. Queremos uma participação mais efetiva dos estudantes nas decisões e não só a do representante.

Consideras que há desconhecimento por parte dos estudantes do que é e que funções desempenha o Conselho-Geral (CG)?

Sim. Em primeiro lugar, essa própria desinformação diz respeito à representação que tem vindo a ser feita. Quanto menos se informam as pessoas, menos elas reivindicam os seus direitos e menos exigem. Muitas vezes isto também é utilizado como estratégia, não só em relação à UC, mas a qualquer corpo político. Dizem que a estrutura da UC se encontra na sua página e quem quiser a pode encontrar. Mas a realidade é que a maior parte das pessoas não sabe que existe este tipo de informação. Isto também é o papel de um representante: a publicitação. Ainda que haja grupos que tenham sido formados com a ideia de se democratizarem, como o próprio Núcleo de Estudantes de Doutoramento da Universidade de Coimbra (NEDUC), se não se sabe da sua existência acabamos por ter uma postura algo que sectária. Isto é, eu convido os meus amigos, que convidam os seus amigos e um grupo muito restrito cria-se. Toda a comunidade académica deve ter acesso a estas informações de forma a exigir os seus direitos e não deixar que se restrinja só às pessoas que nós conhecemos.

Achas que esse desconhecimento pode levar menos estudantes a votar?

Existem muitos outros fatores que incluímos na nossa proposta. Temos que perceber que no caso dos estudantes do 3º ciclo todos são investigadores, mas também trabalhadores. Dessa forma, muitos estudantes não estão aqui em Coimbra, uma vez que estão a fazer investigação noutros países e locais. Isto faz parte da própria noção e estrutura de um doutoramento que é, acima de tudo, pesquisa e investigação. Deixar esses estudantes de fora, pelo simples facto de estarem fora a trabalhar e a desempenhar o que é o seu papel, é também um processo muito pouco democrático. O que facilitaria o processo de voto, nesse sentido, é a possibilidade de os estudantes escolherem a sua representação através do Inforestudante. É uma maneira prática, legítima e segura, que já existe noutras universidades europeias. Assim, permite-se que as pessoas sejam incluídas e que escolham a sua representação que vai afetar a sua vida enquanto investigadores e estudantes.

O que é que tens a dizer sobre a afluência nas Assembleias Magnas (AM)?

A afluência é muito importante, apesar de ser pouca. A questão principal não é que as coisas sejam feitas, mas que não sejam divulgadas e suficientemente inclusivas. Os eventos são sempre entre grupos de amigos. Isto leva a que não haja possibilidade de uma democracia e de uma democratização dentro da universidade. Esta deveria ser um espaço amplo de debate, com uma visão construtiva e com base na multiculturalidade. Por isso ela também deve estar expressa nestes debates e não só expressa num grupo pequeno, com tudo o que ela comporta. Dentro desta possibilidade, deve-se ter em conta o que estes investigadores e estudantes têm a dizer sobre a universidade que eles próprios fazem parte.

Quais são os principais problemas dos estudantes de 3º ciclo?

Os problemas são vários. Diria que um dos principais é a percepção de que os estudantes são investigadores e trabalhadores. Nós deveríamos olhar para eles como pessoas que produzem conhecimento, uma vez que o produzem para a universidade. Logo, não deveria haver necessidade de propinas tão elevadas e, em contrapartida, devia ocorrer uma facilitação de algumas questões específicas, como a do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. Muitos estudantes estrangeiros ainda sentem dificuldades na obtenção de um visto. Esta é uma das bandeiras: se a UC se coloca como universidade internacional, ela tem que facilitar esta internacionalização nos vários aspetos. Temos que apelar ao poder público para que haja pressão.

Dentro das propostas defendidas, destaco a centralização e simplificação dos processos de equivalência, que é um grande problema em relação aos doutorandos. Isto, inclusive, interfere com a atribuição de bolsas. Aqui em Coimbra, por exemplo, neste momento está a demorar cerca de seis meses todo este processo de equivalência, o que atrapalha muito a tentativa de ter uma bolsa de investigação. Outro ponto importante é a redução de taxas e emolumentos. Além disso, reivindicamos a extinção das taxas para as provas de defesa de tese. Estamos num processo natural dentro da universidade, e toda a gente vai ter de o fazer.

O que achas da proporção existente entre os representantes dos alunos e os outros membros do CG?

A representação é muito pequena, o que é um problema com a própria estrutura dentro do CG e da própria UC. É importante pensar na representação que tem de movimentar os alunos. Se pensarmos que somos só 3% dos que votam dentro do CG, vamos pensar que fazemos muito pouco. Contudo, se pensarmos que esse representante deve ter a possibilidade de se mobilizar politicamente dentro da universidade e de agregar pessoas, acredito que é possível mudar através da acção política. Não há nada a perder com a mobilização estudantil e isso foi conseguido em várias frentes. Estive à frente de todas as lutas aqui na UC desde que cheguei. Todas as reivindicações contra o regime nacional, relacionadas com o sexismo dentro da UC, entre outras. Por isso, apesar dessa pouca representação, essa mudança é possível a partir de uma representação que esteja dentro das lutas estudantis. Não podemos pensar só nos problemas, mas também nas soluções possíveis.

O CG também participa na decisão de escolher o reitor da UC. Agora que vão haver as eleições, gostávamos de saber se apoia algum candidato em particular? Qual a sua opinião em relação às candidaturas até agora?

Este ano, além das eleições dos representantes, acresce a eleição do reitor. É algo que é muito importante para nós enquanto estudantes. Sabemos que o reitor é quem pode facilitar todas as reivindicações que nós colocamos. Estou aberta a ouvir todos os candidatos a reitor e a escolha vai ser sempre com base naquele que colocar propostas que sigam os nossos princípios.

Qual foi o balanço do mandato do atual reitor? Quais os pontos mais fortes e quais aqueles que acha que deveriam ter sido corrigidos?

O nosso debate foi sempre contra a mercantilização do ensino. Sempre tivemos muitas restrições face à atual política da UC. As críticas vão totalmente de encontro a tudo o que representa a mercantilização do ensino, de ver os estudantes como mercadoria, e não como atores e protagonistas do Ensino Superior. Acredito que a UC tem um grande potencial dentro da sua história, mas, infelizmente, tem-se colocado como mercado.

Vê que a UC se posiciona como uma universidade internacional por questões financeiras?  

Exatamente. Tenho de salientar que é apenas a postura de algumas pessoas em específico, dentro da própria administração da UC e do atual reitor. A UC constitui-se por várias pessoas e várias outras que tiveram uma luta contrária a essa mercantilização do ensino. Isso é visível e notável em todos os jornais e todos os processos de movimentação e mobilização estudantil que foram feitos na UC e que, inclusive, fez com que a vitória fosse conseguida e a UC não se assumisse como fundação.

Qual é o balanço que faz do atual mandato de representantes do 3º ciclo? 

A questão principal é que há necessidade de mudança. Em primeiro lugar, acreditamos na democracia e falar de democracia é falar da necessidade de rotatividade do poder. O atual representante já faz parte do CG há muito tempo. Foi eleito na licenciatura, no mestrado e agora no doutoramento, e já está a caminho do segundo mandato. Não achamos que isso seja saudável dentro de um sistema democrático. Acreditamos que a UC representa demasiados estudantes para que estejamos há tanto tempo com o mesmo representante. Além disso, acaba por gerar uma postura que não consegue agregar toda a diversidade que se verifica. O atual representante pauta-se muito por questões que foram pouco publicitadas, como o caso do NEDUC. É uma ideia que a princípio parece muito boa: ter estudantes de doutoramento que participam nas reuniões e discussões. Mas a grande realidade é que a maioria dos estudantes da UC nem sequer sabe que esse núcleo existe. Ele não agrega dentro das plataformas virtuais e não é publicitado pelos média dentro da UC. A grande realidade é que, quando há interesse, é publicitado. Quando não há interesse, não é publicitado. Eu acredito que, em qualquer processo democrático, qualquer representação deve ter transparência e isso implica ter o maior número de pessoas conscientes dos problemas. O atual representante afirma que decide aquilo que os doutorandos desejam. Mas como saber o que os doutorandos querem, se o próprio não participa nas lutas da UC?

Com Ana Rita Teles

[Artigo atualizado às 00h48 de 7 de dezembro]

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