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Ensino Superior

Luís Bento Rodrigues: “O 3º ciclo não tem uma propina, tem um preço”

Ana Rita Teles

Luís Bento Rodrigues, representante da lista D – “Doutorandos pela UC” – recandidata-se, pelo último ano, ao Conselho Geral. Representou os de 3º ciclo durante dois anos e os de 1º e 2º ciclo durante cinco. Por Mariana Nogueira e Diana Ramos

Qual o motivo da tua recandidatura?

É sobretudo um motivo político de dignificar o corpo do 3º ciclo na Universidade de Coimbra (UC). Isto é, colocar o 3º ciclo na agenda política da UC. Consolidarmos essa representação junto dos órgãos de governo, feito de uma forma democrática e portanto envolver o maior número de estudantes de doutoramento possíveis nesse processo. É necessário que os estudantes de doutoramento tenham uma elevada confiança na lista que elegem.

Quais são as bandeiras da lista?

O foco na promoção da investigação de qualidade na UC é o nosso principal objeto de atividade. A frase da segunda bandeira é: pela inclusão e internacionalização da UC. E, por fim, a terceira grande bandeira é o futuro e o emprego qualificado. Há um fenómeno da massificação dos doutoramentos em Portugal e a sociedade civil não está de todo preparada para acolher estes milhares de novos doutores. Defendemos uma redução na propina do 3º ciclo. Estes estão mais próximos da figura do investigador do que de estudante e, de facto, é alguém que alarga as barreiras do conhecimento. Numa sociedade que queira ter soberania assente no conhecimento é uma sociedade que tem de promover quem produz esse conhecimento. Em bom rigor, neste momento, o 3º ciclo não tem uma propina, tem um preço. Queremos ter uma discussão ativa na revisão do estatuto do Conselho-Geral (CG) de investigação científica. Este órgão, no caso do 3º ciclo, é unipessoal. Muitas páginas e regulamentos do Inforestudante ainda não estão traduzidos em inglês e é, por isso, um motivo de exclusão social na UC. Não acreditamos numa universidade fechada sobre si mesma, acreditamos que esta universidade está aqui ao serviço da sociedade. Sociedade essa que a financia e que espera resultados do seu investimento.

Consideras que há desconhecimento por parte dos estudantes do que é e quais as funções do CG?

Todos os estudantes sabem que há um reitor, mas nem todos sabem que há um CG. Esta rotatividade impõe uma comunicação permanente entre os órgãos da universidade e os seus estudantes. Fui vetado de comunicar com os colegas que represento e isso tem de acabar. É uma causa que leva a um desconhecimento generalizado. Neste momento há muitos mais estudantes de doutoramento a saberem o que é o CG do que há dois ou quatro anos atrás. Aliás, as eleições já tiveram mais votantes e julgo que estas vão ter ainda mais. Eu defendo que a universidade enquanto instituição deve facultar aos seus representantes os instrumentos necessários.

Achas que esse desconhecimento leva menos estudantes a votar?

Existem mais de 2500 estudantes de doutoramento na UC e a maioria deles não está em Coimbra. Por isso, o voto presencial é o primeiro fator que leva aos níveis de abstenção que se observam nas eleições de 3º ciclo.

Não há outras formas de votar para quem está fora de Coimbra? A votação tem de ser presencial?

A UC é muito conservadora quanto aos mecanismos eleitorais de voto. Na minha opinião, desde que esteja salvaguardada a fiabilidade dos resultados, qualquer método que facilite o exercício desse direito e dever democrático, eu vejo-o com bons olhos. Neste momento o voto vai ser presencial e vai ser um fator de grande exclusão para muitos exercerem o seu voto porque não estão cá.

Como é possível aproximar esses estudantes do CG?

As campanhas são ótimos momentos para difundir o que é o CG. Existem plataformas que ajudam a esse propósito, tal como a organização de mais plenários de 3º ciclo. Estes são mecanismos muito concretos de aproximar, mas é uma relação com dois lados, é preciso querer. E eu acredito que esse querer aumenta quando o prometido é devido.

Para além dos problemas que já referiu, da inserção dos estudantes de doutoramento no mercado de trabalho, há mais algum problema dos estudantes de 3º ciclo? De que é que eles mais se queixam?

Uma característica no 3º ciclo é a heterogeneidade de problemas. É preciso monitorizar. Há áreas deficitárias em termos de financiamento. Algumas de ciências sociais, por exemplo, em que essa ausência de financiamento, em 1º lugar público, em 2ºlugar concorrencial da União Europeia, gera uma cadeia de problemas. A somar a isto há uma burocracia excessiva nos procedimentos de compras públicas. Se o dinheiro é público, as compras têm de ser públicas. Muitos dos problemas que surgem estão associados ao subfinanciamento e outros à exclusão social por insuficiência económica.

Já que os problemas são muito específicos, as resoluções vão também ter de o ser?

Sim, no caso do financiamento, há duas formas de olhar para o problema: ficar à espera do financiamento do Orçamento do Estado (OE) ou com o financiamento do OE disponível, trabalharmos para o melhorar. Olhando para o orçamento e para os poucos professores que submetem com sucesso candidaturas aos fundos europeus, é fundamental que os estudantes de doutoramento possam ajudar no processo das candidaturas. Muitos mais professores têm de submeter candidaturas, podem contar com o apoio de estudantes de doutoramento, que é do interesse deles também captar mais financiamento para as suas investigações. E isso de forma geral, porque o problema não é só o orçamento, depois também tem toda a questão de gestão desse orçamento. Mas já é um princípio, para um meio e fim diferentes.

E o que é que achas da proporção existente entre os representantes dos alunos no CG e os restantes membros?

Sou totalmente contra a proporção que os professores têm no CG. Eles têm maioria absoluta do número total de membros. Estávamos paritários com os professores e, de um momento para o outro, os professores aumentaram muito a sua proporção no órgão de decisão principal da UC. Os professores aumentaram o seu poder efetivo nas decisões da universidade. E, portanto, cinco estudantes em 35, no caso da UC, é algo extraordinariamente ridículo, porque os estudantes são relevantes em termos de funcionamento e de governo na UC. Eu defendo que os estudantes fossem tantos no CG quantos são os professores.

Qual é o balanço que fazes da tua candidatura anterior?

Francamente positivo. Os estudantes de doutoramento neste momento, têm acesso a mais meios de apoio social, através do alargamento do fundo de apoio social estudante, nomeadamente a sua componente fundo de emergência. A nossa preocupação foi de que fosse uma estrutura completamente autónoma, máximo democrática possível, funcionar à base de comités sob comités, que agregasse toda essa questão de ‘networking’ dos doutorandos e teve uma adesão espetacular. Hoje os estudantes de doutoramento já são vistos de outra forma pelos órgãos de governo da universidade. Conquistamos um maior respeito e um melhor lugar. E temos de continuar a trabalhar nesse sentido.

Como recandidato ao CG, consideras que isto te traz alguma vantagem?

Fui reeleito em 2010 e 2012 com votações sucessivas, e maiores, e abdiquei a meio do terceiro mandato. Esse tempo permitiu-me conhecer muito bem o funcionamento do órgão. Este tipo de experiência é uma mais-valia porque a fronteira entre o querer e o fazer atenua. Não pretendo fazer este mandato até ao fim, confio na minha equipa e na sua sucessão. Sinto que estou a chegar ao fim dessa reta, esta é a última eleição a que vou. É uma lista no seu real sentido, de participação democrática interna e de representação de grupos. É uma mais-valia para os estudantes de doutoramento saberem que, votar em mim e na minha lista, significa votar também em quem concretizou nesses dois anos e em quem tem essa experiência.

Para terminar, qual o balanço que fazes do último mandato do reitor?

Não foi um reitor votado pela maioria dos estudantes na altura, mas foi um reitor que se esforçou muito desde o início em ter uma plataforma de diálogo recíproca com os estudantes, em particular com os vários presidentes da Associação Académica de Coimbra e com os representantes dos órgãos a que nos recebeu e nomeadamente a questão do fundo social. Pessoalmente apreciei mais o primeiro mandato do João Gabriel Silva do que o segundo. Julgo que no segundo mandato ele esteve um pouco fechado no gabinete dele. Eu acho que a figura do reitor, enquanto figura da UC que nos representa a todos, deve ser usada para estar à frente dos desafios mais estratégicos da universidade. Ele tem uma qualidade que é a capacidade de trabalho desumano, ele viveu e respirou UC durante os dois mandatos. Foi uma pessoa que se entregou de alma e coração a esta missão, que para ele foi uma missão pública.

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