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Cultura

Ricardo Correia: “O Clube de Leitura Teatral tem pessoas que exigem que ele aconteça”

Fotografia gentilmente cedida por TAGV / Cláudia Morais

O Teatro Académico Gil Vicente (TAGV) e A Escola da Noite são os pais do Clube de Leitura Teatral. Não só lhe dão casa, como o alimentam há três anos para que ele cresça saudável. Apesar da tenra idade, o Clube “já sabe andar sozinho”. As pessoas que estão envolvidas no projeto fazem questão que ele exista. Na primeira terça-feira de cada mês, entusiastas da dramaturgia reúnem-se para pensar os textos e a forma como podem passar do papel ao palco. No fim de cada sessão, há copos de vinho para todos. Duas horas antes da sessão deste mês, o responsável pela organização por parte do TAGV, Ricardo Correia, falou sobre o nascimento do Clube e a sua evolução. O Diretor Artístico da Casa da Esquina vê-se como um “chato otimista” e considera que “a divulgação chega mas também é preciso procurá-la”. Por Clara Miranda e Inês Casal Ribeiro

 

Como surgiu o Clube de Leitura Teatral?

Em 2015, eu tinha feito aqui uma leitura encenada de textos de um festival inglês de nova escrita contemporânea. Nesse ano, era eu que fazia “as despesas da casa”. Fazia tudo. Ia buscar os textos, traduzia com uns amigos, vínhamos para cá. Depois, em conversa com o diretor do TAGV, Fernando Matos de Oliveira, decidimos fazer um ciclo de leituras encenadas de dois em dois meses. Escolhemos alguns textos de autores contemporâneos, juntámos uma série de pessoas, algumas ainda continuam a vir ao Clube de Leitura, e elas ajudavam-nos a traduzir os textos. Reuníamos na primeira terça de cada mês, líamos e partilhávamos. Quem estivesse aqui podia ler também sem nenhum tipo de ensaio. Passou de “Leitura Encenada” para “Comunidade de Leitores”.

A Escola da Noite juntou-se a nós no ano seguinte. Começámos a fazer leituras mensais em que convidávamos um encenador que escolhia o texto e propunha um novo formato. Dois dias antes, os leitores que se inscreviam tinham formação com o encenador, comigo, com o António Augusto Barros e com a Sofia Lobo. Ou seja, primeiro era só malta da casa e depois fomos chamando outros nomes – o Nuno M. Cardoso do Teatro Nacional São João, a Sara Carinhas, o António Mortágua, entre outros. Como a entrada é gratuita temos tido várias pessoas que se juntam a nós para ver e ouvir novos textos.

Também temos mudado a programação. Começou por ser um registo mais livre em que era o encenador que escolhia o texto e depois começámos a apostar em dramaturgos portugueses. O António Augusto Barros chama-lhe “dramaturgos ao poder”. Eu subscrevo. Chamámos uma série de malta já com muita obra publicada como o José Vieira Mendes, o Abel Neves, o Carlos Pessoa. Neste novo ciclo, temos até março autores que mostram o seu texto, partilham-no com os leitores e depois com o seu público. Estamos aqui a trabalhar com eles os meandros do texto, como é que ele nasceu, o que é que os autores pensam, a relação entre a página e a cena. Penso que para quem vem às leituras tem um sabor especial por estarem em contacto com a pessoa que criou aquela obra.

Já imaginava que o Clube ia evoluir desta forma?

Isto de fazer leituras não é novo. O Teatro Nacional São João já o faz há muitos anos. A Escola da Noite, onde trabalhei como ator, também já o tinha feito. Eu também já o tinha feito na Casa da Esquina. Nós arriscámos, fizemos e ficámos a ver se isto sobrevivia. Sobreviveu e cresceu. Houve quase a criação de uma família de pessoas que estão cá há três anos e que participam todos os meses na leitura. Portanto, já sabe andar sozinho. Não me sinto obrigado a estar cá, pelo contrário. A malta do TAGV e d’A Escola da Noite amparam o projeto mesmo eu não estando – o António Augusto Barros, o Fernando Matos de Oliveira. O Clube tem pessoas que exigem que ele aconteça.

Qual é o balanço que faz das sessões que decorreram até agora?

É positivo porque temos trazido a Coimbra dramaturgos contemporâneos portugueses e tem havido público interessado em conhecer a obra e o trabalho deles. Há muita gente que não é do teatro que faz parte desta comunidade. Não somos nós que queremos fazer, agora são eles que pedem para que isto exista. Portanto, existe a criação de uma comunidade que quer fazer parte deste pequeno espaço de partilha e de comunhão de ideias. Estamos a incentivar a dramaturgia contemporânea e isso também faz parte da missão do teatro.

Para quem não sabe nada sobre o Clube, como é que podia explicar o que acontece nas sessões mensais?

Normalmente fazemos uma programação anual que começa em outubro e termina em julho. Todos os meses há uma sessão no TAGV ou n’A Escola da Noite. Convidamos um autor/dramaturgo, ele escolhe um texto seu que quer ver trabalhado e os leitores inscrevem-se para a formação. Na primeira terça-feira de cada mês, às 18h30, apresentamos a leitura. Tudo isto é de entrada livre, portanto as pessoas que queiram assistir à leitura ou conversar com o leitor estão à vontade. No final, podem beber um copo de vinho que é o mais porreiro disto tudo.

Fotografia gentilmente cedida por TAGV / Cláudia Morais

Como está a ser a parceria com A Escola da Noite?

Acho que está a funcionar muito bem. Permite-nos ter dois sítios centrais na cidade a acolher esta atividade e, assim, fazer uma permuta de públicos. Ou seja, parte dos públicos que vêm ao TAGV deslocam-se à Escola e vice-versa. Este intercâmbio também nos permite trabalhar com estruturas diferentes. Isto faz com que seja possível reinventar as leituras.

Quais são os tipos de público que costumam vir às sessões?

Pessoas interessadas em práticas artísticas contemporâneas. Alunos de Estudos Artísticos, Teatro, Artes Visuais, etc. Há muitos apreciadores de leitura e muita gente de outras áreas. Temos um público mais ou menos fiel. São sempre entre trinta a quarenta pessoas que costumam aparecer. Hoje vamos ter alguns leitores experientes, um ou outro ator profissional, mas também outros que se estão a estrear.

Hoje vai decorrer uma sessão. Quais são as expectativas?

Está a ser engraçado porque é um texto que nós fizemos no ano passado chamado “Exílio(s) 61-74”. Foi construído a partir de testemunhos de desertores e refratários do período da Guerra Colonial Portuguesa. Utilizámos um gravador para entrevistar as pessoas e depois construímos uma dramaturgia à volta disso. Estivemos a desvendar uma série de coisas sobre este ciclo migratório que depois voltámos a ter na minha geração com o ex-primeiro-ministro Pedro Passos Coelho. É um ciclo que se repete e este texto fala disso. Decidimos fazer esta disposição de pessoas que olham umas para as outras e que se veem partir e, portanto, brincámos com esta lógica. Uns vão para um sítio, outros ficam. É preciso deslocarmo-nos.

Como é que caracteriza a relação de Coimbra com a dramaturgia?

Eu acho que se foram escavando espaços. Procurámos criadores que residem em Coimbra que, por sua vez, procuraram uma dramaturgia original, muitas vezes colaborativa com outras pessoas. Essa relação é difícil porque não fazemos parte do centro. Nós estamos no centro do país mas o centro da criação é Lisboa e, portanto, a dificuldade é a de sermos menos. É preciso discutir para as coisas surgirem, é preciso haver atrito, é preciso sermos mais. O grande problema de Coimbra é conseguir fixar criadores bons que eu já vi partir tantas vezes.

Eu sou um chato otimista, acredito que é possível fazer as coisas acontecer. Estão a surgir outros núcleos de pequenos grupos, de pequenos criadores, que estão a fazer esse trabalho. O TAGV e A Escola da Noite fazem isso bem porque estão a acolher novas pessoas que trazem outro ‘input’ à discussão e à criação de uma dramaturgia nacional própria. Não sei se existe uma dramaturgia de Coimbra mas estão a surgir linhas de investigação contemporâneas sobretudo ligadas à pós-memória e ao documental.

Considera que há alguma falha na divulgação deste evento ou algo que possa ser feito para atrair mais público?

Acho que não, de todo. Aparece em tudo: cartazes, agendas, redes virtuais, passa palavra. Também acontece criar-se um hábito. Na primeira terça de cada mês, o pessoal sabe que há Clube de Leitura e vem. A divulgação chega, mas também é preciso procurá-la.

surgiu algum projeto a partir dos encontros do Clube?

Eu acho que não, mas é uma ótima questão. Acontece muitas vezes haver uma primeira leitura, ou seja, um texto ainda não estreou e é lido aqui pela primeira vez. Muitas vezes é o próprio dramaturgo que o traz para testar e fazer alterações. É difícil quando se expõe o próprio texto. Eu construo-o a pensar no espetáculo: na luz, no som, na bancada, no espaço. Para quem faz e não tem ligação com a criação, acho que é mais difícil vê-lo a testar e é preciso ter jogo de cintura para ouvi-lo. Será que algum dia vamos fazer um espetáculo de uma das leituras? Acho que é uma boa provocação.

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