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Ciência & Tecnologia

Academia de Marinha premeia “As Pescas em Portugal” de Álvaro Garrido

Fotografia gentilmente cedida por Álvaro Garrido

Por unanimidade do júri, o docente da FEUC conquista o Prémio Almirante Teixeira da Mota/2018. A Academia de Marinha distingue, a cada dois anos, o melhor trabalho de investigação científica a nível internacional, centrado no mar e nas marinhas. Parte da coleção “Ensaios da Fundação”, a obra foi escrita a convite da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Álvaro Garrido recebe o prémio em Lisboa a março de 2019. Por Rafaela Chambel e Gabriel Rezende

O que o Prémio Almirante Teixeira da Mota significa para si?

Significa muito, porque é um prémio prestigiado e instituído pela Academia Marinha, ou seja, pela Marinha Portuguesa. É uma condecoração com um patrono importante, o Almirante Teixeira da Mota, que foi alguém que marcou os estudos de história marítima em Portugal. Trata-se de um prémio que distingue trabalhos de temas relacionados com o mar, mas numa perspetiva muito transversal. Isto é, das ciências sociais e humanas às ciências naturais. Portanto, é uma distinção concorrida. Foi um incentivo importante para o meu trabalho de longos anos, que aborda os temas marítimos, as pescas e a economia do mar, em perspetiva histórica.

Qual é a importância do prémio para a academia de Coimbra?

Qualquer distinção de âmbito nacional ou internacional atribuída a um docente da Universidade de Coimbra prestigia também a própria instituição, porque o ambiente académico é muito competitivo. Estas condecorações, para além de um incentivo, significam um posicionamento da universidade, dos professores e dos investigadores no contexto nacional. Falamos de uma panorama no qual os temas do mar e do oceano são mais relevantes do que nunca.

O que o levou a escrever o livro “As Pescas em Portugal”?

Foi um convite da Fundação Francisco Manuel dos Santos, para a coleção “Ensaios da Fundação”, que é uma coleção conceituada, de temas especializados, mas dirigidos a um grande público. Lançaram-me o desafio de escrever um ensaio sobre um tema muito controverso em Portugal. Procurei interpretar o declínio das pescas no país a partir da década de 1980 e a sua relação com a política de pescas da União Europeia (UE), dentro de uma crise histórica e político-económica. É um tema muito interessante, que cruza diversas áreas pluridisciplinares, ao qual tenho dedicado uma grande parte do meu trabalho.

Referiu que era um tema controverso. Porquê?

É um tema controverso por marcar a opinião pública portuguesa, em relação aos diagnósticos de declínio. Ou seja, sabemos que a pesca é uma atividade lendária na economia da sociedade portuguesa, mas também temos consciência de que se tem vindo a reduzir desde o século XX. Este fenómeno tende a ser explicado de uma maneira bastante redutora. Como procuro demonstrar no livro, o declínio da pesca deve ser associado à Política Comum de Pescas da Comunidade Económica Europeia, atual UE. Assim, temos por um lado um debate público, com alguns estereótipos, e, por outro, a ciência que tenta desconstruir ideias preconceituosas.

O seu objeto de estudo acaba por abranger uma grande variedade de áreas, a nível de economia e de história. Como é que as concilia?

É um perfil que eu procuro cultivar. Fui licenciado e mestre pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, em História. Depois, doutorado em Economia, na especialidade de História Económica, pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC). Sempre cultivei um perfil, métodos e um discurso pluridisciplinar. Penso que esta é uma vantagem para o tratamento de determinadas questões, seja a das pescas, da economia do mar ou da economia social. Nesse sentido, é um esforço que procuro fazer.

Como é que surgiu o contacto com a economia marinha?

Surgiu de um percurso longo que foi iniciado na minha tese de doutoramento na FEUC, sobre as pescas e o setor do bacalhau no contexto do corporativismo do Estado Novo. Foi produto de muita investigação, que conduziu à publicação de vários livros e deste ensaio específico que foi agora distinguido.

Qual é, na sua perspetiva, o papel da pesca na economia do país?

A pesca é uma atividade essencial. Mas tem hoje, do ponto de vista macroeconómico, um peso relativamente residual na economia portuguesa. Esse peso reduzido contrasta com a expressão social que a pesca tem a nível local e regional nas comunidades portuguesas, bem como a importância que tem para a sedimentação da nova economia do mar. Fala-se muito de uma nova economia do mar, mas dificilmente a conseguimos consolidar sem reconhecer o valor económico e social da pesca. Por conseguinte, é uma atividade económica que se presta muito a evocações lendárias, mas cuja expressão atual é muito menor. Ainda assim, a fileira do pescado e a cadeia de valor da pesca são muito mais importantes do que o peso relativo deste setor em indicadores económicos como o Produto Interno Bruto (PIB) ou o Valor Acrescentado Bruto (VAB).

Tem vários livros publicados sobre a campanha do bacalhau. Porquê este tema em específico e qual é o impacto que teve no país?

O tema da pesca do bacalhau, ou da “campanha do bacalhau”, é muito sedutor, porque quase se confunde com a identidade portuguesa. É um tema lendário, extraordinariamente importante do ponto de vista narrativo. Estava esquecido num discurso histórico e foi desenterrado pelo meu trabalho de investigação. Nele procurei estudar, sobretudo, as relações em torno da pesca do bacalhau. Relações que passavam por construções ideológicas, ritualizadas na propaganda nacionalista do Estado Novo, no sistema corporativo e nas instituições políticas e económicas da ditadura de Salazar. Trata-se da desconstrução de um mito que reside na memória coletiva lusitana e, em especial, na das comunidades marítimas. Foi um trabalho muito gratificante e que ainda não está completo, mas que abriu o caminho a um estudo mais vasto e mais técnico das pescas em Portugal, da economia do mar e da perspetiva histórica de todos estes processos.

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