Cultura

20 anos de fado na voz de João Farinha

Os sons da guitarra foram a música ambiente na caminhada de João Farinha. Relembra a sua infância, conta os dez anos da sua vida académica e avalia os vinte anos da sua carreira. Num “fado de Coimbra mais aberto”, o seu mais recente projeto “Sim” resume todos estes anos. Por Ana Sofia Neto e Pedro Emauz Silva

O que é que o incentivou neste seu percurso de fadista, o que o incentivou a cantar fado?

O meu percurso começou desde pequenino, porque o meu pai cantava e eu desde cedo convivia com os sons do fado de Coimbra. Estava habituado inclusive a ir a concertos com ele e conheci o pessoal do Fado de Coimbra: o doutor Jorge Gomes, António Bernardino, entre tantos outros. Durante a infância, gostava de cantar, mas não era algo a que eu ligasse muito, vou ser franco. Mesmo quando entrei na universidade tentei, de facto, ir cantar fado. No entanto, era preciso estar dentro do meio. Tal só aconteceu quando entrei na Secção de Fado da Associação Académica de Coimbra (SF/AAC) através do coro Schola Cantorum, um coro masculino, formado em 1997. No ano seguinte, formei o meu primeiro grupo de fado, precisamente com gente que já estava no coro e que pertencia de alguma forma a outros grupos da SF/AAC. Portanto, esse foi um primeiro embrião. Um ano mais tarde, criei a Aeminium, que entrou na SF/AAC. A partir daqui, comecei a cantar com mais regularidade e percebi que gostava muito de o fazer. Ganhei o gosto pela composição e compus os meus primeiros temas nessa altura. Aliás, o meu primeiro espetáculo académico foi numa récita de quintanistas, por volta do final da década de 90, onde apresentei o meu primeiro tema original e depois, no ano seguinte, participei na serenata. Portanto, fiz o percurso académico normal, até 2003/2004, e depois formei-me. Entretanto, comecei a trabalhar e tive outro projeto, o Grupo Coimbra, cujo propósito também seria a criação de novos temas e dar uma nova vida ao fado Coimbra, através da introdução de novos instrumentos. Foi uma iniciativa que me deu muito gozo e, durante alguns anos, fizemos vários concertos quer pelo país, quer pelo estrangeiro. Acontece que, em 2010, o Luís Carlos e o Luís Barroso, que já eram amigos de longa data, lançaram-me o desafio de os acompanhar no projeto “Fado ao Centro”, que permitiu que a minha vida se dedicasse só ao fado de Coimbra.

 Referiu há pouco que teve espetáculos internacionais. Como foi a experiência no estrangeiro?

Eu tive uma série de concertos, aliás, comecei a cantar fado de Coimbra para ir a Marrocos, em 1997. Foi sugerido pelo pai de um amigo meu, que estava no Schola Cantorum. Aliás, um dos meus primeiros concertos foi no estrangeiro. Através desse meu amigo, já com o grupo desfeito, acabei por ir ao Vietname e à Tailândia cantar. Porém, era muito aquela parte da viagem e do turismo. Não tinha a preocupação artística que tenho hoje. Como na altura sair do país não era tão acessível como agora, muitos estudantes iam para as secções culturais de forma a conseguir viagens, para além de estudar aquilo que gostavam. Mais tarde, com o grupo Coimbra, a parte artística começa de facto a ser importante: tivemos um concerto memorável em Bruxelas, no Bozar, que é a sala de espetáculos de excelência da cidade. No “Fado ao Centro” temos feito um esforço para criar uma base que permita as idas ao estrangeiro, isto porque julgamos que o fado de Coimbra pertence ao espetro das músicas do mundo e, portanto, deve ser divulgado, de forma a despertar nas pessoas a curiosidade pelo nosso género musical.

 Como foi recebido o fado pelo público estrangeiro?

Na Tailândia e no Vietname, há muitos anos, foi evidente o distanciamento entre a nossa música popular e a deles. Acredito que para eles era algo mais exótico. Na Europa é diferente. Por exemplo, na Alemanha, temos digressões marcadas de há quatro anos para cá. Temos cerca de quinhentas, seiscentas pessoas por concerto e os preços dos bilhetes seriam impensáveis em Portugal. No final, as pessoas abordam-nos, compram os nossos discos e acabam por repetir e ir aos concertos nos anos seguintes, o que significa que satisfizemos o espectador.

De que forma é que o fado de Coimbra se destaca?

Isso é uma controvérsia: há quem diga que isto não é fado, há quem chame canção… Eu chamo acima de tudo música de Coimbra. Gosto do termo fado, porque acho que resume bem aquilo que é a nossa música tradicional, a alma portuguesa, neste caso a alma de Coimbra inserida na música. É um fado, um destino. Se ouvirmos fado de Lisboa e de Coimbra, do final do século XIX, início do século XX, não vemos grandes diferenças: uns têm vozes femininas e o fado de Coimbra tem vozes masculinas, pela questão romântica do género. Porém, fado acaba por ser um nome fácil de comunicar e as pessoas percebem quando estamos a dizer fado de Coimbra.

Como é que se vivia o fado na altura em que era estudante?

Nos quatro primeiros anos de faculdade, onde estudei Gestão de Empresas, na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, andei deslumbrado com a vida académica. Tanto é que o meu pai dizia haviam imensas secções desportivas e culturais e reclamava por me meter numa claque de futebol. A questão é que quando comecei a cantar, tudo isto encarrilou e acabei o meu curso rapidamente, ou seja, deu-me algum propósito. Se não fosse o fado era capaz de me ter perdido. Ao fim ao cabo, demorei dez anos a completar o curso. Nos últimos dois já estava a trabalhar, porém eram outros tempos. É algo que não me arrependo. Vivia esta cidade de uma forma muito intensa, apesar de ser cá de Coimbra, pois é diferente pertencer à academia. Decidi que tinha de me ir embora quando percebi que fazia parte da mobília.

Enquanto compositor, onde vai buscar as suas referências e influências?

Para as minhas canções, como para toda a minha geração, Luís Góis é uma grande referência. No entanto, Carlos Paredes também é daqueles que produz sons que me fazem viver Coimbra e experienciar a cidade de outra forma. Apesar de ele ter estado muitos anos ligado a Lisboa, a técnica dele é de Coimbra e os sons fazem-me lembrar Coimbra todos os dias, sempre que oiço. Mas eu só descobri o fado, e todos estes guitarristas, mais ou menos com vinte anos. Antes, sempre fui um grande fã do rock, do pop. Continuo a ouvir com muita regularidade. Não sei, às vezes há quem diga “ah, isto parece um bocado meio pop”, e é natural que seja, é o que eu oiço. Há aqui uma série de influências que não consigo identificar precisamente quais são, porque tenho um gosto musical muito eclético. Todavia, Carlos Paredes e Luís Góis são as minhas grandes referências no Fado de Coimbra.

São 20 anos de carreira…

Sim diria que sim, posso-lhe chamar uma carreira. É algo um pouco controverso, especialmente na minha altura e mesmo para o meu pai, que era cantor, dizia: “não há fadistas de Coimbra profissionais”. Era algo que eu sempre pensei que podia ser mais que um hobby, mesmo no início. Pensei: “eu gosto tanto disto”; e quiçá um dia pudesse vir a viver disto. Obviamente que não vivo só a cantar, porque eu coordeno este projeto que tem várias valências. Felizmente com ajuda dos meus colegas, sócios e amigos foi possível tê-lo.

 Consegue fazer um balanço da sua carreira?

Foram anos fabulosos e se o fado não fosse importante para mim, hoje não estaria a fazer isto. Faço um balanço muito positivo, com muitas alegrias, muitos desafios, várias experiências, muitas viagens… Tenho muitas milhas acumuladas no cartão, de facto fui privilegiado nesse aspeto, e conheci muita gente. Hoje em dia faço aquilo que gosto, tenho a possibilidade de ter contacto com muitas culturas, e espero que seja também um exemplo para os mais jovens que queiram começar. Sinto-me realizado.

 Sente que há uma diferença entre o fado da sua altura e o fado atual?

Sim, há algumas diferenças. Na altura lembro-me que, por exemplo, para ir à serenata monumental, estavam sete ou oito grupos e eram grandes discussões a ver quem ia, porque de facto havia muita gente. Foi um período que floresceu em larga medida o fado. Há pouco tempo não tínhamos quase ninguém para fazer as serenatas monumentais. Estou de acordo com alguns estudantes que tenho visto escrever que há uma certa crise de valores em termos académicos, na vivência académica, porém estou convencido que isto há de passar. É algo que é cíclico ao longo dos tempos. As pessoas hoje em dia têm outras preocupações. Hoje em dia, demorar dez anos a fazer um curso é impensável. Não quero transmitir esse exemplo aos meus filhos.

O seu pai dizia que uma carreira como fadista era impossível. Acha que isso mudou com o tempo?

Tenho alguns colegas fadistas que já se tinham profissionalizado. Principalmente na guitarra, havia alguns profissionais, porque conciliavam a arte de tocar com o ensino e isso permitia-lhes dedicar-se exclusivamente ao instrumento. Como cantores não descobri assim tantos, sei que houve alguns que foram para Lisboa. Mas pronto, era um exemplo aqui, outro exemplo ali, era muito particular. Penso que o “Fado ao Centro” trouxe outra seriedade na ascensão de uma carreira nesta área. Estamos a dar os primeiros passos e o só o futuro dirá.

Qual o seu sentimento pessoal em relação ao projeto “Sim”?

Eu identifico-me muito com ele. Era o disco que eu queria fazer, portanto estou muito satisfeito com o resultado final. Temos muitos fãs agora de facto alargar este espectro. Acho que vamos ter alguma divulgação, um bocadinho da grande maioria dos discos de Fado de Coimbra. O caminho faz-se caminhando. É o primeiro e acho que daqui para o futuro temos que acrescentar passo após passo, porque se o caminho é difícil para muitos músicos, para um género musical tão tradicional como o nosso ainda é mais. Gostava que fosse de outra forma mas sou realista, tenho os pés no chão. Não posso dizer que no dia 11 volto com a taça.

 Quer acrescentar alguma coisa em relação ao projeto?

O “Sim” é fazer esse tal balanço, dos 20 anos, mas tem um aspecto importante que foi ser pedido ao Luís Pedro Madeira, que é um músico consagrado na cidade. Ele percebia a linguagem, percebeu aquilo que era pedido. Temos arranjos ligeiramente diferentes, a participação de um quarteto de cordas e de piano. Tudo isto torna os temas um pouco mais abrangentes. Não é só aquele Fado de Coimbra mais puro, mas abri-lo um bocadinho. Este disco acaba por ser um resumo de todos estes anos.

Fotografia: Pedro Emauz Silva

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