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Precarização no jornalismo: uma realidade retratada

Profissionais com baixos vencimentos e fracas condições de trabalho são algumas das conclusões da investigação. Por Carolina Cardoso

“O jornalismo é, neste momento, uma profissão mal remunerada, sujeita a lógicas precárias, e que, ainda assim, procura conquistar espaços de regulação interna”. A afirmação é de João Miranda, autor do estudo “Retratos de uma profissão indefinida: Resultados de um inquérito aos jornalistas”, que permite espelhar a realidade que a profissão enfrenta nos dias de hoje. A investigação, apresentada hoje na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC), baseia-se num inquérito desenvolvido em 2015, com uma amostra de 806 jornalistas portugueses. Como oradores, na apresentação, estiveram João Luís Garcia, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS), Paulo Martins, docente do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), e Carlos Camponez, docente da licenciatura em Jornalismo e Comunicação da FLUC.

Em entrevista ao Jornal A Cabra, João Miranda declara que os dados que mais o deixaram preocupado foram “o facto de metade dos inquiridos não ter contrato permanente, a remuneração substancialmente baixa e um quarto dos inquiridos estar com vínculo de prestação de serviços”. A solução para a precariedade demonstrada no estudo, sugerida pelo próprio, “centra-se na necessidade dos jornalistas se organizarem em torno de objetivos comuns e de se perspetivarem enquanto coletivo”. O também docente na FLUC e investigador do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX acredita que o 4º Congresso dos Jornalistas, a realizar-se no próximo ano, entre 12 e 15 de janeiro, “é um ponto importante nesse sentido”.

De acordo com a investigação, cerca de metade dos inquiridos recebe menos de 1000 euros brutos como rendimento mensal, dos quais 22,1 por cento recebe entre 601 e 900 euros. Além disso, 41,3 por cento dos jornalistas desta amostra dizem já ter realizado estágios profissionais/extracurriculares não remunerados. Segundo José Luís Garcia, “a ‘web’ desarrumou o jornalismo, em busca do lucro”. “Quem tem suportado a crise da profissão têm sido as camadas mais jovens”, acrescenta.

32,2 por cento dos inquiridos tem formação superior em Comunicação Social e 27,2 por cento em Jornalismo. Já no que toca à obrigatoriedade de detenção de título profissional para o exercício do jornalismo, 91,4 por cento é a favor. 64,6 por cento concorda com a exigência de formação superior e 39,2 por cento apoia que essa formação seja especializada em jornalismo, sobretudo os mais jovens. Sobre estes dados, Paulo Martins conclui que “a exigência pela formação específica demonstra que os profissionais temem a concorrência”. No seu ponto de vista, “a sociedade só fica a ganhar com este modelo aberto a profissionais de várias áreas, pois enriquece as redações”. Já João Luís Garcia considera que “pode haver uma vulgarização dos jornalistas, como aconteceu com os taxistas”.

Em relação à rotina de trabalho, este inquérito conclui que 36,5 por cento dos inquiridos realiza duas a três peças por dia e que uma percentagem muito residual realiza mais de 20 peças por dia. Apenas 30,3 por cento reconhece ter liberdade na escolha dos conteúdos. Já 53,5 por cento nunca vê o seu trabalho modificado sem a sua autorização e 48,3 por cento garantem que os artigos são sempre assinados.

José Luís Garcia demonstra-se “preocupado com o número de peças realizadas por dia, em comparação à sua remuneração”. Segundo o investigador do ICS, “mesmo que estes valores sejam extrapolados em relação aos milhares de jornalistas portugueses, bastaria que houvesse este número de profissionais a serem precarizados para ser preocupante”. Já Paulo Martins revela que “fazer mais de dez peças por dia só pode levar ao desprezo pelo rigor”. Aponta ainda para “um prejuízo do rigor da notícia em função da rapidez da sua transmissão”.

Dentro dos que tiveram formação superior, 92,8 por cento confirma ter tido formação em ética e deontologia, valor satisfatório para o docente do ISCSP. No que toca ao conhecimento e discussão, por parte dos jornalistas, sobre os Meios para Assegurar a Responsabilidade Social [dos media] (MARS), a maioria respondeu “sim” e que a principal causa para o desconhecimento é a fraca divulgação desse documento. 78,4 por cento conhece a atividade desenvolvida pelo Conselho de Redação e 93,1 por cento concorda com a existência de instrumentos de autorregulação no jornalismo. A Comissão da Carteira Profissional de Jornalista é “apenas constituída por jornalistas”, o que indica que estes profissionais “só aceitam ser julgados pelos seus pares”, como destaca Paulo Martins.

João Luís Garcia realça que a digitalização “origina um novo tipo de notícia e de media, que potencia a abertura a novos mercados” e que “é uma autêntica revolução na esfera comunicacional”. O investigador do ICS afirma que “se está perante um capitalismo digital e que este processo se está a fazer às custas da violência sobre os profissionais”.

“Há órgãos de comunicação social que têm exclusivamente jornalistas em estágio curricular a escrever para o ‘online’ ao fim de semana”, o que demonstra “a qualidade dos profissionais”, afirma Paulo Martins. Revela, além disso, preocupação em relação à “fragilização das relações laborais”.

Fotografia por: Inês Duarte

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