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Opinião

As eleições e o vazio da política

Artigo de Opinião por Elísio Estanque (FEUC/ Centro de Estudos Sociais)

As eleições do mês passado para a DG/AAC mostraram a habitual tendência abstencionista dos estudantes e o surgimento de uma lista de “banda larga”, que criou até a ideia de que seria a única a apresentar-se. Isso acabou por não acontecer, mas o modo como a lista vencedora se apresentou aos estudantes merece reflexão porque, a meu ver, isso exprime bem os sinais dos tempos.

Numa Universidade com cerca de 23 mil estudantes, participaram na eleição apenas 5026 estudantes (cerca de 23%, ou seja, uma abstenção de 77%). O desinteresse geral dos estudantes pela participação associativa não pode deixar de relacionar-se com o clima de “vazio cultural” e de ausência de consciência cívica. Não está em causa a bondade dos projetos e a competência dos cabeças de lista. Mas, sem prejuízo de outro tipo de análises, a leitura que aqui proponho centra-se apenas na forma e não no conteúdo. Isto porque essa forma – e o seu significado estético-simbólico – exprime toda uma tendência geral que atinge a juventude portuguesa e, em última instância, a própria democracia.

A Lista F, vencedora da eleição com 87,2% dos votos expressos, permite-nos retirar algumas ilações significativas. Os cerca de 600 nomes dos/as “candidatos/as”, com as respetivas fotografias e faculdades, foram amplamente difundidas num caderno ilustrado e a cores. Este era, digamos assim, o principal “cardápio” eleitoral. A lista organizava-se em treze áreas temáticas: mas os seus conteúdos programáticos (alguns deles apenas) eram resumidos e divulgados em pequenas folhas A5, ocupando, portanto, um papel claramente lateral (para não dizer dispensável). Entre todo esse elenco de nomes pontificavam os cerca de 170 cargos apresentados como de “coordenação”. É curioso verificar a “abrangência”, o peso relativo de alguns cursos e faculdades (letras, engenharias, direito, economia e gestão estavam à cabeça), a distribuição de rapazes e raparigas pelos respetivos pelouros e, desde logo, a secundarização do setor feminino no núcleo duro do poder.

Das ilações que daí decorrem sobressai, antes de mais, o vazio das ideias, ou melhor, a absoluta secundarização das propostas para os problemas da juventude estudantil. Isto denota uma total cedência à lógica do desinteresse e do abstencionismo, apesar das suas boas intenções (ou não fossem alguns dos líderes especialistas em marketing). Não adianta difundir ideias porque pouca gente as lê e lhes dá importância. A participação vincula sobretudo os nomes que constam da lista. É a imagem e o compromisso do próprio, o facto de se estar lado a lado com figuras destacadas da AAC, são esses os fatores que (supostamente) ligam os candidatos/ apoiantes à futura estrutura dirigente da principal academia do país. O que conta é a dimensão expressiva. A participação processa-se por arrastamento: se ele vai eu também vou; fomos convocados por fulano; vem votar na lista de sicrano. Desfeitos ou fragmentados os velhos laços coletivos, da comunidade, da família, etc., a geração atual é vítima de uma tendência de desligamento social e individualismo. No entanto, a necessidade de reconhecimento e integração social não desapareceram. Há um défice de sentido coletivo, um quotidiano pulverizado na solidão e no vazio, que parece encontrar compensação nas múltiplas formas de evasão e simulacros virtuais-reais, como sejam as redes sociais ou a entrega irracional em contextos de multidão. Enquanto a Universidade e o sistema de ensino em geral não investirem a sério na formação política e cidadã das novas gerações, a nossa juventude continuará a ser empurrada para o esvaziamento da democracia e o fim da política.

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