All for Joomla All for Webmasters
Conselho Geral

Ruben Ferreira: “O RJIES é demasiado importante para não ser revisto” [entrevista na íntegra]

Natural de Ovar, Ruben Ferreira está no último ano do Mestrado em Comunicação e Jornalismo. Filiado na Juventude Social Democrata, a sua experiência associativa passa por ter sido Senador da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e Coordenador Geral de Ação Social na Direção Geral da Associação Académica de Coimbra (DG/AAC). Por Rafaela Carvalho e Sandro Raimundo. Fotografias de Raquel Mendonça

Balanço destas eleições? É de louvar o ‘fairplay’ em que as eleições foram levadas, primou-se pela informação do estudante em vez do ataque pessoal entre as listas candidatas. Há algum desinteresse relativamente aos órgãos da Universidade de Coimbra (UC) como o Senado e o Conselho Geral (CG) que se renovam de dois em dois anos, em parte pela dificuldade de representação que os estudantes têm. Penso que correu tudo dentro da normalidade e ganhou o estudante pela valorização e pela informação que teve.

Apesar de tudo, consideras sempre positivo mesmo com os pedidos de impugnação que houve durante o ato eleitoral? Quando fui informado disso, foi o nosso delegado. Pelo que ele nos disse a grande impugnação, o grande problema, era no processo. Claro que esses pedidos de impugnações não são o melhor para uma eleição como a dos órgãos da UC.

As várias listas primaram por informar os estudantes. Ainda assim a abstenção foi de cerca de 83 por cento. De onde vem este desinteresse por parte dos estudantes e o que pensas fazer em relação a isso no próximo mandato? Penso que o estudante não vê uma representação forte, nem num órgão nem no outro, que faça realmente esta informação ser regular. Queremos abrir um gabinete na reitoria em que os estudantes conselheiros recebam os estudantes e ouçam os seus problemas, os aconselhem ou direcionem às diversas soluções que pode requerer à UC e que o estudante conselheiro já deva conhecer. Esperamos que a DG compactue com os conselheiros de modo a direcionar os estudantes para lá para eles serem aconselhados. Se isto acontecer, daqui a dois anos não vai haver o grau de abstenção que existiu agora.

Com a tua lista a obter apenas o voto de 6,11 por cento do votos dos estudantes, consideras-te legitimado? Numa votação para a DG – em que existem quatro, cinco, dez pessoas de uma faculdade numa lista – é muito mais fácil que mobilizem os mais diversos estudantes. Aqui é mais difícil. Mas sinto-me completamente legitimado para fazer estes anos de mandato.

Quais são os pontos do teu projeto a que vais dar mais importância agora no início do teu mandato? As tuas prioridades? Todos os nossos pontos, as nossas bandeiras têm a sua importância. Nós definimos estas bandeiras exatamente com problemas que a universidade tem. Uma universidade com 725 anos de história não pode estar presa ao passado, tem de se desenvolver para continuarmos a ser líderes em Portugal. Nós somos a ligação entre o CG e a comunidade académica, tentando uma aproximação ao estudante. Fazer o estudante ver que realmente os órgãos da universidade têm a sua importância e o podem ajudar. O nosso segundo ponto são os serviços prestados à comunidade, em que englobamos os Serviços de Ação Social (SASUC) e os Serviços Académicos (SA). São imensos e cada vez mais nos deparamos com problemas que estes serviços não conseguem reparar. Consideramos que os serviços académicos têm de ser obrigatoriamente revistos e com uma formação constante. Nós achamos que os SASUC, apesar do esforço que foi feito por exemplo no Fundo de Apoio Social, ainda não consegue corrigir todas as dificuldades. O nosso terceiro ponto é pedagogia, internacionalização e investigação. Achamos que o regulamento pedagógico, o último regulamento pedagógico (RPUC) aprovado é claramente limitador e piora a situação dos estudantes. Na internacionalização focamos, por exemplo, o caso da subida da propina do estudante internacional em que estamos a valorizar totalmente o fator económico do estudante internacional e estamos a deixar para trás tudo o que ele nos traz culturalmente, a nível cívico, a nível pedagógico… Isto não pode ser a solução e o nosso país só tem a ganhar quando apostamos e quando recebemos os estudantes internacionais. O nosso último subponto é a investigação. Consideramos que não é dado o devido apoio aos investigadores da UC, não lhes é dado todo o material necessário para fazerem um excelente trabalho. Os nossos outros pontos são as condições materiais e recursos humanos. Nós vemos a propina a subir, e não vemos melhoria quer nos recursos materiais, quer nos recursos humanos, não há uma renovação nos quadros docentes há muitos anos. Com a não renovação do quadro docente, perdemos a transição de saberes. A nível de condições materiais refiro-me a todas as condições que nós sabemos que a UC falha. Existem estudantes que chegam e não conseguem assistir às aulas, têm de estar sentados no chão. A nível de recursos de gabinetes ou de laboratórios vemos que a UC falha muito. O nosso último ponto é estratégia e futuro. É realmente o ponto para onde o CG é focado. É para definir a estratégia futura da universidade nos próximos anos.

11029776_10203649448105574_1830933204_o

Tens dois anos, então, de mandato a partir de agora. Acha que é suficiente para focar todos estes pontos e para se discutir tudo isto e levar o Conselho Geral a melhorar o interesse dos estudantes? Acho que dois anos nunca são suficientes. Tem de ser um trabalho que tem de ser levado gradualmente. Dois anos não chegam para alterar o percurso inteiro de uma universidade, mas podemos ajudar, podemos dar o nosso contributo e podemos mostrar que os estudantes não estão adormecidos quanto à situação da nossa universidade.

A tua ideia é manter uma política de continuidade face ao que foi feito pelos conselheiros anteriores? Nunca uma política de continuidade, quando alguém chega traz sempre algo novo. Nós queremos manter aquilo que os anteriores conselheiros fizeram de bom e cortar com o que fizeram de mal. A proximidade dos conselheiros à universidade não foi a devida e queremos mudar isso.

Quais os pontos fortes que vês no mandato dos conselheiros estudantes anteriores? Conseguiram uma proximidade ao reitor, conseguiram vincar as suas posições fortemente e fazer prevalecer a sua opinião junto do reitor. Isso é de valorizar, quando os estudantes têm tão pouca representatividade no órgão.

Dentro do Conselho Geral, nas suas diferentes discussões, achas que faz sentido os estudantes concertarem ideias e votarem em bloco? Acho que é obrigatório essa posição existir. Se os estudantes querem ter a sua opinião vincada, têm de reunir consenso, têm de se consertar uns com os outros e chegar a uma posição que valorize o estudante. Os estudantes saem beneficiados de todas as decisões que o estudante conselheiro toma.

Essa vontade já foi discutida com os restantes eleitos? Existe essa vontade, o fair-play que existiu nas eleições permanece. Fomos adversários em eleições e que agora somos companheiros, temos uma luta pela frente que é a defesa intransigente dos estudantes.

Qual a tua opinião acerca do mandato anterior do reitor? Conseguimos apontar-lhe pontos muito positivos em quatro anos em que as instituições viram cortado o financiamento ano após ano. Achamos que o reitor fez um trabalho muito bom nesta gestão económica. Encontramos também algumas falhas e é com isso que vamos atacar. O Regulamento Pedagógico (RPUC) é claramente uma falha, um regulamento que põe em cheque os estudantes, que achamos que tem de ser alterado.

Consideras que os estudantes deviam ter sido mais ouvidos nas novas medidas que foram implementadas? Eu tive, como senador, acesso ao primeiro regulamento ao qual fizemos modificações de alto a baixo. Depois de todo o trabalho, depois de todas as reuniões que tivemos, para esta modificação existir, ela não aconteceu. Não houve preocupação por parte da reitoria em chegar aos departamentos, às faculdades, aos núcleos de estudantes e perceber o que estava a funcionar mal e como é que podia funcionar melhor. A aproximação à DG/AAC foi apenas protocolar. Agora vemos que o RPUC é extremamente injusto e tem de ser vítima de uma reformulação, para conseguirmos que seja executável.

11024951_10203649445385506_127253409_o

Durante este ano o RPUC ainda está numa fase de teste. Achas que pode mudar para o próximo ano? Acho que tem obrigatoriamente de mudar. Esta fase de teste está a ser tão negativa que ou mudam ou vamos ter um regulamento que não vai ser respeitado. Os professores começam a ignorar o regulamento ou os estudantes não o conseguem cumprir. Esta fase de teste tem de ser analisada na íntegra e ver que realmente houve falhas demasiado graves para que ele possa ir para a frente nos moldes em que está.

Enquanto conselheiro geral, que papel acreditas ter para mudar isso? Esse assunto é algo que nós não podemos propor ao Conselho Geral. O que nós podemos pedir é um CG extraordinário para discutir isso. E se acharmos que a reitoria está disposta a levar este regulamento nos moldes em que está para a frente, vitimizando tantos estudantes, aí sim estamos disposto a marcar um CG extraordinário só para se debater o assunto. Conseguimos uma aproximação à DG/AAC, pedimos o apoio dos senadores e dos núcleos e tornamos o regulamento o mais justo possível.

Tendo em conta que vais integrar o órgão que decide a propina, qual é a tua posição neste assunto? Quando somos estudantes universitários temos sempre a ideia que somos contra a propina, e eu sou de facto contra a propina. É frustrante e assustador haver estudantes com mérito estudantil que ficam fora do Ensino Superior (ES) por dificuldades económicas, pois nós sabemos que o nosso sistema de ação social não consegue ajudar toda a gente. Sou completamente contra a propina e acho que numa primeira fase se deve impedir estes constantes aumentos, numa segunda fase tentarmos uma congelação e numa terceira fase a abolição, claramente.

Existe agora a nova possibilidade de um plano mensal do pagamento da propina. Qual é a tua opinião sobre esta possibilidade? Têm que ser os estudantes a ser consultados e a decidir se esta modalidade lhes convém. Todos os estudantes e não me refiro só aqueles que estão em lugares de representação, a todos mesmo, com fóruns de discussão onde possam ser ouvidos. Se realmente a propina for mensal mas os juros continuarem a acumular, é ainda pior para os estudantes que não têm possibilidade de a pagar.

Cerca de 20 por cento do financiamento da universidade vem das propinas. Se as abolíssemos onde pensas que a universidade podia ir buscar esse financiamento? Obviamente aos impostos públicos. Na minha opinião há sempre duas áreas num estado que não podem ser cortadas: a educação e a saúde. É aqui que os nossos impostos têm que entrar para financiar o Ensino Superior.

Tendo em conta que o estado dá cada vez menos dinheiro às universidades e a possibilidade dos impostos financiarem o ES é incerta, onde é que a universidade pode ir buscar mais dinheiro? Aqui não há uma ideia dourada em que se possa ter uma solução perfeita. Tem de ser uma ideia discutida, amadurecida e aí sim, tomada com consciência.

Concordas com todos os membros do CG e com o seu número deles? Não concordo porque os estudantes são uma parte tão fundamental da universidade, pois sem estudantes ela não existia, e têm um poder de decisão quase nulo. As dez entidades externas à universidade, as quais concordo que devem continuar a existir, devem reduzir. Esses lugares devem ser dados aos estudantes, pois realmente os estudantes vêm o que estão a passar e podem dar um panorama completamente diferente das entidades externas. Uma entidade externa que é escolhida para estar aqui num CG de uma universidade e não aparece às reuniões acho que deve ser convidada a sair.

A revisão do Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior (RJIES) devia ter sido feita há dois anos. Consideras que o facto de não andar para a frente pode significar que não irá acontecer esta revisão? O RJIES é demasiado importante para não ser revisto há tanto tempo. Nós temos de bater o pé para que esta revisão exista.

Quais as mudanças mais urgentes? A composição do CG é obrigatoriamente uma das mudanças. Um dos outros pontos que deve ser mudado é a eliminação do regime fundacional.

Secção de Jornalismo da Associação Académica de Coimbra

Rua Padre António Vieira, Nº1 - 2ºPiso 3000 Coimbra

239 851 062

Seg a Sex: 14h00 - 18h00

© 2018 Jornal Universitário de Coimbra - A Cabra

To Top