Amit Singh: “A minha religião são os Direitos Humanos”

Nasceu em Varanasi, na Índia. Viveu em 23 países, estudou em cinco. Investigador e ativista na área dos Direitos Humanos e professor de ioga, Amit Singh já correu mundo com o objetivo de falar por quem não tem voz. Por Luís Almeida e Pedro Dinis Silva

Desde pequeno que Amit Kumar Singh se assemelha a Sindbad, um navegador famoso da literatura do Médio Oriente. “Conhecem o Sindbad? É como o Vasco da Gama. Uma personagem que se aventurava muito no mar, que explorava o desconhecido com coragem”. A última paragem de Amit foi em Portugal, onde é doutorando em Direitos Humanos nas Sociedades Contemporâneas no Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra (UC) desde 2017.

“O CES é um dos melhores [na sua área] e com mais progresso no contexto europeu”, explica Amit Singh. Conta que esta foi uma das principais razões que o trouxe a Portugal. Por outro lado, revela que tem uma grande admiração pela cultura portuguesa, ainda que o seu objetivo principal seja a aprendizagem. “Tenho 43 anos e continuo a aprender. Não acho que uma vida me chegue”, confessa.

O caminho de Amit Singh pelo mundo

Amit Singh deixou o seu país de origem há 14 anos, em 2004. Antes de chegar a Portugal e à UC, concluiu um Mestrado em História Mundial na Universidade de Pondicherry, na Índia, e tornou-se mestre em Direitos Humanos pela Universidade de Madihol, na Tailândia. Fez ainda um Mestrado em Direitos Humanos e Multiculturalismo na Universidade de Southeast, na Noruega. “Quero sempre ir para um lugar onde ninguém me conheça e começar tudo do início”, afirma o investigador.

“Estas experiências podem ser difíceis por vezes, mas é assim que evoluímos e crescemos”. Amit não gosta de padrões, prefere correr riscos e quebrar barreiras. “Precisamos de ir aos lugares onde nunca fomos e de pensar pelas pessoas que não o podem fazer. Se não tivermos nada a perder, não temos medo de tomar riscos”, assevera. Convicto, o ativista indiano vê o mundo como a sua família global. “Quando pensas assim, em todo o lado tens um membro de família, desde a China a Portugal”.

A viagem de Amit Singh começou graças à sua mãe, que lhe financiou os estudos. “É por causa dela que estou aqui hoje”, sublinha. Para além da sua mãe, que foi professora na Índia, o investigador deixou para trás o seu pai, um médico no mesmo país, e o seu irmão, que é engenheiro nos Estados Unidos da América. “Ligo à minha mãe quase todos os dias. Não posso ir lá muitas vezes por causa do preço, é muito caro”, explica Amit. “Na tradição indiana, o filho é que deve tomar conta dos pais, não é bom envelhecerem sozinhos. Neste contexto em particular sinto-me culpado, mas a minha mente está lá”. Para além da situação familiar, o ativista mantém uma relação à distância há mais de dez anos. “Ela é das Filipinas, estudámos juntos na Tailândia”, confidencia.

A ponte entre o ioga e os Direitos Humanos

O investigador recorda que a primeira vez que experimentou ioga foi em 1993, quando estava a fazer a sua licenciatura na Índia. Explica que treinou e se tornou guru, isto é, um mestre na prática. Para Amit, o ioga não é um exercício, é um modo de vida. “Quando ensino, tento passar a mensagem de que, para ter uma vida equilibrada, é preciso ser disciplinado e moderado em todos os aspetos da personalidade”.

Da China à Tailândia, da Noruega a Portugal, Amit já ensinou ioga um pouco por todo o lado. Chegou mesmo a ser o professor oficial desta atividade em Banguecoque pelas Nações Unidas. O ativista acredita que o ioga é uma boa forma de fazer as pessoas interagir e de criar uma conexão entre culturas. Esta prática, que já o acompanha há algum tempo, ajudou-o na sua maneira de refletir sobre os Direitos Humanos. “Ioga significa conexão, trazer harmonia e paz ao corpo. Os Direitos Humanos pretendem trazer paz e harmonia à sociedade”, compara.

A partir do momento em que entras na área dos Direitos Humanos, o teu trabalho deixa de ser uma profissão e passa a ser uma missão. 

Quando estava na China a ensinar ioga, o investigador deparou-se com diversos problemas sociais no país. Por causa da situação, quando Amit voltou para a Índia, estagiou numa ONG local. Lá, começou a escrever artigos onde expunha problemas sociais. Depois, decidiu estudar Direitos Humanos. Assim que terminou os estudos na Tailândia, entrou para as Nações Unidas – sempre a ensinar ioga em simultâneo.

“A partir do momento em que entras na área dos Direitos Humanos, o teu trabalho deixa de ser uma profissão e passa a ser uma missão. Tens de estar em todo o lado”, expressa. O ativista aponta ainda que, nesta doutrina, a estabilidade financeira é muito difícil. Entre artigos e publicações vendidas e algumas aulas de ioga, “é assim que se sobrevive”, conta Amit. “Não te podes basear em apenas uma coisa”.

A dedicação do ativista à defesa da dignidade humana não se cinge apenas ao seu trabalho profissional. Aliás, toda a sua vida pessoal é baseada nos mesmos valores. “A minha religião oficial é o hinduísmo, mas na prática são os Direitos Humanos. No meu passaporte identifico-me como sendo hindu, mas não é isso que pratico”, sublinha Amit Singh.

Liberdade de expressão no contexto académico

“Há mais liberdade académica nos países europeus”, afirma Amit Singh. Apesar de não se pronunciar muito sobre Portugal, por se encontrar cá há pouco tempo, mostra-se contente com a possibilidade de poder escrever e professar a sua opinião sem restrições. Revela que na Noruega a experiência foi idêntica. No entanto, lamenta que outros países por onde antes passou não sejam assim. Em sítios como a China, a Tailândia ou a Índia não se pode falar sobre certos tópicos. “É muito perigoso trabalhar na área dos Direitos Humanos nestes países”, realça. Refere ainda a liberdade de imprensa como um problema. “Enquanto que na Noruega publicam quase tudo o que lhes escrever, na China ou na Índia não é bem assim, pois pode contradizer os interesses do governo”, esclarece o investigador do CES.

Por outro lado, Amit Singh já encontrou outro tipo de dificuldades desde que chegou a Coimbra e até antes disso. Lamenta que o processo para conseguir um visto seja tão complicado. “Os estudantes que vêm da Índia, da América Latina ou de África enfrentam um longo período de tempo para ter o seu visto oficializado”. Compara o caso português com a Noruega, onde teve de esperar apenas 20 dias. Considera que se poupava mais tempo aos estudantes se houvesse uma maior cooperação entre a UC e as embaixadas.

“Uma das coisas que aqui sinto é a barreira da linguagem”, especifica Amit Singh. Revela que na Noruega, dada a existência de vários estudantes internacionais, se usa muito o inglês. Até o próprio programa era dado nessa língua, o que facilitava a integração. “Em Portugal isto não acontece”. É tudo lecionado em português e, de acordo com o estudante indiano, isto pode ser visto como uma “ferramenta de discriminação”, em especial numa sociedade multicultural. “Entro em conferências e vou a atividades culturais, mas venho embora porque são todas em português”, lamenta.

Entre o vinho e a arte, Amit explora Portugal 

“A primeira coisa que me vem à cabeça quando penso neste país é o vinho do Porto”, revela Amit Singh. Continua ao explicar que só começou a beber vinho tinto quando veio para Portugal. O primeiro contacto que teve com a cultura portuguesa foi em Goa. “Está muito presente lá e é mais fácil de a explorar”, informa o investigador do CES. Refere também que a comida de Portugal é mais nutritiva e que o bacalhau é o seu peixe preferido.

Mostra-se um admirador de arte e arquitetura. “Gosto de edifícios antigos, com raízes históricas e culturais”, confidencia. Aponta esta como uma das razões por se ter interessado pela UC. “É uma das universidades mais antigas, o que é algo que me atrai”. Diz querer explorar tudo o que é museu e, no que toca aos gostos musicais, adora fado.

Portugal, para mim, era no fim do mundo, como um mito ou algo saído do universo de Harry Potter.

Descreve os portugueses como pessoas calorosas e acolhedoras. No geral, “Portugal é um país maravilhoso no sentido em que é barato e a natureza e a cultura são boas”, admite. No seu primeiro dia em terras lusitanas, conta que conheceu o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, numa loja de gravatas. O episódio ficou gravado em forma de ‘selfie’ e o encontro chegou a ser noticiado num jornal indiano.

Fala ainda da sua tentativa falhada de se instruir na língua portuguesa. Depois de aprender duas expressões, “obrigado” e “onde está o banheiro?”, apercebeu-se de que se tratava de português brasileiro. Lamenta que as pessoas na Índia não saibam muito sobre Portugal, pois “há uma grande falha de comunicação”. “A primeira coisa que soube deste país foi Vasco da Gama. Portugal, para mim, era no fim do mundo, como um mito ou algo saído do universo de Harry Potter”, observa. Então, decidiu vir explorar Portugal, “esse país lindo”, como lhe chama.

Fotografias: Pedro Dinis Silva