Livros e outras artes ilustram viagem pela Feira Cultural de Coimbra

Artesãos e livreiros convivem com amantes da gastronomia para degustar durante dez dias os sabores do mel e das queijadas e ouvir palavras escritas e encenadas, numa mostra cultural que se quer “para todos”, a convite do Município de Coimbra. Por Isabel Simões

Em vésperas da apresentação da equipa que vai preparar a candidatura de Coimbra a Capital Europeia da Cultura em 2027, o presidente da Câmara Municipal de Coimbra, Manuel Machado, abriu de forma oficial a 41ª Feira do Livro, 18ª edição da Feira do Artesanato com a afirmação de que “todos têm lugar na Feira Cultural de Coimbra”. Presentes na inauguração da mostra, instituições como a Comunidade Intermunicipal da Região de Coimbra e do Turismo do Centro fizeram-se representar ao mais alto nível. Numa antecipação do que se pretende para a candidatura a Capital Europeia, Manuel Machado estendeu o convite “a todos os conimbricenses” e aos “vizinhos” para visitarem a feira que vai estar no Parque Manuel Braga de 1 a 10 de junho.

O Convento São Francisco recebe, na próxima terça-feira, dia 5 de junho, a apresentação pública da equipa que vai organizar a candidatura a Capital Europeia da Cultura. Até ao dia 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, livreiros, escritores, artesãos e instituições culturais e artísticas da cidade e do país vão divulgar os seus talentos. O número de expositores tem crescido nos últimos seis anos.

Número de expositores na Feira Cultural de Coimbra. Fonte: conferência de imprensa de apresentação da Feira

Uma editora que gostaria que a feira do livro fosse acompanhada por “outro programa cultural”

A editora da Alma Azul, Elsa Ligeiro, presença habitual na Feira Cultural de Coimbra, aponta alguns reparos à programação cultural da mostra. “Não me parece digna de uma feira do livro duma cidade universitária como Coimbra”, afirmou. A Feira do Livro ocupa a entrada sul do Parque Manuel Braga com as editoras a promoverem alguns descontos e a trazerem escritores como Júlio Magalhães e Rita Ferro. Estes vão conversar com os leitores no Palco dos Livros, local criado em especial para o efeito.

No dia 9 de junho, a Alma Azul conta com a presença da Marta Dutra, uma das autoras do livro “As mãos no fogo”. A escritora faz parte das residências de escrita da editora com Fátima Mateus Ramos e António Fontinhas. Elsa Ligeiro chama a atenção para o texto “muito político da defesa dos animais” do ensaio de Marta Dutra. Destaca ainda a apresentação no próximo domingo, dia 3, da biografia do General Ramalho Eanes do jornalista Nelson Mingacho, lançado em janeiro em Alcains, terra natal do general. A publicação deu início à coleção “Em nome da Beira”, da qual vai fazer parte um texto sobre Isabel de Aragão, a publicar no outono de 2018.

São vários os géneros literários e os editores presentes na Feira do Livro. Os públicos infantojuvenis têm espaços de leitura na representação da Biblioteca Municipal, com a “hora do conto” a acontecer em vários momentos do dia.

Encontros do passado com o futuro

Uma Sala de Aula do tempo dos avós atrai pequenos e graúdos. O material dos anos quarenta e cinquenta do século passado veio dos arquivos das escolas do Concelho de Coimbra, não faltam cópias dos cadernos de duas linhas onde se aprendia a escrever. Alguns artistas deixam marcas de carimbos do futuro, como a lembrar o anunciado “aeroporto” prometido em campanha eleitoral pelo autarca de Coimbra.

José Mendes Afonso, um escultor que veio de Bragança

Artesão de santos populares como Santo António ou a Rainha Santa Isabel, deixou a construção civil e desde que foi “transplantado” dedica-se à arte da pedra em Bragança, perto do castelo. A partir do outono vende castanhas assadas no largo da Sé. José Mendes Afonso, está pela décima vez na mostra de artesanato de Coimbra a trabalhar a pedra. “Gosto de Coimbra”, faz questão de dizer ao repórter, a quem revela que começou por trabalhar na madeira mas o material molhava-se e demorava a secar.

A mudança de arte veio-lhe com um desafio de um senhor da freguesia de Samil, em Bragança. Algumas das pedras mais duras eram “botadas fora” para debaixo da adega. A conversa aconteceu na Feira das Cantarinhas e em breve José subiu ao monte com a “carreta”, em busca de material para esculpir. A arte da pedra, apesar de “ser boa e dar dinheiro, não há ninguém que a trabalhe”, por ser preciso “ter gosto, coração e amor à peça”, lamenta. Em agosto podemos vê-lo na Feira Medieval em Bragança.

Arte em papel com raios de luz

Alexandra Almeida é originária de Lisboa, vive em Condeixa e tem atelier em Penela. Trabalha a arte do papel. Em 2011 foi premiada com o segundo lugar no Prémio Nacional do Artesanato pela escultura de um Galo de Barcelos em que usou a técnica do ‘Papier Mâché’.

A partir do elemento da cultura popular portuguesa, a artesã pensou em “tirar mais partido” dos pontilhados colocando-os numa situação plana onde se podem ver melhor os desenhos de luz. Azulejos e cerâmicas portuguesas foram as fontes de inspiração para desenvolver “quadros que são feitos com várias camadas de papel”, revelou. Está na Feira Cultural de Coimbra pela primeira vez com a sua empresa de nome “avedoda”. A ideia surgiu do dodó, uma ave da ilhas Maurícias e que tomou o nome porque “não fugia quando a tentavam capturar”.

Não faltam à Feira Cultural lugares para degustação, desde os doces conventuais até aos queijos artesanais, presuntos e enchidos. Há produtos de várias regiões do país com forte destaque para a presença dos produtos da Serra da Estrela e da Serra da Lousã. A praça de refeição está situada na zona central do Parque Manuel Braga mas de quando em onde é possível alimentar-se com outras iguarias, algumas vindas de outros continentes. A entrada na feira é gratuita e a organização é da responsabilidade da Câmara Municipal de Coimbra. Pode consultar o programa cultural aqui:

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Fotografias: Isabel Simões