Diogo Batáguas vem a Coimbra e “não quer saber”

Apaixonado pela rádio, é na comédia que encontra a sua real vocação. O comediante vai atuar dia 19, no Conservatório de Música de Coimbra. Por Ana Lage e Ana Sofia Neto

Fala-nos um pouco de ti, do sítio de onde vens, de como foi a tua infância, as loucuras da tua adolescência e qual foi o teu percurso até chegar à rádio.

Nasci numa zona suburbana, nos arredores de Lisboa, e moro na Margem Sul, Almada. Daí até à rádio? Sempre me interessei pela comunicação social, mas não pensava ser jornalista. Não sabia o que queria fazer da vida e achava que a comunicação social era interessante, porque já tinha curiosidade pela rádio. Vi que o curso gradual, na Universidade Autónoma de Lisboa, tinha umas cadeiras não-práticas que todos os cursos de comunicação tinham, na zona de Lisboa. Como queria esse curso, mas não queria essas cadeiras, antes do terceiro ano. Andei um bocado a pastar até chegar àquela parte que me interessava, porque era um bocado baldas. Então fiz como devia ser, as cadeiras que me interessavam eram, a rádio, televisão e audiovisuais, que inclui edição, por exemplo. Tinha sempre, à partida, melhores notas a estas que eram as minha cadeiras de eleição. Foi isso que me levou a entrar na rádio. Soube da abertura de uma vaga na Rádio Clube Português e uma das locutoras era colega de um professor nosso que sugeriu algumas das pessoas da sua turma para ir à entrevista e acabei por ficar eu, até porque aldrabei um bocado para ficar. Em suma, perguntaram se eu tinha disponibilidade total e disse que tinha, mas não era verdade. Tive, no entanto, colegas que vim a descobrir mais tarde que também estavam na entrevista e uma delas era uma forte candidata ao lugar. Acontece que ela foi burra e disse que não tinha disponibilidade total. Uma vez a ocupar a vaga, escorei um bocado o curso, mas não ia dizer que não, para terminar o mesmo. Acabei por entrar assim com base numa aldrabice.

Há algum momento que consideras relevante contar-nos?

A minha vida não foi assim tão interessante como pode parecer que foi. Tive uma vida normal. Nunca roubei… Por acaso, roubei (risos). Quando éramos mais novos, roubávamos na brincadeira. Foi estúpido. Havia uma escolinha à nossa frente e nós entrávamos no lugar onde se punham as bolas de basquete e de futebol. E pronto, tiramos as bolas de lá e fomos apanhados. Tinha um ginásio e estivemos a brincar com o que roubamos. Foi na brincadeira, depois devolvemos tudo. Não foi mesmo por maldade, foi só estupidez. Não me considerem um criminoso (risos).

O interesse por fazeres ‘stand up comedy’ surgiu antes ou depois de entrares no ramo da comunicação?

Eu já gostava de ver ‘stand up’, mas ainda não sabia muito bem. Comecei a ver quando era pequeno. Vi um programa que dava na TVI às 4 da manhã. Na altura não havia a box para poder voltar atrás e o programa só passava uma vez por semana. Eu ficava acordado até muito tarde para conseguir ver, porque adorava aquilo. No entanto, não sabia se o que eu via era sequer uma profissão. Percebi que me fascinava na altura enquanto atividade, mas estava longe de adivinhar que ia ser o meu futuro de alguma maneira. Há 20 anos, em Portugal, não se falava de ‘stand-up comedy’, portanto, só sabia que gostava de lá estar enquanto espectador. Entretanto, conheci o Pedro Tochas, que foi dos primeiros a aparecer em Portugal, e outros profissionais da área, que eu gostava de ver. Ainda não tinha na cabeça que gostava de o fazer, até porque tinha muito medo… vamos imaginar estar num palco e falar para não sei quantas pessoas. Só a ideia dessa possibilidade deixou-me com muito medo. Na altura, acabei por adiar bastante a estreia. Já tinha uma fantasia, mas o ‘stand up’ era um pouco mais que isso. Mas fazer algo a sério relacionado com isto só depois de velho, aos 25/26 anos. Existiam poucos bares de stand ‘up comedy’. Já havia pessoas a partilhar ‘stand-up’. Portanto, a vontade surgiu antes da comunicação, no entanto, trabalhei imenso tempo na rádio, antes de me dedicar à comédia.

Como é que uma pessoa começa a fazer ‘stand-up comedy’? Vai-se a um café e dizem-se umas quantas piadas?

Não há muito a saber. Aquilo que eu achei interessante foi também a forma como comecei. Primeiro, convidaram-me para um público pequenino, estavam poucas pessoas a ver. Portanto, a ideia era subir ao palco, e mesmo que não dissesse nada de jeito, o importante era superar aquele primeiro nível. A melhor forma, para mim, baseou-se em reunir um grupo de malta e organizar os nossos próprios “espetáculos” para amigos, convidávamos alguns para ir ver e começamos a fazer de forma regular, sem estarmos dependentes de um estabelecimento. Arranjámos sempre alternativa de ‘stand ups’. Organizamos um grupo e fomos atuando com o nome de ‘Comedy Pack’. É uma forma eficaz: ter um grupo e atuar regularmente, porque a irregularidade não gera público, no entanto, a regularidade permite-te perceber e limar os teus defeitos. Embora haja muita gente que começa a atuar em bares manhosos, não há uma fórmula mágica. Há, também, malta que começa nas redes sociais e quando já tem público organiza espetáculos para os ir ver.

Há muita gente a fazer stand ‘up comedy’. O que achas que te diferencia e que formas é que arranjas para cativar o público?

O stand ‘up comedy’ é muito pessoal. Não escolhes uma maneira de te diferenciares. Escreves aquilo a que achas graça a nível pessoal, algo que achaste giro, uma coisa que o teu cérebro se lembrou de partilhar contigo próprio. Nunca podes ser igual a ninguém, a menos que faças qualquer tipo de comédia e precises de citar alguma referência. Há uns anos, toda a gente era igual ao Bruno Nogueira e ao Ricardo Pereira. Toda a gente fazia piadas com o sotaque do João Seabra ou do Nuno Rocha. Antes fazia-se muito isto e essas eram as minhas referências. Aqui tu é que escreves os teus textos que provêm das coisas que vives e de ideias que crias na tua cabeça. Quando eu vou ver um comediante eu sei que ele está a partilhar coisas que só ele podia partilhar porque são criações e vivências dele. Eu acho que os melhores comediantes por norma não experimentam técnicas diferentes. Uma vez que a sua personalidade é cativante, acabam por se destacar. O segredo é seres tu próprio e achares que a tua vida e o teu sentido de humor dão para o palco.

Porque decidiste passar a série “Quero lá saber” para o palco?

Um espetáculo ‘stand up’ não tem nada a ver com vídeos. É só o nome que se mantém porque é um estado de espírito. Hoje em dia toda a gente anda muito irritada com tudo e não se pode gozar com isto ou aquilo. Não se pode dizer nada sem que alguém fique ofendido. As redes sociais têm essa vantagem de poderes dizer o que te apetece: o canal é meu, portanto, digo o que eu quiser. Não tenho contrato, nem estou dependente da linguagem que um chefe me permite usar. Essa libertação é interessante nas redes sociais. Vão sempre existir pessoas que vão assistir ao teu conteúdo, mas que só querem criticar. Apesar de teres liberdade total para criares os teus conteúdos na internet, ‘stand-up comedy’ permite-te dizeres aquilo que te apetece. À partida quem pagou para te ver, gosta do teu trabalho. Vai para se divertir e estar à vontade, não para se ofender. No “Quero lá saber”, o nome é o mesmo, mas não tem nada a ver com os vídeos. Aquilo vai ser ‘stand-up’ puro. Os vídeos têm temáticas da atualidade, o ‘stand-up’ não tem de ser atual.

Qual foi a pior e a melhor reação que tiveste do público enquanto humorista?

Fiz um espetáculo para mil pessoas no Tivoli e foi incrível. Posso dizer que foi das melhores atuações. Daquelas em que me senti mais confortável, ou mais feliz no fundo. Eu não sabia se conseguia encher o Tivoli, é sempre um risco. E ainda por cima foi no meu dia de anos e foi especial para mim. Quando atuas para o teu público à partida não tens reações muito más. Há malta que pode gostar mais ou menos. Uma noite má era, por exemplo, atuar para um público que não me conhece e que acaba por não se identificar com aquilo que digo. Quando começas por atuar em bares mais pequenos ou sítios manhosos, corres o risco que “não cair em graça”. O teu sentido de humor pode não se adequar ao deles, e aí, sentires mais dificuldades. Já aconteceu ter pessoas mais velhas que saíram porque não estavam a gostar do que eu estava a fazer. O sentido de humor tem de encaixar em quem o produz e o recebe. A malta que não gosta está no seu direito de não gostar.

O que é que as pessoas podem esperar de um espetáculo teu?

Podem esperar honestidade no sentido em que eu tento libertar-me ao máximo em palco. Sou muito pessoal, uso o meu percurso profissional e pessoal. Existem coisas que não partilho nos vídeos, porque ficam para sempre na internet e, aí, eu faço umas brincadeiras sobre assuntos atuais. No palco é um momento mais íntimo. Tu conheces uma parte nos vídeos, uma que é social e uma parte das redes. Mas depois se quiseres conhecer a verdadeira personalidade das pessoas é no espetáculo que isso acontece. Sou um bocadinho mais agressivo, mas também mais honesto e íntimo.

O Diogo Batáguas de hoje em dia é o mesmo de há 10 anos atrás?

Não, acho que não. Os teus valores não mudam muito. Esses ficam mais ou menos definidos na fase inicial da construção da tua identidade. Mas ao emadureceres, ficas mais ou menos estúpido. Mais adulto e responsável, mas isso não é bem o meu caso. Sou um bocadinho mais preguiçoso. Não sei se mudei assim muito. Acho que não me preocupo tanto com que as pessoas dizem e pensam. Tens uma maturidade maior e estás-te nas tintas para muita coisa, já não tens paciência para lidar com assuntos irrelevantes. Dás mais valor às pessoas que te fazem sentir bem e estás menos preocupado em seres outra pessoa para agradares aos outros.

Consegues-te descrever em cinco palavras?

Preguiçoso, hedonista, descontraído, engraçado e razoável.