A Literatura e o Cinema na Casa das Humanidades

FLUC faz jus às Letras. A arte “mais do que reproduzir o mundo, deve fazer-nos interrogá-lo”. Por Bernardo Almeida Henriques

O Ciclo de Palestras “O Ensino da Literatura e de Outras Artes” vai apresentar a sua quarta sessão, “Literatura e Cinema”, amanhã, dia 17 de Março, às 10h, no Anfiteatro III (4º Piso) da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC). A iniciativa vai ter como protagonista o professor jubilado da FLUC, Abílio Hernández, especialista em Literatura Inglesa.

O conjunto de conferências resultou da colaboração entre o Núcleo de Estudos em Ensino (NEE) da FLUC e o Centro de Literatura Portuguesa (CLP) da Universidade de Coimbra (UC). No que diz respeito a este último, dividido em quatro áreas de investigação, é o grupo Património Literário que tem vindo a cooperar nos trabalhos.

De acordo com a Diretora dos Mestrados em Ensino com Português, Ana Maria Machado, o projeto surgiu na sequência da revisão dos programas e das metas curriculares dos respetivos cursos. Em concreto, a relação da Literatura com as Artes é hoje um tópico exigido nos conteúdos programáticos e, nesse sentido, “é importante dar alguma formação neste domínio”, explica a docente. “O objetivo foi suprir uma lacuna na formação de professores”, acrescenta.

Para cumprir o desígnio do Ciclo, foram preparadas sessões que contemplassem várias vertentes artísticas. Estas materializaram-se em seis palestras distintas: O Ensino da Literatura e Outras Artes; Literatura e Música; Literatura e Imagem; Literatura e Cinema; Literatura e Música II; Literatura e Digital. Para cada uma delas, foram convidados especialistas, informa Ana Maria Machado.

Literatura e Cinema

Segundo Abílio Hernández, as relações entre a Literatura e o Cinema remontam ao final do séc. XIX, quando a designada ‘sétima arte’ nasceu. As ligações entre as duas artes vão ser o objeto de debate da palestra ‘Literatura e Cinema”. “Enquanto que a Literatura já há séculos é considerada uma arte fundamental, o cinema não nasceu com uma legitimidade artística e cultural. Pelo contrário, era um puro espetáculo e, portanto, marginalizado nesse aspeto”, elucida o professor jubilado pela FLUC.

Foi a busca por um lugar ao sol no mundo das artes que conduziu o Cinema à Literatura, por ter “encontrado nela, desde logo, um ponto comum: a arte de contar histórias”, esclarece Abílio Hernández. Essa linha de contacto estabeleceu “uma ligação muito forte expressa em pontos concretos nas questões do tempo e da duração, nas questões do espaço e nas questões dos pontos de vista”, completa o antigo docente.

No que concerne à adaptação de obras literárias ao grande ecrã, e vice-versa, e à fidelidade das respetivas representações, o professor considera o assunto uma não questão. Filmes e romances “são objetos autónomos que depois, entre si, estabelecem imensos laços de diálogo e de confronto. É isso que a arte nos oferece”, indica Abílio Hernández. Nesta linha de pensamento, relembra ainda que “ninguém põe a questão da fidelidade ou da traição, à música ou à pintura”.

Para corroborar o seu ponto de vista, dá como exemplo, entre outros, a adaptação da ópera “Rigolleto”, de Giuseppe Verdi, inspirada num drama de Victor Hugo “Le Roi s’Amuse”. Na sua ótica, Verdi faz tropelias à peça de Victor Hugo e “ninguém se incomoda com isso”.

Embora Abílio Hernández reconheça cada ramo das Artes como produtor autossuficiente, explana que “as fronteiras da arte existem, mas nunca são rígidas ” e que o ideal é que “esses territórios comuniquem entre si”. A título exemplificativo diz que “o Cinema está a ter um diálogo muito profícuo com a arte contemporânea”, o que se manifesta em “experiências de videoarte e também com uma aproximação do cinema ao museu e vice-versa”.

Sem perder de vista o objetivo de contribuir para o ensino da Literatura e das Artes, o professor jubilado, atribui às escolas e universidades um papel central na promoção de hábitos de leitura e de espírito crítico nos estudantes. Este último, sobretudo, é essencial no mundo artístico porque, segundo Abílio Hernández, a arte “mais do que reproduzir o mundo, deve fazer-nos interrogá-lo”

Estas vão ser algumas das matérias a discutir amanhã na Palestra.

Fotografia: Inês Nepomuceno