“Areia Movediça” afunda Casa da Esquina em exposição artística

Iniciativa parte de “escape visual” à realidade da autora. Trabalho foi feito a partir de materiais reutilizados. Por Miguel Mesquita Montes

Na sequência do seu segundo aniversário, o projeto “Marquise”, da Casa da Esquina, apresenta este sábado, dia 16 de dezembro, pelas 18 horas, a exposição “Areia Movediça”, com a presença de Marta Monteiro, ilustradora e realizadora. “Os trabalhos são feitos com papel recortado, papel de lustro e papel colorido, que até foi utilizado pelas crianças nas escolas”, indica a artista, ao recordar que “quando era professora, às vezes os alunos deixavam material na sala”, e que acabou por o utilizar em algumas destas experiências.

“Esta é a primeira vez na Casa da Esquina”, refere Marta Monteiro. A oportunidade surgiu porque “já conheciam as ilustrações que tinha feito, por exemplo, para livros”, clarifica. A maior parte dos seus trabalhos são feitos de forma digital, mas este ponto cultural “tinha preferência por outro tipo de obra, mais única”, informa a ilustradora.

No retomar da atividade de exposição, que admite não fazer “há muito tempo”, considera “difícil” prever qual é que vai ser a repercussão que uma mostra destas vai ter. Conhece algumas exposições que também lá estiveram, através de convites feitos via Facebook, “e a Casa da Esquina será um novo impulso”, prevê Marta Monteiro.

Sem uma intenção inicial de expôr o seu trabalho, a artista revela que o fez “para evitar estar sempre em frente ao computador”. Acrescenta que “este foi feito de modo mais tradicional, ao cortar e colar papel”. Foi durante a produção de um dos seus filmes de animação, quando trabalhava “cerca de dez horas por dia”, que a realizadora tentou “fugir do trabalho semanal, daquilo que tinha de fazer todos os dias”. Confidencia, ainda, que usou aquilo a que apelida de “escape visual” para poder trabalhar de forma mais livre. A obra a apresentar consiste “num trabalho não muito realista, ligado às emoções interiores do medo, da incerteza e da angústia, através da representação de um desconstruir de figuras femininas”, contextualiza a ilustradora.

“É cada vez mais difícil ilustrar”

Para Marta Monteiro, que vai procurá-la em textos, filmes e músicas, ou até nas “coisas corriqueiras do dia-a-dia”, a “inspiração é cada vez mais difícil de encontrar” porque, à medida que conhece mais, fica com a ideia de que sabe menos. “As pessoas dizem que, com o tempo, aprendem mais”, afirma, ao contrapor que no caso dela “é diferente, que permanece sempre a sensação de que há muito mais por saber”.

“Na altura, a ideia de chamar “Areia Movediça” à exposição teve um pouco a ver com a situação em que ela surgiu”, conta a artista. A metáfora que este título representa “vem de uma altura em que tinha muito trabalho”, elucida. “Por vezes, ao fim-de-semana, só conseguia descansar um pouco ao sábado, de tão cheia de trabalho que estava”, demonstra a ilustradora, que admite ter estado “numa situação perigosa”. Se não fizesse as ações que considerava corretas, sentia que se estava a afundar, porque, “quando se está na areia movediça, quem mais se mexe mais se afunda”, conclui.

Fotografia cedida gentilmente por Marta Monteiro