O discurso que inaugurou a Universidade Livre de Coimbra vai ser hoje recordado na Cidade

 “Alguém que defendia a liberdade e que achava que esta se conquistava através da cultura”. O discurso de um professor catedrático, cientista reconhecido, investigador e defensor da liberdade é relembrado 100 anos depois. Por Joana Pedro

Após terminar o seu curso em Ciências Histórico-Naturais, tornou-se o primeiro assistente do Grupo de Botânica da Faculdade de Ciências de Coimbra. A preocupação com práticas pedagógicas tornou-o um dos fundadores da Universidade Livre de Coimbra, em 1925. O discurso prenunciado pelo professor no dia de sessão inaugural da instituição está agora refletido no livro “A Universidade Livre de Coimbra”. O mesmo tem apresentação marcada para o dia de hoje, por volta as 18 horas, na Casa Municipal da Cultura de Coimbra, e vai contar com a presença do professor doutor Carlos Fiolhais e do doutor Paulo Archer de Carvalho como oradores.

Manuel Seixas, um dos organizadores do evento, revelou que o livro está dividido em duas partes. Numa primeira parte, o prefácio. Para a edição fazer mais sentido, afirmou o mesmo, procurou-se alguém entendido na matéria para o elaborar. O doutor Paulo Archer de Carvalho, investigador do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX (CEIS20), da Universidade de Coimbra (UC), foi o escolhido para o papel. A segunda parte é ocupada pelo discurso prenunciado pelo professor Aberto Quintanilha, na íntegra. “O livro vale pelos dois, em partes iguais”, acrescentou Manuel Seixas.

Paulo Archer de Carvalho elucidou para o contexto histórico do surgimento da Universidade Livre de Coimbra. A “Revolução de outubro”, na Rússia, em 1917, trouxe consigo a emergência das necessidades da população em geral. Em Coimbra, surgiu uma tentativa: tornar possível a educação dos mais desfavorecidos, em particular, dos operários. A Universidade Livre foi o rasto disso e o discurso de Alberto Quintanilha que a inaugurou foi, segundo o autor do prefácio do livro, revolucionário. Contudo, nas palavras de Manuel Seixas, foi também apaziguador e importante para a época.

“Ele foi um pioneiro: achava que a educação e a democracia estavam interligadas”, sublinhou Paulo Archer de Carvalho. A ideia, na altura, passou por garantir que a educação não se devia restringir a certas classes, pretendia-se uma abrangência universal. Alberto Quintanilha era “Alguém que defendia a liberdade e que achava que esta se conquistava através da cultura”, acrescentou o autor do prefácio do livro.

O projeto da Universidade teve, contudo, um destino infeliz, com um período de 8 anos de existência, mas a pertinência deste livro não é abalada por isso. Paulo Archer de Carvalho reflete sobre o “défice na educação e na ciência” visíveis ainda hoje e acrescenta que “Em Portugal, a memória é pouca. Fala-se muito de história, mas conhece-se pouco dela”.

Fotografia por: Joana Pedro