“Mulheres de força” levam o público “do riso à lágrima”

Artistas de Paredes dão a conhecer uma parte da história pouco divulgada de Portugal. Elevar o estatuto de notoriedade da figura feminina é um dos principais objetivos da peça. Por Pedro Silva

A Companhia Astro Fingido quebra fronteiras, este sábado, com a apresentação da peça teatral “Mulheres Móveis”, na Oficina Municipal de Teatro. Do grupo de teatro de Paredes chega a Coimbra uma produção baseada “na ocupação de carreteira” desempenhada por mulheres, “que transportavam mobiliário à cabeça”. Elas “chegavam a percorrer distâncias de 70 quilómetros”, ao mesmo tempo que suportavam cargas que ultrapassavam o seu próprio peso, esclarece o encenador do espetáculo, Fernando Moreira.

“Este fenómeno foi mais marcante dos anos 1920 aos anos 1960, sobretudo no norte do país”, explica. Identifica, ainda estas mulheres como as “pioneiras da indústria mobiliária em Portugal”. Um dos objetivos da peça passa por elevar o estatuto de notoriedade da figura feminina na sociedade, de acordo com o encenador.

A Companhia de Paredes procura tornar visível uma dimensão social que é, segundo Fernando Moreira, muitas vezes esquecida pela história. O encenador lamenta que, “por serem pessoas que, no máximo, tinham a primeira ou segunda classe” já não lhes foi “permitido fazer parte do nosso passado”. A peça visa consciencializar os espectadores. O público “tem sentido afeto por parte das personagens” e isso tem a ver com a “surpresa”, por não saberem que “estas pessoas existiam”, avança.

O produto final, apresentado pela companhia, é resultado de uma investigação dramatúrgica que contou com a participação direta destas mulheres. “Decidiu-se fazer entrevistas a mulheres carreteiras”, senhoras que já têm “80 ou 90 anos”, realça o encenador. A peça também procura criar uma reflexão sobre “a vida de sacrifício e esforço” que o encenador identifica nas protagonistas. Fazer a ligação de Paredes ao Porto, “com uma carga que ultrapassa o próprio peso, é visto como desumano, nos dias de hoje”, remata.

Mais do que “analisar a problemática de um ponto de vista político”, a atenção dos membros da companhia esteve “direcionada para o lado emocional”. Fernando Moreira explica que se procurou “explorar mais o lado humanista”, refletir como “estas mulheres de força” sobreviveram naquele que era o seu contexto social da época. No entanto, também enfatiza a capacidade do espetáculo numa perspetiva mais positiva, ao classificar a peça como uma “montanha russa de emoções”, que “pode ir do riso à lágrima com uma facilidade enorme”.

Fernando Moreira sente-se otimista quanto às expectativas de adesão por parte da comunidade conimbricense. “Pensava-se que era um espetáculo regional”, mas depois percebeu-se que “assumiu uma dimensão maior”, pela mensagem que transmite. O encenador tem “fé de que possa esgotar aqui em Coimbra”. O espetáculo tem início a partir das 21h30.

Fotografia: Hugo Guímaro