Casa da Escrita constrói ponte entre Japão e Portugal

Exposição representa continuidade de “State of Mind”. Projeto traz ponto de vista mais introspetivo, com a colaboração de José Luís Peixoto. Por Sílvia Andrade

Uma “abordagem conjunta da fotografia e da literatura” é o objetivo da nova exposição de Nuno Moreira, denominada “ZONA”, que vai ter lugar na Casa da Escrita. A inauguração está prevista para amanhã, dia 1 de outubro, pelas 16h.

O fotógrafo residiu quatro anos em Tóquio e afirma que foi “um período importante do ponto de vista de trabalho”, já que foi aí onde “toda a série foi fotografada, concebida e pensada”. Quando regressou a Lisboa decidiu materializá-la e finalizar o livro que agora dá nome à exposição.

“ZONA” é um projeto com fotografias de Nuno Moreira e textos de José Luís Peixoto. “Temos folhas de texto a preto que vão interrompendo a leitura das imagens”, explica o fotógrafo.

Nuno Moreira revela que conheceu o escritor no Japão e que lhe explicou que se encontrava a fazer recolha de alguns textos, mas que estava “indeciso entre colocar esses escritos no livro ou não, devido à forte carga pessoal”. José Luís Peixoto “disponibilizou-se para escrever algo que não tinha que ser necessariamente sobre as imagens, mas sim que corresse paralelamente”.

Desse encontro surgiu também a ideia de incluir os textos em três línguas. Podemos lê-los em português, em inglês, de forma a “chegar a um maior número de pessoas”, e em japonês, pelo simbolismo dos responsáveis pelo projeto se terem conhecido em Tóquio, esclarece o fotógrafo.

As fotografias, assim como o título da exposição, “surgiram de uma maneira muito inconsciente”, expressa Nuno Moreira. “Quando me lembrei do título, achei que coincidia com o tópico de uma pesquisa interior, de um pensamento”. O fotógrafo cria um paralelismo com o cinema, ao identificar-se com a obra do realizador russo Andrei Tarkovsky. Nuno Moreira explica que o cineasta cria “personagens que, por coincidência, também estão sempre num local que não se sabe bem onde é. É muito onírico”.

O objetivo do fotógrafo é que “as pessoas, ao olharem para as imagens, consigam criar algo e sejam levadas para outro local”. As fotografias devem ser apenas “uma porta para outro sítio, para nos levar a pensar. Para nos desenraizar do nosso quotidiano. Acho que é essa a ideia da arte”, afirma.

Nuno Moreira opina que “todos estamos preparados para ver qualquer tipo de arte”. “Temos tendência a pôr tudo numa fasquia muito baixa, por receio de não haver uma compreensão do trabalho. Mas as pessoas têm que estar abertas a esse tipo de desafios”. Explica ainda, como consequência, que não tem grandes expectativas, mas que espera que as pessoas gostem.